PUBLICIDADE
Topo

Observatório das Eleições

Antipetismo versus experiência administrativa

Bandeira do PT - Sergio Lima/Folhapress
Bandeira do PT Imagem: Sergio Lima/Folhapress
Observatório das Eleições

O Observatório das Eleições 2020 tem como objetivo geral reunir um conjunto de dados empíricos, de natureza qualitativa e quantitativa, sobre o processo eleitoral municipal no Brasil. Aqui você encontra artigos, vídeos, infográficos e outros formatos de conteúdos com análises sobre as eleições de 2020, através de dados originais ou de sistematizações de dados públicos. Oferecemos subsídio acadêmico e explicação pedagógica aos diferentes atores políticos, sociedade civil, comunidade universitária e imprensa para o debate sobre as questões centrais envolvidas no processo eleitoral. Apresentamos de forma didática e comparativa as principais pesquisas e amostras, além de discutir as características gerais do eleitorado. Visamos também tornar acessível as legislações envolvidas em cada um dos assuntos que serão relevantes nas eleições de 2020. Nesse pleito, temos um contexto muito particular e multifacetado. Por isso, aqui você encontrará análises sobretudo dentro destes eixos: Opinião PúblicaGênero e RaçaJustiça e EleiçõesGrupos de interesseFake NewsCidadesGeral O Observatório das Eleições nasceu em 2018 como fruto da cooperação entre cientistas políticos e instituições de pesquisa de renome como UFMG, Unicamp, IESP/UERJ e UnB. É constituído pela reunião do conjunto de equipes de diferentes projetos, dentre eles participantes do INCT/IDDC (Instituto de Democracia e da Democratização da Comunicação), a equipe da Emenda Parlamentar nº 14080008, que se propôs a financiar parte das atividades do Observatório das Eleições, além de contar com o apoio da empresa Quaest Pesquisa e Consultoria.

19/11/2020 09h13

Leonardo Avritzer*

As eleições do último domingo geraram análises contraditórias e de diferentes tonalidades no que diz respeito aos resultados da esquerda e, em particular, do Partido dos Trabalhadores (PT). De acordo com os dados do TSE, comparando os votos recebidos no primeiro turno de 2016 e 2020, o PT recebeu 11.740 votos a mais nessas eleições na avaliação mais conservadora, sem contar Macapá, onde não o pleito ainda não se realizou, e com algumas disputas ainda sob judice. Percentualmente ele recebeu uma fração maior devido à alta abstenção neste último domingo.

Mesmo com a performance ruim para prefeito na cidade de São Paulo e as coalizões em Belém e Porto Alegre, o partido demonstra uma leve recuperação em relação a 2016. No que se refere à capital paulista, se levarmos em conta que o PT fez a maior bancada de vereadores na cidade e que uma parte considerável do eleitor petista identificou-se com a candidatura de Boulos (PSOL), podemos apontar uma recuperação do PT, ainda que parcial.

Cabe destaque que nas câmaras municipais das capitais o PT cresceu e passou de quarenta para cinquenta vereadores. Foi o segundo partido, atrás apenas do Republicanos, que fez 53 vereadores.

O antipetismo, contudo, parece não ter sido completamente superado, continuando forte nas regiões sul e sudeste. Em pesquisa realizada na última semana de outubro pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação (INCT Democracia), percebemos a continuidade do antipetismo nestas regiões. No Brasil como um todo, 26% dos respondentes afirmou não votar em candidatos do PT. Na região sudeste, o antipetismo alcança 30%. Ainda assim, se olharmos a série histórica, os dados são menos contundentes do que em 2018.

No entanto, gostaria de analisar um dado que me parece ainda mais importante: os resultados das eleições em cidades grandes e de porte médio com segundo turno. Neste caso, notamos um fenômeno adicional que merece análise: a forte presença do PT nas cidades da região sul e sudeste.

Na lista de prefeituras com candidatos petistas que disputarão o segundo turno no dia 29 de novembro, temos nove cidades da região sul e sudeste. Estas cidades têm algumas características em comum: já foram governadas pelo PT (apenas Juiz de Fora é exceção) e têm políticos com forte tradição de eficiência administrativa. Pepe Vargas em Caxias do Sul (RS), Marília Campos em Contagem (MG), João Coser em Vitória (ES) e Filippi em Diadema (SP) têm essa caraterística que aponta na direção de uma mudança de postura no eleitorado. Onde os eleitores conhecem o candidato, o antipetismo parece ser contido pela busca de experiência administrativa.

img1 - Elaboração própria - Elaboração própria
Cidades com candidatos do PT disputando segundo turno em 2020
Imagem: Elaboração própria

Dois elementos adicionais apontados pelos dados são importantes: em primeiro lugar, a diferença entre 2016 e 2020 no quesito experiência administrativa dos candidatos do PT. O partido disputa o segundo turno em 2020 em oito cidades a mais do que em 2016, lembrando que ele foi derrotado em todas as sete cidades nas quais disputou segundo turno na eleição de quatro anos atrás. Além disso, em nenhuma dessas, o seu candidato havia liderado a disputa. Assim, temos de fato uma mudança que vale a pena ser observada: o PT encontra-se em primeiro lugar em sete das quinze cidades, sem contar Belém, onde é parte da coalização que lidera nas pesquisas.

A segunda questão que também parece relevante consiste em saber se o resultado positivo deve-se a pessoas ou administrações exitosas no passado. Tomo aqui três exemplos, um em cada região: Caxias do Sul (RS), Contagem (MG) e Vitória da Conquista (BA). O caso mais emblemático é Vitória da Conquista, governada pelo PT entre 1996 e 2016. Alí um ex-prefeito teve mais votos do que o atual prefeito e quase se elegeu no primeiro turno. Algo parecido ocorreu em Contagem e Caxias. Políticos com muita experiência foram os preferidos pela população. Assim, é possível dizer que se o antipetismo das duas últimas eleições continua entre nós, mas ele parece ter um fator moderador: a busca pelo bom governo e pela experiência administrativa.

* Leonardo Avritzer é graduado em Ciências Sociais (1983) e mestre em Ciência Política (1987) pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Sociologia Política pela New School for Social Research (1993) e pós-doutor pelo Massachusetts Institute of Technology (1998-1999) e (2003). É professor titular do departamento de Ciência Política da UFMG.

Esse texto foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições de 2020, que conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras e busca contribuir com o debate público por meio de análises e divulgação de dados. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.