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No pior dia, Bolsonaro fará pronunciamento "by Carlucho". E OMS e fake news

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

31/03/2020 18h31

O presidente Jair Bolsonaro reservou oito minutos para falar em rede nacional de rádio e televisão a partir das 20h30. O que vai ser? Não dá para saber por enquanto. Neste momento, se o trabalho ainda não foi concluído, uma sala está sendo preparada para Carlos Bolsonaro despachar ao lado do pai. Esteio principal do então candidato Jair Bolsonaro, ele se torna o braço-direito do presidente Jair Bolsonaro em meio a uma das mais graves crises enfrentadas pelo país.

A julgar pela performance do presidente nesta terça, coisa boa não virá. Até aqui, é inequívoco que Bolsonaro aposta num tudo ou nada.

Nesta terça, ele já incitou seus seguidores a hostilizar os jornalistas à porta do palácio; já exaltou o golpe de 1964 — e duvido que não vá fazer referência ao fato no pronunciamento para evidenciar alinhamento com os militares — e já picotou uma declaração do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, invertendo o seu sentido.

Adhanom chamou a atenção justamente para o fato de que, ao ficarem impedidas de trabalhar por causa da quarentena — essa segue sendo a orientação da OMS (veja no fim do post) —, é preciso que os governos garantam o seu bem-estar.

A situação começa a ficar dramática nos hospitais Brasil afora. E assim é com medidas de quarentena em curso. Sem elas, mal dá para imaginar o que poderia vir pela frente — e bom já não será.

Só para registro: o bolsonarismo está passando adiante este trecho da fala do presidente da OMS:
"Sou da África e sei que muita gente precisa trabalhar cada dia para ganhar o seu pão. E governos devem levar essa população em conta. Se estamos limitando os movimentos, o que vai acontecer com essas pessoas que precisam trabalhar diariamente? Cada país deve responder a essa questão... Precisamos também ver o que isso significa para o indivíduo na rua. Venho de uma família pobre e sei o que significa sempre preocupar-se com o pão de cada dia. E isso precisa ser levado em conta. Porque cada indivíduo importa. E temos que levar em conta como cada indivíduo é afetado por nossas ações. É isso que estamos dizendo."

E omitiu o que segue:
"Entendemos que muitos países estão implementando medidas que restringem a movimentação das pessoas. Ao implementar essas medidas, é vital respeitar a dignidade e o bem estar de todos. É também importante que os governos mantenham a população informada sobre a duração prevista dessas medidas, e que dê suporte aos mais velhos, aos refugiados, e a outros grupos vulneráveis. Os governos precisam garantir o bem estar das pessoas que perderam a fonte de renda e que estão necessitando desesperadamente de alimentos, saneamento, e outros serviços essenciais. Os países devem trabalhar de mãos dadas com as comunidades para construir confiança e apoiar a resistência e a saúde mental".

Jamais houve uma orientação para suspender a quarentena. Ao contrário: o que se cobra é justamente ajuda aos vulneráveis, o que, de resto, acabou acontecendo no Brasil — por enquanto, no papel. É preciso fazer o dinheiro chegar às pessoas.

O improvável: o presidente poderia dar um cavalo de pau no discurso e aderir à racionalidade. Mas por que deveríamos fazer essa aposta?

Reinaldo Azevedo