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Tchau, Guedes! Seu chefe tem seus próprios sonhos de ruína. Ou: Teto desaba

Quadro "Pigmaleão e Galatéia", do pintor francês Henri Regnault (1843-1871). Delírio de Paulo Guedes chega ao fim. E com péssimos resultados - Reprodução
Quadro "Pigmaleão e Galatéia", do pintor francês Henri Regnault (1843-1871). Delírio de Paulo Guedes chega ao fim. E com péssimos resultados Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

17/09/2020 05h33

Paulo Guedes chegou ao poder como o Pigmaleão de Jair Bolsonaro, aquela figura mítica que esculpiu uma estátua, Galatéia, pela qual se apaixonou. Com pena, Afrodite conferiu vida ao mármore, e os dois foram felizes para sempre.

Guedes se apresentava às elites como o dono da estátua: o presidente assinaria tudo aquilo que o financista meio aloprado, um heterodoxo à sua maneira, prometia às elites, encantadas com a sua retórica contra o Estado — embora boa parte dos bacanas no país mamem em tetas estatais — e com a ladainha de que os pobres no Brasil sempre esperam tudo do governo e não gostam de empreender.

O doutor sabe-tudo, o garantidor da suposta conversão de Bolsonaro ao liberalismo, o dono das ideias que teriam passado a ocupar o vácuo da cabeça presidencial, hoje se arrasta para ficar no poder. Antes, consta, ele teria uma agenda para mudar o Brasil. Agora, o seu único projeto é não cair.

E não! Já escrevi, falei e reitero: não me peçam para fazer uma espécie de aliança tática com Guedes, na esperança de controlar Bolsonaro, uma vez que o ministro seria melhor e mais moderno do que o presidente. Essa é uma ficção criada por parte do jornalismo que cobre economia e que não consegue se livrar das amarras intelectuais ditadas pelas fontes de sempre.

Convenham, né? O Brasil da especulação até que vai muito bem. O que vai mal é o país real.

Nem se trata de afirmar que no embate recente entre Bolsonaro e Guedes, a razão estava com o presidente porque as coisas não devem ser postas nesses termos. A ideia de congelar as aposentadorias por dois anos e de desvincular o reajuste do mínimo dos proventos pagos pelo INSS é de tal sorte estapafúrdia — dado que mais de 67% dos vencimentos pagos a aposentados corresponde a um salário mínimo —, que cumpre constatar que os pobres foram salvos de mais uma mágica de Guedes pelo senso de sobrevivência eleitoral do seu chefe.

O ministro não tem mais o que fazer no governo porque a sua leitura da política, da economia, do equilíbrio entre os Poderes pode ser compatível com uma ditadura, mas não tem como render frutos num regime democrático, ainda que seja este nosso, todo estropiado e crescentemente corroído pela estupidez anti-humanista — que, note-se, assume contornos cada vez mais nítidos em todos os estratos da sociedade.

A verdade é que inexiste um plano de governo, e o único objetivo de Guedes, hoje, é não cair. Sua vaidade não está mais em "mudar o Brasil" — ainda que suas mudanças, entendo, fizessem o país marchar para trás. Ele só não quer ser enxotado do poder. Rejeitado pela turma que fez o Plano Real, excluído da rodinha na era petista — embora tenha ganhado muito dinheiro, é certo —, esta seria a sua hora. Ele anunciou de modo pomposo que teria chegado o momento de o liberalismo se casar com o conservadorismo para consertar os desarranjos de mais de 20 anos de governos identificados com a social-democracia. Eis aí o que ele é capaz de produzir.

Tivesse mesmo algo na cabeça além de algumas ideias fixas — que, segundo Machado de Assis, valem como farpas nos olhos —, que já se mostraram inviáveis ou impróprias para o momento, chamaria o presidente da República e o que há lá em Brasília que lembre remotamente um governo para constatar: "As virtudes desse teto de gastos que está aí se esgotaram. Teve o seu papel na estabilização. Mas, nos marcos dados, é coisa da era pré-pandemia. A realidade agora é outra. E, como resta evidente, não temos como mantê-lo, ou o custo será o sucateamento da gestão pública de modo que pode ser irreversível. Tudo aquilo que teria de ser feito para conservá-lo supõe mudanças que ou não passam pelo Congresso ou que levariam ao desastre serviços básicos para a população, como saúde e educação, por exemplo".

Com algum acréscimo de lucidez, diria mais: "Não quer dizer que devamos investir no vale-tudo. Estabeleçamos, então, um novo teto, para que a gente não tenha de ficar propondo feitiçarias contra os pobres". Ocorre que aqueles setores que ainda garantem a permanência de Guedes no poder também têm os seus fetiches, não é mesmo? E isso seria visto como senha para o liberou-geral. Ou por outra: a credibilidade do comandante da economia se sustenta numa conta que não fecha, numa inviabilidade.

É uma tolice essa história de que se assiste ao choque entre um ministro liberal e um presidente populista. Há apenas um desarranjo de vocações autoritárias, com uma diferença: Bolsonaro precisa do aval do povo para continuar no poder, e Guedes precisa do aval de Bolsonaro. O ministro nunca foi, como imaginou, o criador da criatura. Serviu apenas para passar um verniz no capitão bronco, de que setores da elite desconfiavam. Achou que era ele a conferir vida a Bolsonaro, quando estava apenas sendo instrumentalizado por alguém que Galatéia não era. O capitão tem seus próprios sonhos de ruína.