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Necropolítica de Bolsonaro menospreza coronavírus e celebra Golpe de 1964

Máscara N95, usada por Bolsonaro, é uma das mais avançadas, mas não protege os olhos - Reuters
Máscara N95, usada por Bolsonaro, é uma das mais avançadas, mas não protege os olhos Imagem: Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em diversos países e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). É diretor da ONG Repórter Brasil, conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos. É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), entre outros.

Colunista do UOL

31/03/2020 03h44

Bolsonaro desdenha das vítimas do coronavírus como desdenha dos mortos pela ditadura, que completa 56 anos nesta terça (31). Acredita que são baixas de guerra. Avalia que, em nome de um bem maior determinado pelo autocrata de plantão, o governo tem soberania para decidir quem vive e quem morre. Uma análise mais refinada colocaria Bolsonaro como exemplo da necropolítica, no conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe. Para o grosso da população, basta a comparação com um chefe de milícia.

Jair Bolsonaro corria o risco de passar para a história apenas como um presidente medíocre, mentiroso e agressivo. Até que a pandemia de coronavírus chegou ao Brasil. No único momento em que o país precisou de sua liderança, ela não apareceu. Pelo contrário, dedicou-se sistematicamente a facilitar os óbitos de milhares de brasileiros não apenas por um negacionismo passivo, mas lutando ativamente contra as medidas sanitárias. Ao mesmo tempo, sua demora em garantir ajuda a trabalhadores atingidos e micro e pequenas empresas prejudicadas semeou caos social e econômico, que colheremos em breve.

Prontamente revelou seu ciúme em relação a um subordinado que se destaca, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Por outro lado, foi incapaz de demonstrar empatia com as famílias dos mortos por Covid-19. Inseguro, precisou lembrar mais de uma vez aos jornalistas que "o presidente sou eu". Em uma coletiva de imprensa montada para convencer que ele estava fazendo algo de útil na crise, teve a coragem de dizer que "se o time está ganhando, vamos elogiar o técnico, que se chama Jair Bolsonaro". Mas o time não está ganhando, nem tem um técnico.

O naco não-circense de seus ministros nunca o respeitou. Mas, agora, diante das manchetes de jornais e revistas ao redor do mundo tratando-o como um terraplanista biológico, não se importam mais em esconder isso. Começa a ser visto como café com leite por pessoas como Sergio Moro, Paulo Guedes e Mandetta. Pior, como inimputável.

E ao tentar salvar sua reeleição em 2022, prejudicada diante da iminente recessão de uma economia em quarentena, pode ter rifado seu próprio mandato - que dificilmente sobreviverá se a contagem de corpos chegar a quatro dígitos por dia.

Jair Bolsonaro nunca escondeu dois desejos: reescrever a história e entrar para a história. E dedicou-se ao primeiro, acreditando que o segundo viria automaticamente.

O Palácio do Planalto, durante sua gestão, foi convertido em uma espécie de "Ministério da Verdade", como no romance "1984", de George Orwell, destinado a ressignificar os registros históricos e qualquer notícia que seja contrária ao próprio governo - como escrevi aqui em novembro de 2018. Para tanto, sua máquina de guerra nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens foi usada para atacar a imprensa, o Congresso e o Supremo.

"AI-5! AI-5! AI-5! AI-5!" Uma multidão de fãs de Bolsonaro se aglomerou para se contaminar e tirar fotos com o presidente durante as maniufestações contra o Congresso Nacional em 15 de março. Sorridente, o presidente saiu do Palácio do Planalto para contaminá-los e tirar selfies, desrespeitando o isolamento de sete dias para quem volta do exterior. Vale lembrar que sua comitiva de viagem aos Estados Unidos foi um dos vetores de difusão do coronavírus no Brasil. Um grupo mais exaltado pedia um novo Ato Institucional número 5. Bolsonaro - que jurou proteger a Constituição Federal - acenava a eles.

Neste 31 de março, em que lembramos do golpe de 1964, também rememoramos que, desde que assumiu, Bolsonaro diz que mortes e tortura de dissidentes políticos e indígenas pela ditadura são uma grande mentira. E que o ignóbil coronal-açougueiro Brilhante Ustra foi um herói. Não há dúvida que o presidente nos levaria de volta a 1964 - ou, pior, a 1968 - se pudesse. Prova é seu comportamento durante a pandemia de coronavírus.

Tendo subestimado o tamanho da pandemia, apostou o seu mandato que o coronavírus será um traque em comparação ao que acontece na Itália, Espanha e Estados Unidos. E acredita que, se tudo der errado, sua máquina de mentiras passará pano em tudo. Nem todas as fakes sobre primos de caminhoneiros serão suficientes para esconder a montanha de corpos que se avizinha.

Se assim for, não será apenas enviado à reserva, como em 1988, após subverter a ordem e colocar a vida das pessoas em risco no Rio. Bolsonaro vai conseguir entrar para a história. Mas não do jeito que imaginava.

Em tempo: "Há 56 anos, as FA [Forças Armadas] intervieram na política nacional para enfrentar a desordem, subversão e corrupção que abalavam as instituições e assustavam a população. Com a eleição [indireta, pós-golpe] do General Castello Branco, iniciaram-se as reformas que desenvolveram o Brasil." Postagem do vice-presidente, general Hamilton Mourão, defendendo o golpe militar, nesta terça, lembra a quem tem apreço à democracia que o dia seguinte a uma renúncia ou a um impeachment também não seria nada fácil.

Leonardo Sakamoto