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Josias de Souza

Novo chefe do MEC traz alívio por aceitar o óbvio

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

17/07/2020 02h37

O pastor Milton Ribeiro, novo ministro da Educação, reconheceu no seu discurso de posse que o Estado é laico e que ele terá que dialogar com acadêmicos e educadores. São duas obviedades absolutas. Mas o óbvio virou uma espécie de comprovação da teoria evolucionista de Darwin diante do terraplanismo educacional dos antecessores Velez Rodrígues e Abraham Weintraub, que pareciam ter dificuldades para aceitar Copérnico.

Deve-se aplicar à chegada do pastor a filosofia das botas apertadas de Brás Cubas. Personagem do célebre livro de Machado de Assis, Brás Cubas vivia momentos de raro alívio e prazer depois de descalçar as botas ao entrar em casa. Concluiu que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra. Fazendo doer os pés, as botas oferecem ao dono a extraordinária satisfação de se livrar delas. Nessa teoria, os calos existem para aperfeiçoar a felicidade terrestre.

Em um ano e meio de governo, Milton Ribeiro é a quarta tentativa de Jair Bolsonaro de livrar o Ministério da Educação dos inconvenientes provocados pelos calos da irracionalidade. Carlos Decotelli, o terceiro calo, caiu antes da posse, por inconsistência curricular.

Impossível prever qual será o tempo de duração do alívio, pois as qualidades do novo ministro são desconhecidas. E ele fará mudanças apenas pontuais na equipe do MEC. Terá de conviver com parte dos auxiliares deixados por Weintraub. Na secretaria de Alfabetização, por exemplo, há um olavista. No Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, há um par de prepostos do centrão, o agrupamento partidário dinheirista.

O novo ministro declarou-se "entristecido" com o flagelo educacional brasileiro. Sem citar nomes nem números, fez referência às colocações dos estudantes brasileiros no ranking do Pisa. Trata-se do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. O último relatório foi divulgado em dezembro de 2019. Trazia resultados referentes ao ano de 2018. Expôs a raiz do atraso nacional.

Verificou-se que quatro em cada dez alunos brasileiros na faixa dos 15 anos não entendem o que leem, não sabem fazer contas básicas e não compreendem conceitos elementares de ciência. Não se chega a um desastre desse tamanho por acaso. O teste mostrou que o Brasil se acostumou com o vexame. O país caiu no abismo educacional e não esboça a intenção de sair dele.

Os indicadores do Brasil no Pisa estão estagnados há uma década. E fica tudo por isso mesmo. Num ranking de 79 países, os alunos brasileiros ficaram nas 20 piores posições em leitura, em matemática e em ciências. Para enxergar o que está por trás do problema, é preciso olhar por cima dos indicadores. A causa da encrenca é o analfabetismo governamental.

Falta à Educação brasileira um lote de políticas públicas capazes de sobreviver aos governos. Falta um lote de iniciativas de Estado. Coisas perenes, que sobrevivam ao longo do tempo. Eleito por 57,7 milhões de brasileiros como solução, Bolsonaro converteu-se em parte do problema. Velez e Weintraub dedicaram-se a exibir a própria inépcia e a caçar comunistas.

Na entrevista em que comentou os resultados do Pisa, Weintraub preocupou-se em realçar dois pontos: 1) coletados em 2018, os números não têm nada a ver com o governo Bolsonaro; 2) A culpa é do PT e da sua "doutrinação esquerdófila". O então ministro absteve-se de informar para onde planejava levar a Educação. Hoje, sabe-se que a gestão de Weintraub tinha rumo. Estava na trilha que conduz ao brejo.

Para retirar a Educação do caminho do desastre, o pastor Milton Ribeiro terá de se superar. Não basta reconhecer o óbvio ou reconstruir conceitos despejados sobre o púlpito da igreja. Toda a sabedoria humana não vale um par de botas curtas, disse Brás Cubas —ou Machado de Assis, expressando-se pelos lábios do personagem.

Resta saber se Bolsonaro permitirá que o ministro desaperte as botas da ideologia. Espera-se, de resto, que o pastor disponha de talento administrativo. Do contrário, ele logo descobrirá mais uma obviedade: quem tem calos não deveria entrar em apertos.