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Jamil Chade

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Com eleição, diplomatas brasileiros sofrem para serem recebidos no exterior

18.jul.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) ataca o sistema eletrônico de votação em reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, em Brasília. - Clauber Cleber Caetano/PR
18.jul.2022 - O presidente Jair Bolsonaro (PL) ataca o sistema eletrônico de votação em reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada, em Brasília. Imagem: Clauber Cleber Caetano/PR
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

06/08/2022 04h00

Resumo da notícia

  • Relatos de embaixadores brasileiros na Europa apontam dificuldade para serem recebidos por governos locais e outras missões
  • Principalmente em democracias, agenda bilateral foi em parte "congelada" até que uma definição sobre eleições ocorra
  • "Frieza" de diplomacia internacional em relação ao Brasil aumentou depois de reunião de Bolsonaro com embaixadores estrangeiros

Um embaixador brasileiro que recentemente desembarcou na Europa seguiu o protocolo diplomático e, ao assumir o novo posto, entrou em contato com seus homólogos baseados na mesma capital. O objetivo era se apresentar e iniciar um diálogo com o objetivo de defender as posições brasileiras sobre diferentes temas da política externa.

Mas, para sua surpresa, o que ele recebeu foi o educado aviso de diferentes governos: sim, queremos o diálogo com o Brasil. Mas, infelizmente, a agenda está cheia. Voltamos a nos falar em outubro?

A realidade vivida pelo embaixador brasileiro na Europa não é um caso isolado. Em diferentes negociações e em diferentes contatos com diplomatas espalhados pelo mundo, a experiência se repete, principalmente em democracias ocidentais.

Sem jamais declarar publicamente tal postura, governos aguardam a definição política do país para voltar a negociar temas de interesse mútuo. Fontes no Itamaraty destacam que a resistência em manter a agenda regular vem, acima de tudo, dos europeus.

De acordo com fontes em chancelarias estrangeiras e em organismos internacionais, não se trata apenas de uma pausa para saber quem vencerá a eleição. Mas se de fato a eleição de outubro ocorrerá.

"Obviamente, o que é urgente continua a ser tratado. Mas há um congelamento da agenda externa em muitos casos", admitiu um diplomata brasileiro na América Latina.

Procurado, o Itamaraty garantiu que nada mudou. "A agenda externa do governo brasileiro tem seguido normalmente, como se pode observar nas informações divulgadas regularmente pelo Ministério das Relações Exteriores nas suas redes sociais e por meio de notas à imprensa", afirmou.

Mas para um dos mais experientes embaixadores do Brasil numa capital da Europa, o esfriamento dos contatos é uma "realidade". "Eles estão todos esperando por uma nova administração no Brasil", disse, na condição de anonimato por conta de pressões que poderia sofrer.

Nos EUA, por exemplo, negociadores revelaram que a gestão de Joe Biden está sob forte pressão dos deputados de sua base, que querem que a Casa Branca adote uma postura mais dura contra o governo de Jair Bolsonaro. Entidades brasileiras que estiveram com deputados americanos destacam que, para eles, não faz sentido investigar o envolvimento de Donald Trump e da extrema direita na invasão do Capitólio, no ano passado, e ao mesmo tempo manter uma relação de proximidade com Bolsonaro.

Já a Comissão Europeia vive uma potencial crise. Está planejado para setembro a publicação de uma espécie de atualização dos termos do acordo entre Mercosul e União Europeia.

Mas o temor interno no bloco é de que, se o novo documento for favorável aos interesses do Brasil ou suave demais nas exigências ambientais, ele será visto como um instrumento de apoio ao presidente Jair Bolsonaro.

Não faltam governos nacionais no bloco europeu que pedem para que qualquer negociação ou novo documento sobre o acordo seja adiado para 2023, como é o caso da França.

Mas um segundo grupo teme que, numa eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, o acordo que já foi assinado em 2019 entre os dois blocos seja reaberto para uma nova negociação. A avaliação de um setor próximo ao ex-presidente, o que o Brasil negociou foi insuficiente.

Existe ainda, dentro da Europa, o lobby dos governos da Hungria e da Polônia, ambos ávidos em ajudar Bolsonaro a ser reeleito.

A mesma resistência aos embaixadores brasileiros não é encontrada em ditaduras ou governos que, como a Rússia, estão buscando aprofundar novas parcerias para driblar sanções impostas por americanos e europeus.

Na África, o fenômeno tem conseguido ser contornado por conta de o Brasil ter mantido, ainda que em escala menor, os projetos de cooperação técnica que foram desenvolvidos nas últimas décadas pela Agência Brasileira de Cooperação.

Diplomatas na região acreditam que não exista, como acontece na Europa, um congelamento da relação. Mas vários deles concordam que, se o Luiz Inácio Lula da Silva for eleito, deverá haver uma "retomada de uma natural simpatia" pelo Brasil na região.

Apesar do entusiasmo contido entre os africanos com um eventual fim do governo Bolsonaro, observadores alertam que o cenário de estabilidade e de boom das commodities, do qual se aproveitou a gestão de Celso Amorim no Itamaraty, dificilmente será reeditada nos próximos anos.

Isso poderá comprometer um retorno mais vigoroso do Brasil em termos de projetos, inclusive financiados pelo BNDES.