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Leonardo Sakamoto

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasil chega a 400 mil mortos nesta 5ª, 'grande dia' para a necropolítica

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

28/04/2021 20h21Atualizada em 29/04/2021 13h38

Mantendo o ritmo de óbitos registrados diariamente, o Brasil atingiu as 400 mil mortes nesta quinta (29). Com os 1.678 óbitos registrados pela manhã, totalizamos 400.021. O alto patamar é o resultado mais palpável da estratégia de Jair Bolsonaro de espalhar o vírus para atingir imunidade de rebanho e acelerar o fim da pandemia.

A imunidade coletiva, contudo, não veio e, segundo especialistas, nem chegará do jeito que o presidente pensa. Mas o efeito colateral dessa estratégia assassina, as centenas de milhares de corpos, está aí - apesar de muitos bolsonaristas acharem que pedras foram sepultadas no lugar de pessoas.

Nesta quarta, completou um ano que Bolsonaro, frente a um questionamento por mortes, disse: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre". Parece até que foi hoje. Nada mudou.

Todos os dias chegam notícias de pessoas queridas que se foram por causa de uma doença evitável se tivéssemos governo. E todos os dias me pego pensando o que será, nos próximos anos, dos filhos e filhas que elas deixaram e das biografias que elas não terminaram. E todos os dias sinto uma tristeza ao lembrar que o carrasco não tomou o poder pela força, mas foi eleito, avisando a todos que a morte teria centralidade em seu governo. E todos os dias agradeço pelo fato de que ainda não perdi a capacidade de me espantar frente a uma parte da população que acredita em cloroquina, mas não em vacina.

É difícil explicar para alguns amigos jornalistas de fora do país como é viver sob um governo que persegue a morte o tempo inteiro e das mais diferentes formas.

Onde um presidente da República se diverte de jet ski quando o Brasil atinge os primeiros 10 mil mortos por covid. Onde um ministro da Economia reclama do aumento da expectativa de vida dos brasileiros, afirmando que, desse jeito, a conta pública não vai fechar. Onde um ministro do Meio Ambiente defende, sem nenhum pudor, que as mortes da pandemia sejam usadas como cortina de fumaça para impor o desmonte da proteção ambiental, condenando esta e as futuras gerações. Onde membros da cúpula do governo elogiam publicamente um notório torturador e assassino da ditadura, chamando-o de herói.

Herói é quem sobrevive apesar deste governo.

Fosse o presidente capaz de sentir empatia, iria à TV, nesta quinta, para pedir desculpas. Como governa um país que vive uma catástrofe humanitária, ele tem responsabilidade pelo bem-estar do povo. Mesmo que não fosse o culpado (e ele é o principal culpado), uma pessoa decente faria isso.

Nesta terça, foi no sentido oposto: "Eu não errei em nada". Sob a ótica da promoção do vírus, ele não errou mesmo. Fez tudo o que tinha planejado para sabotar o combate à covid e seguir com seu plano que se resume em "pegar, pegou, morrer, morreu, bola pra frente que tem reeleição no ano que vem".

Por isso, esta quinta será o Grande Dia de Jair. Curioso para ver como ele vai celebrar. Churrasco? Jet Ski? Bolo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL