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Leonardo Sakamoto

Brasil decide agora se 3ª onda da covid-19 será uma marola ou um tsunami

20/05/2020 - Ala de UTI para pacientes internados com coronavírus no hospital Gilberto Novaes, em Manaus (AM) - Michael Dantas/AFP
20/05/2020 - Ala de UTI para pacientes internados com coronavírus no hospital Gilberto Novaes, em Manaus (AM) Imagem: Michael Dantas/AFP
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

06/05/2021 09h49

Com a redução na média móvel de mortes por covid-19, o governo de São Paulo sinaliza que pode decidir por um relaxamento de medidas de isolamento. Indicadores, contudo, mostram um quadro de estabilidade que pode ser prenúncio tanto de uma queda quanto de uma terceira onda de contaminação, ainda pior que a segunda.

O Centro de Contingência do Coronavírus de São Paulo e médicos ouvidos pela coluna que coordenam equipes covid-19 em hospitais particulares de São Paulo não endossam o coro pelo relaxamento. Como informou reportagem do UOL, apesar da queda na média móvel de mortes, a Secretaria de Saúde registrou alta de 2,5% nos novos casos diários em relação à semana anterior.

Aumento de casos, vale lembrar, pode se transformar em aumento de mortes duas semanas depois.

Outra apuração confirma isso, apontando que após semanas de estabilidade, as internações voltaram a crescer nos últimos três dias, segundo dados da Universidade de São Paulo. A taxa de ocupação de leitos, que passou de 90% nos últimos dois meses, está em 78,3% no estado.

Pelo quadro apresentado, que demanda cautela, a reclassificação das restrições do Plano SP apenas sofrerá afrouxamento, nesta sexta (7), por uma decisão política e econômica, não sanitária.

O governador João Doria sofre pressões para reabrir a economia. Ele foi o principal alvo das manifestações bolsonaristas na avenida Paulista deste sábado (1º) - ecoando os ataques desferidos a ele pelo presidente da República, pensando em 2022.

Ao mesmo tempo, tem sido grande a reclamação de setores econômicos, como o de bares, restaurantes e o de lazer, pela reabertura. É bobagem afirmar que todo empresário que quer reabrir é terraplanista biológico. O mais correto é que eles sofrem da falta de suporte por parte do poder público.

O atraso de 96 dias do governo Jair Bolsonaro em prorrogar o auxílio emergencial (sem contar o seu novo valor baixo) e a demora em retomar os programas de redução de jornada e de salário para a manutenção de empregos e de apoio às micro e pequenas empresas aumentaram a pressão sobre os governadores para abandonar medidas de isolamento social.

Essa falta de apoio por parte do governo federal ajudou na quebradeira de negócios e em um desemprego que ainda não aparece nas estatísticas porque muitos trabalhadores desistiram de procurar serviço por que sabem que não vão encontrar neste momento da pandemia. De acordo com a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) Contínua, do IBGE, estamos em 14,4 milhões de desempregados, mas os números reais podem chegar aos 20 milhões.

A oposição na CPI da Pandemia, no Senado Federal, vê o atraso como parte da estratégia de Bolsonaro de forçar uma contaminação da população para que seja atingido o quanto antes da imunidade de rebanho e o vírus pare de circular. O problema é que o efeito colateral disso são mortes. Até agora, o Brasil já registrou mais de 414 mil óbitos.

O Estado de São Paulo nunca chegou a implementar um bloqueio total visando à contenção e redução de casos. Tivemos quarentenas duras, mas nada que se assemelhasse a um lockdown, como os de cidades da Europa, da China e da Nova Zelândia. Isso fez com que as medidas de restrição fossem menos eficientes e se estendessem por muito mais tempo, afetando vidas e a economia.

Jair Bolsonaro tem repetido a bravata de que vai usar o Exército para reabrir a economia, o que é risível, mas tem efeitos em seus seguidores. Nesta terça, repetiu que baixaria um decreto nesse sentido e alertou para que ninguém ousasse contraditá-lo, em um recado tosco ao Supremo Tribunal Federal.

Mas também há uma parcela da sociedade que não consegue, não pode ou não quer ficar em casa, que vai aumentando com o passar do tempo.

O Instituto de Métricas de Saúde e Avaliação da Universidade de Washington, que vem acertando em suas previsões, apontou que o país vai viver um quadro de relativa estabilidade no número de mortes, ainda que num patamar alto, até o dia 21 de maio.

A partir daí, a projeção mais provável aponta para uma terceira onda em forma de "marola", com um leve aumento no número de mortes. O pior cenário é um tsunami, com um pico de média móvel de mortes de mais de 4,2 mil, bem maior que o recorde de 3.125 registrado em 12 de abril.

O melhor cenário, sem terceira onda e com queda vigorosa, dependeria de 95% das pessoas usando máscara. O que é visto como altamente improvável uma vez que o próprio presidente da República vem atacando o equipamento de proteção - como fez nesta terça (5), quando reclamou de ser cobrado pelo seu uso em público. "Já encheu o saco isso", disse.

O quadro seria diferente se o governo Bolsonaro tivesse adquirido vacinas em quantidades suficiente no ano passado ao invés de ter negado ofertas, como as 70 milhões de doses da Pfizer. Com isso, as decisões que precisam ser tomadas neste momento para proteger trabalhadores e a economia e, ao mesmo tempo, salvar vidas não são simples. O ideal é que o governo federal se sentasse com os governadores e tomassem decisões racionais, incluindo a liberação de recursos. Mas o presidente mostra que a guerra pela sobrevivência em meio a esse caos visa salvar uma única família, a dele.