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Observatório das Eleições

Esquerda, centro ou direita? Como classificar os partidos no Brasil

Observatório das Eleições

O Observatório das Eleições 2020 tem como objetivo geral reunir um conjunto de dados empíricos, de natureza qualitativa e quantitativa, sobre o processo eleitoral municipal no Brasil. Aqui você encontra artigos, vídeos, infográficos e outros formatos de conteúdos com análises sobre as eleições de 2020, através de dados originais ou de sistematizações de dados públicos. Oferecemos subsídio acadêmico e explicação pedagógica aos diferentes atores políticos, sociedade civil, comunidade universitária e imprensa para o debate sobre as questões centrais envolvidas no processo eleitoral. Apresentamos de forma didática e comparativa as principais pesquisas e amostras, além de discutir as características gerais do eleitorado. Visamos também tornar acessível as legislações envolvidas em cada um dos assuntos que serão relevantes nas eleições de 2020. Nesse pleito, temos um contexto muito particular e multifacetado. Por isso, aqui você encontrará análises sobretudo dentro destes eixos: Opinião PúblicaGênero e RaçaJustiça e EleiçõesGrupos de interesseFake NewsCidadesGeral O Observatório das Eleições nasceu em 2018 como fruto da cooperação entre cientistas políticos e instituições de pesquisa de renome como UFMG, Unicamp, IESP/UERJ e UnB. É constituído pela reunião do conjunto de equipes de diferentes projetos, dentre eles participantes do INCT/IDDC (Instituto de Democracia e da Democratização da Comunicação), a equipe da Emenda Parlamentar nº 14080008, que se propôs a financiar parte das atividades do Observatório das Eleições, além de contar com o apoio da empresa Quaest Pesquisa e Consultoria.

24/11/2020 04h00

Bruno Bolognesi, Ednaldo A. Ribeiro e Adriano Codato*

É comum que dúvidas sejam levantadas sobre se um partido político insere-se no campo da esquerda ou da direita. Especialmente no caso brasileiro a resposta para esse problema é ainda mais complexa, dada a quantidade de legendas que competem nas eleições, atualmente 33 partidos.

Algumas soluções são possíveis. Há cientistas políticos que optam por perguntar para os parlamentares onde estes posicionam seus próprios partidos e os partidos dos adversários na escala esquerda-centro-direita.

Outra opção frequente é analisar a composição social do partido, quem são seus quadros e o perfil dos seus eleitores. Partidos que tendem a ter entre seus eleitos empresários estão mais próximos da direita, ao passo que partidos que elegem mais trabalhadores estão mais perto da esquerda.

Há quem prefira analisar a votação dos deputados em matérias específicas que separam as posições de esquerda e direita. Partidos que apoiam privatizações e redução de impostos tendem a ser considerados dentro do espectro da direita. Já aqueles que votam em matérias que defendem o papel do Estado na regulação da economia estariam na esquerda.

Existe ainda quem olhe para como o partido se comporta na eleição, com quem faz alianças: se com mais parceiros de um lado do que de outro do espectro ideológico. Ou quem olhe para o que os partidos dizem de si mesmos através de seus manifestos ou programas de governo.

Uma forma de entender ideologicamente os partidos é também olhar para seus financiadores. Partidos que possuem suas receitas advindas de sindicatos de trabalhadores, por exemplo, estão mais à esquerda do que legendas que recebem doações de associações religiosas, que tendem a estar ligadas à centro-direita. A crítica é que tais classificações são quase sempre realizadas para partidos europeus ou americanos e desconsideram as especificidades do Brasil.

Mas o problema principal é que não há partido que seja absolutamente coerente em suas posições, assim como a maioria dos seres humanos. Então os cientistas políticos costumam criar classificações intermediárias como centro-direita ou centro-esquerda. Há posições predominantes (e não exclusivas) vinculadas mais à direita no primeiro caso e mais à esquerda no segundo. Já os partidos de centro seriam aqueles que mesclam posições ora mais à direita, ora mais à esquerda, sem que ocorra o domínio de uma visão de mundo sobre a outra.

Para solucionar este tipo de dilema, onde exatamente os partidos políticos se posicionam, nós resolvemos perguntar para quem estuda, escreve e publica sobre partidos políticos: os próprios cientistas políticos.

Aplicamos então um questionário para 519 cientistas políticos, residentes no país e no exterior. A pesquisa foi realizada em julho de 2018, antes da campanha eleitoral daquele ano. A partir da resposta de cada um deles para os então 35 partidos existentes no Brasil fizemos a média da posição ideológica dessas legendas. Os respondentes foram instados a classificar os partidos em uma escala de zero a dez, em que zero representava a posição mais à esquerda e dez, mais à direita. As posições de cada partido aparecem na figura abaixo:

1 - Elaboração própria - Elaboração própria
Posição ideológica dos partidos políticos brasileiros
Imagem: Elaboração própria

A pesquisa foi realizada pelo Laboratório de Partidos Políticos e Sistemas Partidários da UFPR e enseja alguns comentários. O primeiro é que, no momento da pesquisa, o presidente Jair Bolsonaro flertava com o Patriota, o que explica a posição deste sobreposta ao partido mais à direita da escala, o DEM e, também, uma posição mais moderada do PSL.

Quando foi feito o levantamento, a Unidade Popular (UP) não havia sido fundada. Posteriormente, o PRP foi incorporado ao Patriota, o PPL ao PCdoB e o PHS ao Podemos. Além disso, posteriormente a essa pesquisa houve algumas mudanças de nomes em partidos: o PMDB mudou o nome para MDB, o PPS para Cidadania, e o PR hoje é PL.

Ainda que contemos com a valiosa contribuição da comunidade de Ciência Política, não sustentamos que erros ou equívocos não apareçam nos resultados. O que podemos afirmar é que a pesquisa com experts através de survey apresenta vantagens como contar com conhecimento especializado e despreocupado com pressões políticas como eleições ou votações legislativas. Essa metodologia possui alta validade. Quando comparada com outros métodos para mensurar ideologia, apresenta resultado semelhante.

Por fim, é interessante observar que a o espaço à direita é muito mais povoado do que o lado oposto. Isso não só dificulta posicionar ali os partidos, mas revela também uma indiferenciação muito maior entre as legendas à direita do que entre as que estão no centro e na esquerda.

Nota: Os autores agradecem a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) pelo apoio à pesquisa.

Bruno Bolognesi é cientista político e professor na UFPR
Ednaldo A. Ribeiro é cientista político e professor na UEM
Adriano Codato é cientista político e professor na UFPR

Esse texto foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições de 2020, que conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras e busca contribuir com o debate público por meio de análises e divulgação de dados. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.