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Coronavírus: Bolsonaro prefere vender "elixir mágico" ao invés de governar

Jair Bolsonaro (Foto: reprodução) - Jair Bolsonaro (Foto: reprodução)
Jair Bolsonaro (Foto: reprodução) Imagem: Jair Bolsonaro (Foto: reprodução)
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/05/2020 21h00

O Brasil atingiu, nesta segunda (18), 16.792 mortes por covid-19, com 13.140 novos casos, totalizando 254.220 pessoas que testaram positivo para a doença. Os números oficiais são bem menores que os reais, claro. Mas o que o exame não vê, a estatística de óbito não sente.

Ao invés de convidar governadores e prefeitos para estruturar um plano de entrada e saída de áreas do país em quarentena e bloqueio total (lockdown), considerando que já somos o terceiro país com maior número de casos, o presidente segue vendendo um "elixir mágico" como solução para todos os problemas.

Afinal, se a cloroquina acaba com o coronavírus, então para que perdermos tempo, dinheiro e empregos com medidas de isolamento social?

A questão é que, a esta altura do campeonato, não adianta mais Bolsonaro interpretar o presidente racional. Uma mudança na forma como ele trata a pandemia salvaria milhares de vidas, mas evidenciaria que cometeu crimes contra a saúde pública. Donald Trump e Boris Johnson alteraram sua estratégia em um momento anterior, Bolsonaro já ultrapassou o ponto de não-retorno. Deve continuar, portanto, apostando na minimização da morte.

Por exemplo, o despeito com o qual tratou do tema fez o país perder tempo precioso que poderia ter sido usado na estruturação de uma forma mais inteligente de pagar o auxílio emergencial de R$ 600,00, uma forma que não aglomerasse multidões e colocasse em risco a vida dos mais pobres.

Ele, que quer a economia de volta imediatamente para garantir que não se torne um ex-presidente em exercício, segue empurrando as pessoas para a rua. Promete que a cura estará no tal elixir, rodeando-se de "especialistas" que ecoam o que ele diz e ignoram o que provam estudos científicos brasileiros e internacionais - ou seja, que o remédio não vale a pena.

O presidente adota a estratégia de algumas lideranças religiosas que prometem a cura para as piores enfermidades a quem contribuir com a sua igreja. E lucram com essa cura, mesmo que o mérito pela solução dos problemas de saúde dos fieis tenha sido de seus próprios sistemas imunológicos, sem milagres. De acordo com médicos e pesquisadores, a maior parte dos pacientes por covid-19 se recupera por conta própria, sem depender de internação ou fornecimento de oxigênio hospitalar. Distribuindo cloroquina para esse grupo, portanto, o presidente busca levar o crédito pelo que fizeram os glóbulos brancos.

Daí, se você não tomou e morreu, culpa de quem não te deu o remédio. Se tomou e morreu, culpa de quem te deu tardiamente. Se tomou cedo e morreu mesmo assim, desculpe, pessoas morrem. E daí?

Bolsonaro deveria agir como um presidente, coordenando esforços e crescendo com a crise. Prefere ser um curandeiro, prometendo o alívio para todos os males, vendendo mentiras em nome do ganho pessoal.

Não sei se o presidente já leu Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. Se não, deveria, pois é um livro mais interessante do que as memórias do torturador Brilhante Ustra, que repousavam em sua cabeceira durante as eleições. Talvez fosse se reconhecer na tentativa do protagonista de conceber seu "emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar nossa melancólica humanidade".

Afinal de contas, a cloroquina pode revelar que esse povo todo internado nos hospitais, afogando-se com os pulmões cheios de líquido, acha que está doente, mas não está. É tudo uma histeria. Uma fantasia. Uma gripezinha.

Leonardo Sakamoto