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Reinaldo Azevedo

Os vazamentos e o papel da imprensa em meio à guerra suja

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Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

07/08/2020 16h39

Os dados da quebra do sigilo de Fabrício Queiroz estão sob sigilo? Resposta: sim! Funcionário público que vaza informação sigilosa a quem quer que seja, incluindo a imprensa, comete crime? Resposta: sim. A imprensa, que publica um vazamento de informação de interesse público — e é o caso — é sócia desse crime? Resposta: não!

Não custa lembrar que a fama e, em certo sentido, a fortuna da Lava Jato se fez de vazamentos ilegais, não é mesmo? Daí a hipocrisia da gritaria promovida pelos procuradores da força-tarefa quando tentaram incriminar The Intercept Brasil em razão dos descalabros revelados pela Vaza Jato. Quem captou os dados do Telegram cometeu um crime, assim como quem vaza um dado sigiloso, ainda que crimes distintos. O jornalista que publica a informação está protegido pelo sigilo da fonte. Assim é nas democracias.

Isso não quer dizer que as informações tenham um efeito neutro ou mesmo que a intenção dos vazadores seja neutra. Quem tem de ter neutralidade, no sentido de não integrar grupos que disputam o poder, é a imprensa. Explico.

Os vazadores de informações da Lava Jato, está claro, tinham e têm um projeto de poder. Assim, é preciso distinguir de tal projeto a objetividade das informações vazadas.

As revelações da Vaza Jato apontam todos os crimes cometidos pela Lava Jato e a evidente suspeição de Sergio Moro para atuar como juiz — na verdade, era ele o coordenador da força-tarefa. É claro que as informações que vieram a público podem ser usadas como arma na luta política. Mas nem o The Intercept Brasil nem os veículos parceiros nas revelações daquela lambança disputam o poder.

Em síntese: o desejável é que investigações que estão sob sigilo permaneçam sob sigilo. Havendo o vazamento, a informação tem de ser publicada, como agora faz Crusoé. Como fez antes o The Intercept Brasil. A neutralidade política do veículo é outro assunto.

Não é segredo para ninguém que os fiéis da seita de Sergio Moro, incluindo os da imprensa e assemelhados, estão em confronto com fiéis da seita de Jair Bolsonaro. Na guerra suja em curso, fiquem certos, vai valer tudo e um pouco mais.

Este blog e seu titular pertencem à teologia, que seita não é, do estado democrático e de direito. Opõem-se a todo e qualquer crime e defendem os fundamentos da Constituição. Por isso, aqui não se discriminam vazamentos, desde que sejam de interesse público.

Se os dados são revelados pelo "The Intercept Brasil", publicados são. E pouco me importa saber se Lula e eventuais outras vítimas da Lava Jato vão gostar ou não.

Se os dados são revelados pela Crusoé, publicados são. E pouco me importa saber se Sergio Moro e eventuais outros beneficiários da informação vão gostar ou não.

Ou por outra: o importante é não ter nem bandidos nem vazamentos de estimação, não participando nem servindo de plataforma de candidaturas.

Agindo assim, a imprensa faz a coisa certa.

Reinaldo Azevedo