PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Em meio à alta do arroz, Guedes defende salário maior para Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Economia, Paulo Guedes - Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ministro da Economia, Paulo Guedes Imagem: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), “Escravidão Contemporânea” (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

09/09/2020 18h16

Enquanto o cidadão comum faz milagre para comprar o arroz e o feijão, que estão sumidos ou pela hora da morte, o ministro da Economia, Paulo Guedes, defende que o seu chefe, o presidente da República, deveria receber "muito mais do que recebe hoje".

Jair Bolsonaro tem um salário de quase R$ 31 mil mensais, além de palácio, comida, roupa lavada, emas para brincar, helicóptero para dar carona no casamento do filho e um cartão corporativo que não discrimina os gastos ao público. Sabe como é, questão de "segurança nacional".

"A Presidência da República, o Supremo, evidente que eles têm que receber muito mais do que recebem hoje. Pela responsabilidade do cargo, pelo peso das atribuições, pelo mérito em si para poder chegar a uma posição dessas", disse Guedes.

Ele defendia a existência de uma diferença salarial entre o ingresso e o topo da carreira, afirmando que, no Brasil, essa dispersão é pequena, quase "socialista". E que era necessário fomentar a meritocracia.

Bem, o mérito de Bolsonaro foi ter sido votado. Porque, em quase três décadas de parlamento, ele não mostrou muita produtividade que justificasse uma promoção.

"Tem que haver uma enorme diferença de salários sim. Quantos chegam ao STF ou ao TCU?" Sem demérito aos ministros do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Contas da União, alguns deles competentes juristas, mas a indicação para os postos nessas cortes, apesar de demandar conhecimento jurídico, é política.

O salário de R$ 39,2 mil dos ministros da Suprema Corte é, em tese, o teto do funcionalismo público. Em tese, por que é mais fácil o tal camelo passar pelo tal buraco da tal agulha do que chegar o dia em que magistrados, das mais diversas instâncias e esferas, recebam o limite a eles estabelecido.

O ministro acredita que os salários do topo de carreira devam ser bem maiores para atrair bons profissionais para o funcionalismo. Considerando a realidade brasileira, não é possível dizer que rendimentos da ordem de R$ 31 mil ou R$ 39 mil, com benefícios e estabilidade, são pouco. Isso sem contar que a iniciativa privada está aí exatamente para quem quiser ganhar mais cascalho. A participação na administração pública tem outra natureza. Não é para pagar salário de CEO de multinacional ou de diretor de fundo de investimento.

Pouco é ganhar R$ 1.045 por mês. Mas, no dia 1º de setembro, Guedes criticou, mais uma vez, a defesa do aumento real do salário mínimo. "Você vai condenar as pessoas ao desemprego", avisou.

Vale lembrar que a política de valorização do SM, implodida pelo governo Jair Bolsonaro, foi um dos mais importantes instrumentos de redução da pornográfica desigualdade no Brasil, um dos países que mais concentra renda em todo o mundo.

Servidores públicos não têm todos o mesmo perfil. Entre os que ganham estão os de carreiras de Estado (como magistrados, procuradores, diplomatas e auditores fiscais), que foram protegidos na Reforma Administrativa de Paulo Guedes.

O outro grupo não tem a mesma proteção, muito menos recebe o mesmo respeito. Dele fazem parte, por exemplo, os professores - chamados pelo então ministro da Educação Abraham Weintraub de "zebras gordas".

Vale lembrar que o próprio Guedes chamou funcionários públicos de "parasitas" do orçamento nacional, no dia 7 de fevereiro. "O hospedeiro [governo] está morrendo, o cara virou um parasita", afirmou Guedes, criticando a política de aumentos salariais de servidores. Diante da repercussão negativa, disse que sua fala foi descontextualizada e que reconhece a qualidade do serviço desses trabalhadores. Ahã.

Desigualdade dificulta que as pessoas vejam a si mesmas e as outras pessoas como iguais e merecedoras da mesma consideração. Leva à percepção de que o poder público existe para servir aos mais abonados e controlar os mais pobres. Ou seja, que a polícia e a política protegem os privilégios do primeiro grupo, usando violência contra o segundo. Com o tempo, a desigualdade leva à descrença nas instituições - o que explica muito de tudo que tá aí, talkey?

Traduzindo: hoje, em meio à carestia, em muitos lugares, um salário mínimo compra 26 sacos de cinco quilos de arroz, enquanto o salário de um ministro do Supremo compra 980.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Leonardo Sakamoto