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Leonardo Sakamoto

Datafolha mostra eleitores 'flutuantes' que se conectam a Lula e Bolsonaro

TOMAS CUESTA/AFP E ISAC NóBREGA/PR
Imagem: TOMAS CUESTA/AFP E ISAC NóBREGA/PR
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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

27/05/2022 19h40

O Datafolha divulgou, nesta sexta (27), que 20% dos eleitores de Jair Bolsonaro optam por Lula caso não votem no atual presidente na eleição de outubro. Já 17% dos eleitores do ex-presidente escolhem Bolsonaro como segundo voto. Parte da explicação é que existe um eleitor atraído tanto pela segurança material do legado de Lula quanto pelo discurso moral de Bolsonaro.

Na avaliação de Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo e coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital, há uma parte dos eleitores de ambos que não foi capturada pela polarização.

"Há um pedaço do voto de Lula que não é antibolsonarista e um pedaço do voto de Bolsonaro que não é antilulista", afirma. Considerando apenas esses dois grupos, eles representam cerca de 13,5% do eleitorado total. Segundo o Datafolha, Lula tem 48% e Bolsonaro, 27%. A margem de erro é de dois pontos.

O instituto também apontou que 78% dos que pretendem votar em Lula dizem que não irão trocar de candidato e 75% dos que preferem Bolsonaro também não.

"Para o público que não se encontra na polarização, que não é militante, mas flutuante, há pautas que os conectam a cada um dos dois candidatos. Ou seja, eles não encontram em um único candidato quem as responda de forma completa", explicou à coluna Esther Solano, professora de Relações Internacionais da Unifesp, que vem desenvolvendo uma extensa pesquisa de campo sobre o comportamento dos eleitores de ambos.

"Por exemplo, se um público procurar uma certa segurança material, Lula responde, e se procurar uma segurança existencial, Bolsonaro responde. Há uma flutuação", afirma.

Ela identificou eleitores, em 2018, que já haviam votado em Lula e optaram por Bolsonaro por estarem frustrados após o bombardeio da retórica lavajatista de roubalheira petista e por conta da economia no governo Dilma Rousseff. Mas não necessariamente com Lula. E apesar do líder petista aparecer na simbologia lavajatista como grande chefe de quadrilha, esse eleitor manteve uma conexão com ele.

"Hoje, esse eleitor, sobretudo nas classes C e D, movido fundamentalmente por uma urgência material, lembra de como era o governo Lula no passado e reativa a sua memória. E o legado lulista é algo poderoso: 'eu comia carne, pagava contas, chegava ao final do mês'. Há uma reconexão pragmática com ele", explica.

De acordo com ela, a mobilização do legado e da memória não fica só no campo pragmático, mas também há uma elaboração no campo do afeto. Cita que os entrevistados afirmam que "Lula cuidava da gente, enquanto Bolsonaro não cuida da gente".

Mas, se uma parte se reconecta a Lula, com base no legado de cuidado dos pobres do passado, outra se desconecta dele pela pauta moral, simbólica e de costumes ligada a Bolsonaro.

"Entrevistei público que disse 'eu queria votar no Lula porque ele cuidava dos pobres, a gente conseguia comer bem naquele tempo, mas se ele continuar falando de aborto, eu voto no Bolsonaro."

Além disso, de acordo com a pesquisadora, Lula responde melhor à figura do estadista, do negociador, do conciliador, do moderador, que é algo positivo neste momento. Mas Bolsonaro ainda cultiva em determinado público a imagem de alguém com autenticidade, que tem a coragem de peitar o sistema.