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Com Joice "cancelada", militância ofendeu e não ouviu

Joice Hasselmann dá depoimento à CPMI das Fake News - WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Joice Hasselmann dá depoimento à CPMI das Fake News Imagem: WAGNER PIRES/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Maurício Ricardo

Maurício Ricardo é jornalista, cartunista e empresário no segmento da Educação. Formado em História, é um dos produtores pioneiros de conteúdo multimídia para a Internet brasileira. É criador do premiado site de animações Charges.com.br, lançado em fevereiro de 2000. Em 2019 migrou suas análises políticas, no formato vlog, para o canal de YouTube ?Fala, M.R.?. Lá, compartilha suas visões sobre política, cotidiano, música e tecnologia, que ganham também versões em texto nesta coluna.

Colunista do UOL

04/12/2019 20h12

A baixaria no Congresso já não causa estranhamento. Palavreado chulo, como o usado na surpreendente discussão sobre as intimidades sexuais entre Carlos Jordy (PSL) e Alexandre Frota (PSDB), também não espanta mais.

Vivemos a era dos deputados blogueiros. O decoro parlamentar anda bastante elástico.

O que causa espanto mesmo é ver como parte da população brasileira tratou de forma infantilizada as graves denúncias feitas pela deputada Joice Hasselmann (PSL) na CPI das Fake News. Para quem assistiu os debates pelo canal da TV Câmara no YouTube, a caixa de mensagens com comentários dos espectadores roubou a cena.

Enquanto a deputada se esforçava para ilustrar - com fotos, prints de posts e memes - uma série de denúncias que, se verdadeiras, tem potencial para causar grandes estragos ao governo, a ruidosa militância bolsonarista parecia alheia ao conteúdo e focada apenas em desviar a atenção do público, da tela principal para a caixa de comentários.

No meu caso, conseguiu.

Emojis ofensivos

Fiquei fascinado com a profusão de emojis ofensivos: porcos. Revólveres. Cocôs. E quase nenhum comentário escrito. Quando muito, hashtag #traidora.

Na tela, Joice dizia: "O gabinete do ódio existe e é pago com dinheiro público". Ao lado, porquinho, porquinho, porquinho.

"O governo gastou R$ 500 mil com impulsionamento de hashtags e robôs no Twitter". Cocô, cocô, porquinho, revólver, cocô.

O emoji sendo usado como pintura rupestre, com a diferença de que o homem de Neanderthal fazia um mínimo esforço para interpretar o mundo à sua volta.

Em que momento os cidadãos que abraçaram um dos dois fios desencapados - o da esquerda e o da direita - que deixam o Brasil em constante estado de choque abriram mão do enorme privilégio democrático que é: parar, ouvir, refletir e só depois reagir?

Cancelada

Quando foi depor, Joice Hasselmann já havia sido "cancelada" por boa parte dos fãs de Bolsonaro ativos nas redes. Eles são constantemente aconselhados a não ouvir os adversários, inclusive os dissidentes. E, de fato, não a ouviram.

Porquinho, porquinho, cocô, porquinho.

Uma pena. Eles perderam a enorme oportunidade de aprimorar nossas instituições democráticas quando ignoraram o que tinha a dizer uma parlamentar que já liderou a base governista na Câmara. Ainda que para contesta-la.

Afinal, ninguém melhor que Jonas, que já esteve no estômago da baleia, para dizer o que existe dentro dela.

Ninguém melhor que Pinóquio, também isso é fato. Mas até para desmascarar uma mentira, é preciso antes ouvi-la.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.