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Relação Moro-Bolsonaro: é o subordinado quem frita o chefe, não o contrário

Gabriela Biló/Estadão
Imagem: Gabriela Biló/Estadão
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/01/2020 08h04

Tudo indica que o presidente Jair Bolsonaro pretende tirar a Segurança Pública do guarda-chuva de Sergio Moro que ficaria encarregado apenas da Justiça. Aqui e ali se diz que o presidente não gostou do desempenho do ministro no Roda Viva, que não o teria defendido com mais vigor. De fato, fez uma defesa meio preguiçosa e entediada, mas isso é o de menos.

Nas redes sociais, Moro não perde a chance de chamar para si — embora finja estar falando do governo — os méritos pela queda na taxa de homicídios. Trata-se de uma apropriação duplamente indébita: nem é coisa deste governo nem guarda relação com o trabalho do ministro.

As ações que resultaram na queda de homicídios foram tomadas durante o governo Temer, pelo então ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann. Criou-se o Sistema Único da Segurança Pública; recursos das loterias passam a ser direcionadas para o setor; teve início a digitalização de todos os processos penais no país; foram repassados R$ 140 milhões para a FAB patrulhar o espaço aéreo nas fronteiras com a Bolívia e o Paraguai; outros R$ 40 milhões foram destinados à Marinha para vigiar o litoral do Rio; o Exército recebeu R$ 20 milhões para treinar as Polícias, entre outras ações.

Jungmann lembrou essas iniciativas, reais, nas redes sociais. Moro preferiu o caminho da ironia, dizendo que muitos atribuem a queda de homicídios ao Mago Merlin. A ironia tola é a saída de quem não tem o que dizer. O ministro poderia elencar as medidas que tomou e que teriam resultado, então, na queda de homicídios — que, reitere-se, remonta a 2018. Mas ele, provavelmente, não tem como se lembrar...

Moro não é bobo. Nem Bolsonaro. Sabem que a segurança pública é um filão eleitoral poderoso. O presidente vê o seu ministro da Justiça lhe surrupiar um trunfo — que, de qualquer modo, também não é seu.

Na quarta-feira, reuniram-se em Brasília, na residência oficial do governador, secretários de Segurança de 20 Estados. Ao menos 11 deles resolveram endossar uma moção pedindo a recriação do Ministério da Segurança Pública, fazendo alusão direta ao período Temer. Diz o documento:
"Este colégio manifesta o entendimento de que a criação de uma pasta dedicada exclusivamente à Segurança Pública revela-se medida de grande acerto. (...) Experiências recentes mostraram que, quando a Segurança Pública recebeu a atenção devida nas mais elevadas instâncias políticas, resultados estruturantes foram alcançados, a exemplo da criação de um plano e de uma política nacional de segurança pública e do Sistema Único de Segurança Pública, com suas formas de financiamento"

E Bolsonaro decidiu aquiescer com a ideia, lembrando que, muito provavelmente, Moro não iria gostar. É... Acho que não! Quem, com as suas ambições, gostaria de perder influência, por exemplo, na Polícia Federal?

Então o que se vê é o presidente da República a fritar o seu ministro da Justiça? A resposta não é simples. De fato, é preciso saber quem frita quem. Estou entre aqueles que não tem dúvida em afirmar: mais Bolsonaro, o chefe, é leal ao subordinado do que o contrário.

Vejam o salseiro que Moro aprontou no caso da prisão após condenação em segunda instância. O doutor tem a ambição, hoje, de ter a sua própria bancada na Câmara e, sobretudo, no Senado. No caso do juiz de garantias, ele sabotou a posição do presidente, que decidiu não vetar o dispositivo, desde o primeiro minuto. Tão logo o ministro Luiz Fux concedeu sua liminar aberrante, suspendendo, sem prazo, a eficácia da lei, Moro o elogiou. Parte das milícias de extrema-direita nas redes passou a ter no ex-juiz a sua referência. E, como se sabe, ele é mais popular do que Bolsonaro.

O ministro diga o que quiser: o fato é que aposta em que Flávio Bolsonaro será condenado em primeira instância por peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Que efeito isso teria na (re)candidatura de Bolsonaro? A ver. Moro quer continuar a conciliar o poder político do Ministério da Justiça com o poder de polícia da Segurança Pública. E atua, de forma determinada, para se credenciar para assumir o lugar do chefe.

Assim, quem está sendo fritado é Bolsonaro. E não é de hoje.

Alguém precisa lembrar a Moro o que é um ministro: é o braço e a voz do chefe em sua área de atuação. Por enquanto, o presidente permite que reine a esculhambação.

Reinaldo Azevedo