PUBLICIDADE
Topo

Regina Duarte confunde o telejornal com a telenovela

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/05/2020 19h26

Regina Duarte fez a sua vida na televisão. Quando aceitou o cargo de secretária da Cultura do governo de Jair Bolsonaro, ela continuou sob holofotes. Mas não se deu conta de que mudou de núcleo. Adotou nos telejornais um comportamento típico de telenovela.

Na ficção, Regina viveu seu melhor papel na novela Roque Santeiro. Encarnou a viúva Porcina, aquela que foi sem nunca ter sido. Na vida real, Regina imaginou que seria possível repetir o roteiro. Viveu a ilusão de comandar a secretaria da Cultura sem jamais ter sido uma secretária de fato.

Quando recepcionou Regina no governo, um ano e dois meses depois de chegar ao Planalto, Bolsonaro já tinha nomeado e exonerado quatro secretários. Finalmente, a Secretaria de Cultura está "nas mãos de quem realmente entende do assunto", ele disse.

De fato, comparada aos antecessores, Regina representava um avanço. Mas não havia nenhuma segurança de que sua encenação pudesse ser menos breve do que as gestões anteriores. O próprio Bolsonaro incluiu no discurso de boas-vindas uma descortesia que valeu como aviso: disse que a atriz passaria por um período "probatório".

O discurso de posse de Regina flertou com a perfeição. A secretária parecia cheia de vida. Não imaginou que seria jurada de morte. Dizia que seu propósito no cargo era a "pacificação" do setor. Enxergava a Cultura como "geradora de emprego, renda, educação e inclusão social".

Regina não se deu conta de que Bolsonaro vê na Cultura apenas uma trincheira ideológica. Olavo de Carvalho, o guru da família Bolsonaro, deflagrou a campanha pela queda da nova secretária no dia seguinte à posse.

Ironicamente, foi num programa noticioso de televisão, na CNN, que Regina tentou abandonar o figurino de telenovela para assumir sua nudez política. Por um instante, assumiu o papel ideológico que Bolsonaro esperava dela.

Regina justificou o silêncio diante da morte de personalidades de grande relevo cultural -"Será que eu vou ter que virar um obituário?"-, cantarolou a marchinha preferida do ditador Médici -"Pra frente, Brasil"-, contemporizou com a tortura e a morte nos porões da ditadura -"Sempre houve tortura, não quero arrastar um cemitério nas minhas costas"-, e ainda celebrou fritura -"Estou adorando estar aqui."

A atriz perdeu o pouco respeito que ainda tinha na classe artística. E não ganhou o apreço do chefe.

Regina foi apeada do cargo, já bem passada, depois de 77 dias de fritura. Ao aceitar uma vaguinha de figurante na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, a atriz subverteu até o brocardo. Provou que é errando que se aprende... a errar.

Em vez de sair de fininho, Regina manteve-se em cena. É como se a dificuldade de distinguir telejornal de telenovela impedisse a personagem de enxergar o papel patético que escolheu desempenhar no final de sua carreira.

Josias de Souza