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Reinaldo Azevedo

Já passou da hora de os negros brasileiros serem tratados como judeus

Policial pisa sobre o pescoço de mulher negra em Parelheiros, em São Paulo, que, obviamente, estava rendida e sem capacidade de reação. O racismo naturalizado entre nós gera uma primeira onda de indignação que passa logo - Reprodução
Policial pisa sobre o pescoço de mulher negra em Parelheiros, em São Paulo, que, obviamente, estava rendida e sem capacidade de reação. O racismo naturalizado entre nós gera uma primeira onda de indignação que passa logo Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

12/08/2020 16h17

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte. É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do Norte."

O texto acima é de autoria do gigantesco Joaquim Nabuco e está no livro "Minha Formação". Trata-se de uma verdade aterradora e profunda. Nabuco aborda, como se nota, a naturalização da escravidão entre nós, como se fosse um traço da nossa identidade.

A degeneração moral legada pela escravidão aparece na agressão vil de que foi alvo um entregador em Valinhos, em São Paulo, ou na agressão física sofrida por um motoboy num shopping do Rio. E, nesse segundo caso, os únicos que estavam transgredindo a lei eram os policiais que estavam fazendo bico.

Agora vem a público a sentença de uma juíza do Paraná. Leio na Folha:
A raça foi uma das características usadas para associar um homem a um grupo criminoso em Curitiba (PR). Nas palavras da juíza Inês Marchalek Zarpelon, o réu Natan Vieira da Paz, um homem negro de 48 anos, "seguramente" integrava a organização, "em razão de sua raça".

A frase foi repetida em três partes da sentença de 115 páginas, da 1ª Vara Criminal de Curitiba. A decisão é do dia 19 de junho, mas ganhou repercussão com a revolta da advogada do réu, Thayze Pozzobon, que compartilhou a sentença nas redes sociais.
(...)
Após o impacto do caso, a Corregedoria do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ/PR) informou em nota à Folha que instaurou procedimento administrativo para apurar os fatos.

Natan, cujo apelido é "Neguinho", como detalha a própria sentença, foi condenado a 14 anos e 2 meses de prisão, em regime fechado, além de multa, por roubos e furtos praticados em organização criminosa. Ele pode recorrer da condenação em liberdade.

"Seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça", escreveu a magistrada. Na sequência, ela afirmou que, no grupo criminoso que integrava, ele e os demais réus "causavam o desassossego e a desesperança da população", fator que deveria ser considerado para valorar negativamente as condutas.
(...)
Via Associação dos Magistrados do Paraná (Amapar), a juíza divulgou uma nota em que pede desculpas pelo ocorrido, mas afirma que a frase foi "retirada de um contexto maior" e que a cor da pele do réu não foi levada em consideração para condená-lo.

"Em nenhum momento a cor foi utilizada -e nem poderia— como fator para concluir, como base da fundamentação da sentença, que o acusado pertence a uma organização criminosa. A avaliação é sempre feita com base em provas", afirmou a juíza.

RETOMO
É o fim da picada a juíza em questão se manifestar via "Associação dos Magistrados do Paraná". Na hora de dar a sentença e escrever a barbaridade que escreveu, ela o faz por conta própria, segundo os critérios olímpicos de que dispõe o juiz -- e nem me oponho a eles, alicerçados na vitaliciedade, na inamovibilidade e na irredutibilidade dos salários.

Quando, no entanto, algo dá errado, aí se apela ao ente de caráter sindical...

A associação se dá conta de que, ao ser veículo da explicação que nada explica, acaba se comprometendo com a frase odiosa?

"Fora de contexto"? É mesmo? Que contexto explica "seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça"...? Ademais, alguém explique à doutora que cor de pele não é raça. Raça mesmo, senhora, só existe uma: a humana.

QUANDO ACABA?
Sabem quando isso vai acabar? Quando o Conselho Nacional de Justiça simplesmente aposentar compulsoriamente um juiz que escreve algo dessa natureza. E quando, finalmente, a discriminação contra o negro ganhar o justo status de que goza, por exemplo, a discriminação contra os judeus. Reitero: JUSTO STATUS!

Ou alguém dúvida de que a Associação dos Magistrados do Paraná jamais poria o sindicato a serviço de um juiz que praticasse antissemitismo numa sentença? E não o faria porque as entidades judaicas são mais organizadas e mais presentes no establishment do que os grupos que defendem os direitos dos negros.

A partir do dia 10 de setembro, o STF e o Conselho Nacional de Justiça passarão a ser ocupados por um judeu, por exemplo: Luiz Fux. Sim, já houve um negro lá — Joaquim Barbosa —, mas se tratou de exceção, não de regra, de coisa corriqueira.

Voltemos a Joaquim Nabuco. Correta e justamente, o antissemitismo causa repugnância numa larga maioria, inclusive numa larga maioria que ainda vê com naturalidade a discriminação contra os negros. Afinal, como quer Nabuco, a escravidão povoou nossa natureza virgem "como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos".

E, desgraçadamente, ofender um negro parece não ter a mesma gravidade de ofender um judeu.

FALAR TUDO
E, como o segredo de aborrecer é dizer tudo, lembro que Jair Bolsonaro, durante a campanha eleitoral, disparou a seguinte barbaridade:
"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas (arroba é uma medida usada para pesar gado; cada uma equivale a 15 kg). Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais".

E prosseguiu:
"Alguém já viu algum japonês pedindo esmola? É uma raça que tem vergonha na cara!".

Foi aplaudido com entusiasmo. Estava na Hebraica do Rio. Um clube judaico.

O STF recusou uma denúncia contra ele por racismo.

Chegou a hora de o negro brasileiro ser tratado como um judeu.

Reinaldo Azevedo