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Obsessão de Bolsonaro apequena novo chefe da PF

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/05/2020 23h00

As obsessões fazem de Jair Bolsonaro uma pessoa coerente. Ele nunca tem outras ideias, permanece aferrado às suas ideias fixas. O recurso que pede o Supremo que reveja a decisão de Alexandre de Moraes, barrando a nomeação de Alexandre Ramagem para comandar a Polícia Federal, revela duas coisas, ambas desagradáveis.

Primeiro, o gesto expõe o caráter cenográfico da ascensão de Rolando de Souza, subordinado de Ramagem na Abin, à direção-geral da PF. Segundo, elimina qualquer réstia de dúvida quanto à obstinação de Bolsonaro de colocar no topo da hierarquia da PF Ramagem, o amigo da encrencada família Bolsonaro. Na prática, Bolsonaro apequena o doutor Rolando, que acabou de nomear. O novo diretor-geral fica ainda menor quando é chamado a despachar questões burocráticas da PF com o presidente da República, como teve de fazer nesta sexta-feira.

Bolsonaro é um presidente sem máscara. Ele estampa a cara da crise. Dedica-se a criar dificuldades. Se elas se mostram pequenas, Bolsonaro cuida de magnificá-las. De repente, as crises passam a influenciar o rumo do seu governo. O cancelamento da nomeação de Ramagem deixou o recurso do Planalto sem nexo. Pouco importa. Bolsonaro conduz um governo da crise, para a crise e pela crise. O presidente poderia ter adiado a nomeação de Ramagem, para recorrer ao Supremo. Não fez isso.

O presidente vive em estado crônico de perseguição. Se não existirem inimigos, ele os cria. Qualquer auxiliar com luz própria, como Sergio Moro, cedo ou tarde vira adversário. Mestre na fabricação de crises, Bolsonaro não sabe como desfazê-las. Em tempos de pandemia, o presidente deveria se apresentar ao país com a imagem da tranquilidade. Bolsonaro não consegue. Mesmo tendo um excesso de calos, ele faz questão de se meter em apertos. Por isso está sob investigação.

Josias de Souza