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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro se consolida como maior agressor de jornalistas, aponta relatório

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/01/2022 10h48

Jair Bolsonaro (PL) consolidou-se como a maior ameaça ao exercício da liberdade de imprensa no país. É o que apontam os números do Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil, elaborado pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), sobre o ano de 2021, divulgado nesta quinta (27). O presidente da República aparece como o principal agressor, responsável por 147 casos registrados, ou 34,19%. No total, foram 430 casos em 2021, dois a mais que o ano anterior.

O número é menor que os 175 registros (41%) de 2020, em que ele também aparecia no triste primeiro lugar. Neste ano, foram 18 agressões verbais a jornalistas e 129 episódios em que atacou a credibilidade da imprensa.

Dirigentes da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), empresa pública sob responsabilidade do governo federal, responderam por 142 casos - ou 33,02% dos registros, principalmente por conta da censura baixada durante a atual gestão. Ou seja, sob comando de Bolsonaro. Depois disso, em terceiro lugar, vieram políticos e seus assessores, com 9,3%.

O relatório aponta que 4,65% dos casos registrados partiram de manifestantes bolsonaristas. Não é necessário que o presidente demande uma ação - apesar de não duvidar que ordens nesse sentido sejam repassadas a fãs, apoiadores e seguranças. Seu comportamento e seus discursos, acusando a imprensa de mentir quando a narração dos fatos lhe desagrada, alimentam as milícias que agem para defendê-lo, tornando a vida dos trabalhadores da imprensa um inferno.

Para muitos de seus seguidores, um ataque a jornalistas em nome de seu "mito" é uma missão quase divina. Bolsonaro também é responsável pela violência contra jornalistas cometida em seu nome.

Mesmo a omissão do presidente diante do comportamento desses grupos os incentiva a punir, nas redes e fora delas, aqueles que fiscalizam seu líder e denunciam as irregularidades que ele comete.

O ensurdecedor silêncio do presidente da República enquanto equipes de imprensa eram agredidas por seus seguranças e fãs, em Itamaraju (BA), no dia 12 de dezembro, é um exemplo disso. Bastava uma palavra sua, que presenciava a cena, para seus apoiadores radicais cessarem as agressões. Mas Jair consentiu.

Naquele momento, Camila Marinho, Cleriston Santana, Dário Cerqueira e Xico Lopes, da TVs Bahia e Aratu, afiliadas da Globo e do SBT, tentavam realizar a cobertura da tragédia causada pelas chuvas no Sul da Bahia. Camila levou um mata-leão de um jagunço do presidente - comportamento que é fruto do casamento entre o autoritarismo e o machismo bolsonaristas. Segundo o relatório, as mulheres foram as que sofreram mais agressões verbais e ataques virtuais.

No dia 31 de outubro, jornalistas que relatavam a viagem de Bolsonaro ao G20 Roma foram agredidos por agentes de segurança a serviço do presidente. Jamil Chade (UOL), Ana Estela de Sousa Pinto (Folha), Leonardo Monteiro (TV Globo), Lucas Ferraz (O Globo) e Matheus Magenta (BBC) estavam tentando fazer seu trabalho, cobrindo a passagem do brasileiro pela capital italiana. "Passagem" é a palavra certa, porque considerando que ele foi tratado como um pária na reunião, o que ocorreu foi um turismo caríssimo pago com dinheiro público enquanto o povo passa fome.

Presidente demonizou imprensa livre, transformando-a em alvo de sua gestão

Desde que assumiu o poder, Jair Bolsonaro vem atacando instituições que atuam na fiscalização, no monitoramento e no controle do poder público. Precisava sequestrar ou tirar a credibilidade delas para colocar em marcha seu projeto de desmonte das garantias e direitos conquistados desde a Constituição de 1988. No âmbito estatal, isso significou ataque ou cooptação a setores da Polícia Federal, da Receita Federal, do Incra, do ICMBio, do Ibama, da Procuradoria Geral da República. Na sociedade civil, o alvo preferencial foi a imprensa.

Bolsonaro precisa que a população (ou, pelo menos, seguidores) veja denúncias sobre desvios de recursos públicos nos gabinetes de sua família (as famosas "rachadinhas") e a corrupção na compra de vacinas no Ministério da Saúde como mentira e que sua incompetência em gerar empregos e reduzir a fome sejam encaradas como fake news. Por isso, demoniza os profissionais de imprensa que contam os fatos, fazem análises e garantem opiniões. Por isso, os empurra aos leões.

Entre as violências listadas pelo relatório temos censura, descredibilização, agressões verbais, ataques virtuais, ameaças e intimidações, agressões físicas, assédio judicial, violência contra a organização dos trabalhadores da imprensa, impedimentos ao exercício profissional, racismo, atentados e assassinato.

Há outros políticos, da esquerda à direita, que também agem de forma intolerante, passando pano para suas militâncias. Esses casos também merecem repúdio. Mas o que temos agora é um presidente que usa o ódio à imprensa como instrumento estrutural de política com o apoios de tecnologia de comunicação em massa.

Como já disse aqui, Bolsonaro deseja substituir a pluralidade por uma "Verdade", com "V" maiúsculo, ditada por ele em lives nas redes sociais - lives em que ensina mentiras denunciadas pela imprensa, como aqueles que afirmam que as vacinas contra a covid-19 causam Aids e matam crianças.

Uma verdade rasa que esconde um desprezo pela vida e um profundo vazio de políticas para o Brasil e que serve como cortina de fumaça para encobrir que ele faz na vida pública o que não deveria produzir nem na privada.