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Gripezinha que Bolsonaro tentou trocar por golpe mata mais de 1 por minuto

A foto, como se sabe, tornou-se mais do que uma metáfora do governante sem visão. Virou o próprio retrato - Adriano Machado/Reuters
A foto, como se sabe, tornou-se mais do que uma metáfora do governante sem visão. Virou o próprio retrato Imagem: Adriano Machado/Reuters
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

05/06/2020 09h05

A "gripezinha", como o presidente Jair Bolsonaro definiu a Covid-19, registra mais de um morto por minuto — e isso em dados oficiais. A subnotificação é escandalosa. Nesta quinta-feira, com dados divulgados, mais uma vez, com atraso, são 1.473 os registros de óbito em razão da doença, elevando o total para 34.021. O Brasil supera a Itália e assume o terceiro lugar no ranking da tragédia. Em poucos dias, deve superar o Reino Unido, com 39.987 casos fatais. Assim, o país ocupará a segunda posição em número total de contaminados e também de mortos. Os EUA alcançaram já a apavorante marca de 107.765 cadáveres.

Os dois países, no entanto, podem estar mais próximos na tragédia do que parece. O Brasil tem 210 milhões de habitantes; os EUA, em torno de 330 milhões. Em números absolutos, os mortos naquele país correspondem a 3,16 vezes os do Brasil. Quando se faz a conta por 100 mil habitantes, a diferença cai: 2,13 vezes apenas. E é nesse ponto que precisamos ter claro: não sabemos o tamanho da nossa tragédia em razão da subnotificação.

Só poderemos estimar, chegando mais perto da verdade, os mortos da Covid-19 quando fizermos um levantamento comparativo severo entre o total de mortos desde que a doença aqui se instalou com igual período do ano passado.

Faz apenas 100 dias que se registrou o primeiro caso da doença no Brasil. A primeira morte aconteceu no dia 16 de março. No período, o país teve três ministros da Saúde. Um deles, Nelson Teich, ficou menos de um mês no cargo. Luiz Henrique Madetta, que era o titular da pasta, foi demitido pelo presidente Jair Bolsonaro porque endossava o distanciamento social. Teich caiu porque se negou a assinar a prescrição oficial da cloroquina, a feitiçaria medicamentosa que seduz Jair Bolsonaro.

O país já é o segundo mais assolado pela doença mesmo tendo aplicado políticas de distanciamento social, a única forma de reduzir o contágio. Numa escolha insana, o presidente decidiu ser o protagonista mundial do negacionismo. A situação é dramática, sim, especialmente entre os mais pobres, mas dá para imaginar a dimensão da tragédia se o conjunto dos brasileiros tivesse escolhido Bolsonaro como o seu orientador de saúde. A frase que simboliza a sua empatia com os que sofrem é esta: "Todo mundo morre um dia".

Seu discurso armou a resistência ao distanciamento social, e os estados relaxam as regras num momento em que as contaminações e as mortes — ainda que sejam apenas os dados registrados — estão em ascensão, o que nenhum outro país do mundo fez. O risco é gigantesco.

Com o país assolado pela doença e com um Ministério da Saúde notavelmente incompetente, sob o comando de Eduardo Pazuello, o general do despiste, a maior contribuição do presidente no combate à doença consistiu em tentar tirá-la do noticiário, substituindo-a por ameaças golpistas — no que, diga-se, fez-se acompanhar por alguns de seus generais. Não se tem memória de tal grau equivalente de insanidade no país.

Reinaldo Azevedo