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Observatório das Eleições

Eleição plebiscitária em Salvador?

ACM Neto, prefeito de Salvador - Max Haack/Secretaria de Comunicação
ACM Neto, prefeito de Salvador Imagem: Max Haack/Secretaria de Comunicação
Observatório das Eleições

O Observatório das Eleições 2020 tem como objetivo geral reunir um conjunto de dados empíricos, de natureza qualitativa e quantitativa, sobre o processo eleitoral municipal no Brasil. Aqui você encontra artigos, vídeos, infográficos e outros formatos de conteúdos com análises sobre as eleições de 2020, através de dados originais ou de sistematizações de dados públicos. Oferecemos subsídio acadêmico e explicação pedagógica aos diferentes atores políticos, sociedade civil, comunidade universitária e imprensa para o debate sobre as questões centrais envolvidas no processo eleitoral. Apresentamos de forma didática e comparativa as principais pesquisas e amostras, além de discutir as características gerais do eleitorado. Visamos também tornar acessível as legislações envolvidas em cada um dos assuntos que serão relevantes nas eleições de 2020. Nesse pleito, temos um contexto muito particular e multifacetado. Por isso, aqui você encontrará análises sobretudo dentro destes eixos: Opinião PúblicaGênero e RaçaJustiça e EleiçõesGrupos de interesseFake NewsCidadesGeral O Observatório das Eleições nasceu em 2018 como fruto da cooperação entre cientistas políticos e instituições de pesquisa de renome como UFMG, Unicamp, IESP/UERJ e UnB. É constituído pela reunião do conjunto de equipes de diferentes projetos, dentre eles participantes do INCT/IDDC (Instituto de Democracia e da Democratização da Comunicação), a equipe da Emenda Parlamentar nº 14080008, que se propôs a financiar parte das atividades do Observatório das Eleições, além de contar com o apoio da empresa Quaest Pesquisa e Consultoria.

11/10/2020 06h34

Cláudio André de Souza e Luciana Santana*

Em Salvador, nove candidatos disputam a vaga hoje ocupada por ACM Neto (DEM), atual prefeito da capital soteropolitana. Eles são: Bruno Reis (DEM), Celsinho Cotrim (PROS), Cezar Leite (PRTB), Hilton Coelho (PSOL), Major Denice (PT), Olívia (PC do B), Pastor Sargento Isidório (Avante), Bacelar (Podemos) e Rodrigo Pereira (PCO).

A despeito do número de candidatos, pesquisas têm apontado favoritismo de Bruno Reis, escolhido do prefeito ACM Neto para sucedê-lo. Essa situação é reforçada na última pesquisa divulgada pelo Ibope em 5 de outubro.

Na pergunta espontânea - quando o entrevistado responde diretamente a sua intenção de voto - o vice-prefeito tem 29% de intenção de voto. Na pergunta estimulada, Reis aparece com 42%, seguido de Pastor Sargento Isidório (10%), Major Denice (6%), Olívia Santana (6%) e Bacelar (5%).

ACM Neto e o favoritismo do candidato governista

O que explica o favoritismo de Bruno Reis? A consolidação da liderança de Bruno Reis tem como principal capital político a aprovação da gestão do Prefeito ACM Neto mesmo após o início da pandemia de coronavírus. Segundo a mesma pesquisa, a administração do prefeito é avaliada positivamente (ótima/boa) por 73% dos entrevistados.

Ao serem questionados sobre se aprovam ou desaprovam a forma como o atual prefeito vem administrando a cidade, 85% dos entrevistados disseram que aprovam a atuação de Neto à frente da Prefeitura. Essa boa avaliação deixa pouco espaço para uma campanha com posicionamentos mais críticos à sua gestão por parte dos adversários, algo perceptível até aqui desde a pré-campanha.

O legado de ACM Neto e sua aprovação quase unânime tem forçado um plebiscito "contra" ou "a favor", deslocando os candidatos de oposição. A estratégia da campanha de Bruno Reis nos primeiros dias de propaganda na TV e no Rádio já explicitou a construção da sua imagem totalmente ligada à ACM Neto. Além disso, a coligação do candidato democrata possui 15 partidos (DEM / PDT / REPUBLICANOS / MDB / SOLIDARIEDADE / CIDADANIA / PL / PSL / PSC / PATRIOTA / PSDB / PV / DC / PMN / PTB) com muitos candidatos a vereador, ocupando um lastro político amplo no espectro eleitoral de Salvador, conforme figura abaixo.

Governador com boa avaliação, mas ainda não alterou a disputa

Ter uma boa avaliação de governo, entretanto, não tem sido uma condição suficiente para definir a disputa. Apesar do governador Rui Costa (PT) ser avaliado positivamente por 63% do eleitorado, a sua estratégia de pulverização de candidaturas governistas (Bacelar, Denice, Olívia e Pastor Sargento Isidório) até aqui não surtiu efeito, ao passo que seus candidatos não verbalizam críticas frontais à gestão do prefeito da capital baiana.

A chance de crescimento dos candidatos do governador está associada à ampliação da posição de Rui Costa como cabo eleitoral, mas, sobretudo, a maneira pela qual as campanhas conseguirão dominar uma narrativa crítica à gestão de ACM Neto. Sem um posicionamento claro quanto ao legado de ACM Neto, os candidatos da base aliada cairão em um "vazio semântico": se colocam como alternativa a quê? Em quais circunstâncias?

Antenas ligadas em 2022

Apesar das atenções centradas nas eleições municipais, ACM Neto e Rui Costa estão de antenas ligadas em 2022. Além da avaliação positiva de sua gestão e da possibilidade real de eleger o sucessor, ACM Neto surge como o principal nome na disputa pela sucessão para o governo estadual.

O acordo que deu a vice na chapa de Bruno Reis ao PDT foi uma movimentação explícita do presidente nacional do DEM para ganhar força e articulação entre partidos de centro, deixando aberto o diálogo com alguns partidos da base de Rui Costa.

A boa avaliação de Rui Costa também favorece suas pretensões eleitorais depois que deixar o cargo. Como não poderá concorrer à reeleição, ele tem duas possibilidades a sua disposição: disputar o Senado Federal ou apresentar-se como pré-candidato do PT a Presidente da República.

Pode parecer que 2022 está um pouco longe, mas as estratégias e articulações políticas já começaram.


*Cláudio André de Souza é professor adjunto de ciência política Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, Campus dos Malês (BA).
Luciana Santana é mestre e doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, com estância sanduíche na Universidade de Salamanca. É professora adjunta na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), líder do grupo de pesquisa: Instituições, Comportamento político e Democracia, e atualmente ocupa a vice-diretoria da regional Nordeste da ABCP.

Esse texto foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições de 2020, que conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras e busca contribuir com o debate público por meio de análises e divulgação de dados. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.