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Ex-secretário mira na cabecinha de Witzel: 'Fogo!'

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

16/07/2020 03h17

Autoconvertido num caso raro de ex-governador ainda no exercício do cargo, Wilson Witzel experimenta a mesma sensação que impôs à bandidagem do Rio de Janeiro ao anunciar sua diretriz para meliantes flagrados empunhando fuzil: "A polícia vai mirar na cabecinha e... fogo!" O ex-secretário de Saúde Edmar Santos aponta na direção do cocuruto de Witzel uma delação com potencial para abater o que resta de sua biografia.

"Não sou ladrão e não deixarei que corruptos e ladrões estejam no meu governo", disse Witzel em vídeo postado nas redes sociais. Faltou explicar o que fazia o potencial delator no primeiro escalão do governo fluminense. Sérgio Cabral também se apresentava como homem de bem. Depois, decidiu se dar bem. Pilhado com os bens, acabou na cadeia. Seu secretário de Saúde, Sérgio Côrtes, também foi em cana.

"Fui juiz federal por 17 anos", disse Witzel. "Na minha carreira, tive uma vida ilibada. Fui considerado um juiz linha dura." De duas, uma: ou o espelho do Palácio Laranjeiras mente para Witzel ou o faro do "juiz linha dura" sumiu nos instantes mais cruciais —como na hora em que foi recrutado para o primeiro escalão do seu governo o agora preso Edmar Santos, a quem se atribui a posse de R$ 8,5 milhões. Dinheiro vivo, apreendido na semana passada.

"Peço ao povo do Estado do Rio de Janeiro que acredite, porque nós vamos vencer essa guerra contra a corrupção." Difícil atender ao pedido do governador. Escaldado, o povo do Rio já aprendeu que o conhecimento é mais valioso do que a crença. E o que se conhece até aqui desaconselha a credulidade.

A Polícia Federal realizou batidas no palácio onde vive Witzel e no apartamento onde morou. No Judiciário, é protagonista de um inquérito por corrupção que inclui a sua mulher. No Legislativo, toureia um processo de impeachment. Quer dizer: convém não acreditar em nada, exceto na crença do descrer.

Josias de Souza