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Leonardo Sakamoto

Converter negacionistas da vacina se tornou um ato de repúdio a Bolsonaro

10.jun.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante evento no Palácio do Planalto - Adriano Machado/Reuters
10.jun.2021 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante evento no Palácio do Planalto Imagem: Adriano Machado/Reuters
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

05/12/2021 08h22

Se oito em cada dez pessoas que morreram de covid-19 no Brasil não receberam nenhuma dose de vacina, como aponta reportagem do UOL deste domingo (5), por que precisamos insistir tanto em vacinar quem parece não se importar? Trago cinco razões pelas quais vale a pena não desistir.

Primeiro: nem todos os que não foram imunizados são negacionistas. Muita gente aceitaria com prazer a dose com um pouco mais de informação. Infelizmente, o governo gastou mais recursos em promover a nova cédula de R$ 200, aquela do lobo-guará, do que em campanhas de prevenção de covid. Por sorte, grande parte da sociedade aprendeu ao longo de décadas com o Programa Nacional de Imunizações do SUS que vacinar é bom. E temos até negacionista que faz "vacina crítica" - leva a dose e reclama.

Segundo: as vacinas reduzem drasticamente a chance de morte por covid-19 e significativamente a chance de contaminação, mas não zera. Se o vírus continua circulando intensamente em uma comunidade, há probabilidade de vitimar vacinados mais frágeis. Nunca é demais ressaltar, portanto, que se vacinar também é um ato de solidariedade com os que contam com a saúde mais vulnerável.

Terceiro: apesar do sucesso da vacinação até aqui, com municípios com praticamente todos os adultos vacinados, como São Paulo, o Brasil ainda está em um patamar de 75% da população tendo recebido a primeira dose e 64% com imunização completa. É necessário mais, bem mais, para evitar que o vírus continue infectando e criando mutações, as chamadas variantes, que mais cedo ou mais tarde podem tornar vacinas sem efeito.

Aliás, a parte rica do mundo correu para imunizar apenas os seus, deixando de lado a parte mais pobre. O problema é que regiões com baixa ou nenhuma vacinação, como a maior parte dos países africanos, atuam como usinas de variantes. E variante não respeita restrições de fronteiras e vão atingir os ricos, como aconteceu com a ômicron.

Quarto: apesar de o presidente da República se esforçar para criar um país no estilo "cada um por si e Deus acima de todos", a República refundada com o fim da ditadura militar decidiu ter a fraternidade como um de seus nortes, como afirmado no preâmbulo da Constituição Federal de 1988. Mesmo que os negacionistas não tenham fé na ciência precisamos ter fé que a capacidade de reflexão humana leve parte deles a rever seus conceitos e se vacinar. Pelo seu próprio bem.

Uma pessoa que acredita, por exemplo, que uma vacina desenvolvida na China carrega chips 5G por conta de uma conspiração envolvendo cavaleiros templários, intelectuais illuminati e bilionários comunistas, ou crê em mentiras como o imunizante da Pfizer ser capaz de transformar pessoas em jacarés, fazer crescer barba em mulheres, matar adolescentes e provocar Aids, é porque foi vítima de um intenso processo de desinformação e manipulação.

Abandoná-los à própria sorte seria abraçar os valores que guiam o comportamento do presidente traduzidos em sua icônica frase "Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo".

E, por fim, quinto: Por tudo o que foi exposto, tentar convencer quem não acredita em vacina usando números e informações, de forma tranquila e educada, convidando-os a protegerem a vida, é um ato de fé na humanidade e na República e um ato de repúdio à necropolítica de Bolsonaro. Afinal, o "ninguém larga a mão de ninguém" inclui também quem pensa diferente.