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Weintraub faz história, desmoraliza Enem e cola o feito à gestão Bolsonaro

Abraham Weintraub: ele conseguiu destruir a credibilidade do Enem. Obra realmente inédita! - Cláudio Reis/Agência O Globo
Abraham Weintraub: ele conseguiu destruir a credibilidade do Enem. Obra realmente inédita! Imagem: Cláudio Reis/Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

29/01/2020 16h10

Abraham Weintraub é dessas personalidades verdadeiramente marcantes. Se me permitem, diria ser ele mais do que isso: é um homem fulminante, fatal, definitivo, do tipo que chega e vai mesmo fazendo história.

Ao longo dos seus 21 anos, o Enem enfrentou vários problemas. Nem poderia ser diferente. Há muito tempo, é a maior prova do gênero no mundo. A partir de 2009, a complexidade aumentou porque o exame destinado a avaliar a qualidade do ensino médio passou também a substituir o vestibular nas universidades federais — e algumas instituições privadas passaram também a adotar o seu crivo. Também nesse caso se pode dizer: o é maior vestibular da Terra.

Já houve vazamento de questões, grupo de estudantes que tiveram de fazer a prova posteriormente em razão de erro de procedimento, problemas de logística, debates acalorados sobre questões ideológicas etc. Mas nunca se tinha colocado em questão a fidedignidade dos resultados aferidos.

E olhem que o sistema de avaliação — a Teoria da Resposta ao Item — não é exatamente de fácil compreensão. Apesar das dificuldades, o exame conta — ou contava, até esta edição — com a confiança de estudantes e professores. Mas Weintraub chegou para fazer história.

A primeira edição do exame sob o seu comando conseguiu destruir o que se se construiu ao longo de 21 anos: a confiança no resultado, de sorte que funcionários do próprio MEC dizem — sob anonimato, claro! — ser impossível assegurar que o resultado colhido é 100% confiável.

Bolsonaro tem uma concepção tosca, rasa, primária mesmo, do que sejam política, ideologia, visão de mundo. Seus, digamos, "professores" não ajudam muito, com seu proselitismo vulgar. Mas ele poderia, a despeito da ignorância essencial, ser ao menos sincero.

Há um padrão mínimo de competência a esperar de auxiliares, não é mesmo? Houvesse alguma sinceridade, vamos dizer, primária no presidente, botaria Weintraub para correr. Ele conseguiu colar ao governo o Enem mais malsucedido da história.

Eis aí: o governo que viria para acabar com o "viés ideológico" mantém no cargo um incompetente ridículo em razão do... viés ideológico. Que os estudantes eleitores se lembrem disso.

Reinaldo Azevedo