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Lava Jato, que elegeu um presidente, inventa conspiração para eleger outro

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

13/07/2020 09h08

Atenção, leitores!

É mentira que o confronto em curso entre a Procuradoria Geral da República e a Lava Jato faça parte de um esforço do governo Bolsonaro para controlar a força-tarefa. Essa é a versão conveniente que integrantes desta marca publicitária — Lava Jato — inventaram para que ela continue a atuar como ente autônomo, que não presta contas a ninguém.

É mentira que a eventual criação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado (Unac), que centralizaria forças-tarefa, poderia resultar num órgão com superpoderes policiais, que atuaria ao arrepio de qualquer controle institucional. A verdade está no exato oposto: essa é a realidade que vivemos agora. Hoje em dia, a força-tarefa faz o que lhe dá na telha. Na sua ousadia sem limites, acredita ter autonomia até para doar dinheiro decorrente de multas e acordos de delação a seu bel-prazer, como se os recursos lhe pertencessem.

Estamos diante de uma soma de aberrações. E, mais uma vez, a imprensa — ou setores — pode ter um papel decisivo para que se encontre o bom caminho ou para que se aprofunde o poço um pouco mais.

E que se note: a rapaziada é boa de lobby. A imprensa já está coalhada de artigos — inclusive de esquerdistas (!?) — alertando para o grave risco que estaria correndo o país nesta que seria uma terrível conspiração para o governo Bolsonaro acabar com a independência do Ministério Público Federal. O PT, como maior partido de oposição, está longe do debate, pensando sabe-se lá em quais substantivos celestes...

Vamos ver.

A Lava Jato foi o principal cabo eleitoral de Jair Bolsonaro. A Vaza Jato revelou diálogos de procuradores muito preocupados, por exemplo, com a possibilidade de que o PT vencesse a eleição. A maior estrela do lavajatismo — Sergio Moro — aceitou o cargo de ministro da Justiça, e se considerou, o que já é um absurdo em si, que se tratava do empoderamento da operação. E ninguém se deu conta de um absurdo, entre tantos: um juiz não poderia se confundir com a força-tarefa, é claro!, ou estaria evidenciado que não tinha independência para julgar. E não tinha! Condenou, por exemplo, Lula sem provas. Segue vivo o desafio para que digam em que página da sentença de Moro ela aparece.

A receita desandou. E agora os protagonistas da Lava Jato pularam fora do barco bolsonarista, junto com Moro, cujas ações evidenciam a pretensão de se candidatar à Presidência, o que ele nega, é evidente, para crença de ninguém. Como a relação entre Bolsonaro e a imprensa não é a melhor possível e como a Vaza Jato minou a credibilidade burra e impensada que tinha a operação junto a esta mesma imprensa, então é preciso jogar um fantasma no mercado da política e das ideias.

E qual é? Ao tentar obter os "dados estruturados e não estruturados" de posse das seções da Lava Jato (Curitiba, São Paulo e Rio), o braço da operação na PGR estaria cometendo uma ilegalidade -- é mentira! -- para subordinar a investigação aos interesses do governo Bolsonaro: mentira ainda mais cabeluda. Efeito esperado:
1 - refazer os canais e comunicação entre setores da imprensa e a Lava Jato. Neste fim de semana, assistimos a um verdadeiro festival de boatarias contra o ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo;
2 - descolar-se do bolsonarismo, numa espécie, então, de aliança informal com o jornalismo. Já que Bolsonaro bate muito na imprensa, é preciso deixar claro que a Lava Jato, agora, quer voltar a exibir a sua feição anti-establishment. Também quer fazer parte da frente ampla em favor da democracia, depois de ter ajudado a degradá-la.

Não peçam que os partidários da tese de que a criação da Unidade Nacional de Combate à Corrupção e ao Crime Organizado subordinaria as forças-tarefa ao governo porque eles não saberão demonstrar sem atravessar a linha que separa a realidade da teoria conspiratória.

Os procuradores continuariam livres para fazer seu trabalho. Por definição, não haveria como o governo meter a mão grande em tal unidade porque seriam muitos os olhos a vigiar a relação. Sujeitas a pressões políticas, convenham, as investigações estão hoje, ou tudo o que a Vaza Jato trouxe a público não bastou para evidenciar a pornográfica intimidade havida entre juiz e procuradores e os procedimentos heterodoxos dos próprios membros da força-tarefa? Diálogos que vieram à luz evidenciaram que os senhores procuradores firmaram parceria, por exemplo, com o FBI ao arrepio das disposições legais. Dallagnol anunciou a um colega que ele mesmo se encarregaria de encaminhar um pedido de extradição sem comunicação prévia ao Ministério da Justiça.

Não caiam nessa conversa. O bolsonarismo nada tem a ver com a necessária reorganização de um modo de combater a corrupção que destrói institucionalidade, empresas e empregos e só fortalece projetos de poder. Como se pode ver. A Lava Jato achou que poderia usar Bolsonaro como barriga de aluguel, e Bolsonaro tentou instrumentalizá-la a serviço de seu próprio projeto autoritário.

Como a coisa não prosperou, agora a Lava Jato ataca o antigo hospedeiro para tentar se manter à margem da lei, conservando o enorme poder que isso implica. Já elegeu um presidente. Agora quer eleger outro.

Reinaldo Azevedo