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Bolsonaro dá um cavalo-de-pau no discurso e se despede do autogolpe

Frame do vídeo com o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, no dia 31 de março, sobre o coronavírus. Deu cavalo-de-pau no discurso. Vamos ver quanto tempo dura - Reprodução/Youtube
Frame do vídeo com o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, no dia 31 de março, sobre o coronavírus. Deu cavalo-de-pau no discurso. Vamos ver quanto tempo dura Imagem: Reprodução/Youtube
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

01/04/2020 05h56

O presidente Jair Bolsonaro despediu-se nesta terça-feira da ilusão do autogolpe. Pronto! Descobriu, e isso lhe foi dito de diversos modos e por intermédio de interlocutores distintos, que, na escalada em que havia se metido, iria despencar e cair no precipício. E o seu fim estava contratado. Então deu cavalo-de-pau no discurso. Mas que se note: nada impede que diga alguma maluquice nesta quarta-feira.

Como se viu, num pronunciamento de oito minutos nesta terça, reconheceu a gravidade do momento; falou, sim, da necessidade de preservar empregos e de cuidar da economia, mas sem opor essas preocupações ao isolamento social. Até fez um agradecimento aos governadores. Aquele que chegou a declarar que "todos morrem um dia", expressando desse modo a sua preocupação com as vítimas fatais, solidarizou-se com as famílias e disse que "cada indivíduo importa".

Nesta mesma terça, de manhã, havia submetido a uma distorção miserável uma fala do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom. Sempre defendendo o isolamento social, este havia afirmado que os governos precisavam socorrer aqueles que estavam sem emprego. Advertiu que as populações não poderiam simplesmente ser confinadas sem recursos. O presidente brasileiro e suas milícias nas redes passaram a lhe atribuir o que não havia dito, como se Adhanom estivesse contra uma medida que é diretriz oficial na OMS.

Num dia de agressividade ímpar, Bolsonaro deu um cala-boca nos jornalistas à porta do Palácio do Alvorada para que ouvissem as ofensas que lhes eram dirigidas por um de seus apoiadores. Os profissionais de imprensa, que também correm riscos em sua atividade diária, se negaram, obviamente, a fazer parte da pantomima. De quebra, claro!, o presidente exaltou o golpe militar de 1964.

O que o fez mudar de ideia? No sábado, conversou com o ministro Gilmar Mendes, do STF, convidado para o encontro. Ouviu que o Gabinete de Crise deveria centralizar as medidas contra o vírus, que era preciso integrar os esforços dos demais Poderes e de governadores e prefeitos. Anteviu, obviamente, dificuldades para o governo no Judiciário, dado o clima de constante crispação. No domingo, o presidente houve por bem desfilar por Ceilândia e Taguatinga, pregando o fim da quarentena.

Isolado em sua cabeça labiríntica, Bolsonaro foi buscar o apoio do general Villas Boas, que divulgou uma carta em apoio ao presidente, pregando o fim dos radicalismos. Ocorre que Villas Boas não fala pelos militares da ativa. É respeitado, sim, nas Forças Armadas, mas está longe de ser um oráculo para os que podem mover tropas. O jogo é muito mais sutil do que se está a dizer por aí.

Prestem atenção! Um ministro do Supremo alertou Bolsonaro para o risco de uma tempestade judicial sobre sua cabeça. Não, claro!, como quem faz uma ameaça, mas como quem lê o óbvio. Um governo não pode ter mais de uma política oficial de combate à doença. Dias Toffoli, presidente da Corte e togado mais próximo, defendeu abertamente as medidas de isolamento social. O ministro Marco Aurélio, por seu turno, enviou para a Procuradoria Geral da República uma notícia-crime contra o presidente. Poderia tê-la arquivado de pronto se não tivesse dúvida nenhuma sobre a inexistência de crime. Não o fez.

Roberto Barroso, também do Supremo, proibiu a veiculação da campanha "O Brasil não pode parar". E só o fez porque entendeu que ela violava a Constituição, mais precisamente os princípios da legalidade, da moralidade e da eficiência. Dois mais dois são quatro: se uma campanha com esse conteúdo é criminosa, criminoso também é o presidente da República que utiliza as prerrogativas do cargo para fazer tal incitação. Ninguém sabe o tamanho da crise, não é mesmo? Há denúncias contra Bolsonaro por crime de responsabilidade na Câmara. Vai depender do que vem por aí — e não vem coisa boa. Se o presidente se comporta como um celerado, seu destino está selado.

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Reinaldo Azevedo