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O entreguismo militar: Pompeo em Roraima e Pantanal e Amazônia em chamas

Terra devastada. Área queimada na região de Cuiabá. Esforços oficiais para salvar o Pantanal são modestos. Desmonte da política ambiental rende frutos: incêndios. Cadê as Forças Armadas que, de fato, governam o país? - Rogério Florentino/EFE
Terra devastada. Área queimada na região de Cuiabá. Esforços oficiais para salvar o Pantanal são modestos. Desmonte da política ambiental rende frutos: incêndios. Cadê as Forças Armadas que, de fato, governam o país? Imagem: Rogério Florentino/EFE
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/09/2020 07h25

Os livros de história não serão nada suaves com o atual establishment militar brasileiro, que constitui, na verdade, a espinha dorsal do governo Bolsonaro, ainda que ele tenha, claro!, autonomia para fazer escolhas nem sempre condizentes com os uniformes que hoje valem por pijamas e com os pijamas que hoje valem por uniformes.

A Operação Acolhida é, como vocês podem constatar, uma força-tarefa do Exército Brasileiro. Logo, Mike Pompeo foi pregar a queda do governo de um país que faz fronteira com o Brasil em instalações militares. Jamais as Forças Armadas do Brasil se submeteram a tamanha sujeição. Acreditem: até mesmo a geração que deu o golpe e a que a sucedeu na sustentação do regime militar estão se revirando no túmulo. Emprestar o território brasileiro a proselitismo eleitoral de um partido político dos EUA? Não! Humilhação e sabujice em tal grau nunca se viu.

Sim, o Brasil já se submeteu aos ditames do "big stick" antes, mas havia, vamos dizer, algumas compensações para se submeter ao grande porrete. Na sequência da entrada do Brasil na Segunda Guerra, com a queda de Getúlio Vargas, por exemplo, o país rompeu com a URSS, não reconheceu os governos da Coreia do Norte e da China e pôs na ilegalidade o Partido Comunista. Eram consequências do alinhamento com o Grande Imperador do Norte.

Ainda assim, creiam, eram escolhas ditadas por interesses locais. Não se tratava de sujeição preguiçosa e rastejante aos interesses americanos. Getúlio não tardou a voltar ao poder. Não desfez o alinhamento, mas resistiu, por exemplo — e com o apoio das Forças Armadas — ao assédio para enviar homens à Guerra da Coreia. Limitou-se a garantir o fornecimento de matéria-prima aos EUA, sem se envolver diretamente no conflito.

O golpe militar de 1964 teve, sim, a inequívoca e hoje comprovada interferência dos EUA. Não foi preciso apelar ao porta-aviões e aos contratorpedeiros da "Operação Brother Sam", que os americanos estavam dispostos a mandar em socorro aos militares golpistas, mas, vá lá, preservaram-se ao menos as aparências. Em 1975, o Brasil celebra o acordo nuclear com a Alemanha na contramão dos interesses americanos.

A política externa brasileira da ditadura teve marcas muito particulares sob o comando de Mário Gibson Barboza (governo Médici), Azeredo da Silveira (governo Geisel) e Saraiva Guerreiro (governo Figueiredo). Cada um com viés particular, de todos eles se pode dizer, de maneira geral, que foram pautados pelo interesse nacional e pelo pragmatismo — e, mais de uma vez, sem a concordância de Washington.

Isso fez a chamada tradição de independência da política externa. Gibson Barboza deu início à aproximação do Brasil com nações africanas; Azeredo da Silveira pôs o país na vanguarda do reconhecimento do governo português que se seguiu à Revolução dos Cravos, em Portugal, e à independência das ex-colônias africanas; Saraiva Guerreiro não cedeu ao intervencionismo americano. Em 1983, o Brasil foi convidado, por Ronald Reagan, a participar da deposição do governo do Suriname, liderado pelo coronel Desiré Bouterse.

Não só resistiu como enviou àquele país o general Danilo Venturini para dar início a uma cooperação entre os dois países, que rendeu frutos. Bouterse se afastou da órbita de Cuba, e o Brasil não teve de endossar uma intervenção dos EUA na América do Sul. Bouterse era e é um pulha. Relações internacionais dispensam, muitas vezes, juízos dessa natureza.

A política da não intervenção foi substituída agora pela da sujeição. No primeiro ano do governo Bolsonaro, Araújo chegou a flertar com a ideia de se abrir um corredor em Roraima para a eventual passagem de tropas americanas que deporiam Nicolás Maduro. O establishment militar reagiu. O nosso chanceler já escreveu um texto em que, na prática, se declara um fiel do "Deus de Trump", que ele considera liderar a guerra do Ocidente contra a dissolução dos valores cristãos, seja lá o que isso signifique na prática.

Agora, os militares brasileiros veem uma obra sua ser usada miseravelmente para uma campanha eleitoral. A isso se reduziu a tradição brasileira se não emprestar seu território para proselitismo que seja do interesse de terceiros, afrontando, de resto, o que dispõe a sua Constituição. Para isso temos essa nova "versão" de governo militar?

Até mesmo, convenham, o zelo que os fardados teriam com a incolumidade do território brasileiro está, literalmente, virando cinzas. A Amazônia e o Pantanal queimam na esteira do desmonte das políticas ambientais, e lá está uma gloriosa geração de generais aboletada no poder, incapaz de evidenciar que esforços estão efetivamente sendo feitos para que o patrimônio nacional não vire fumaça. São esses os defensores da pátria que especulavam até anteontem se poderiam ou não emparedar o Supremo em suposto atendimento ao Artigo 142 da Constituição?

Durante muito tempo a crítica de esquerda viu em sucessivas gerações de militares uma vocação entreguista. Considero que a crítica foi, no mais das vezes, injusta. E hoje? Da sujeição da política externa aos interesses de uma corrente de pensamento nos EUA à incapacidade comprovada de zelar pela incolumidade do território brasileiro, parece que se pode, agora sim, falar de uma geração de entreguistas.

Ao se desbordar de suas funções de forças que servem ao Estado e se submeter aos caprichos de um governo — sendo, na verdade, seu sócio e seu esteio —, essa geração que aí está parece mais empenhada em garantir privilégios do que em efetivamente servir aos interesses do país.

E, por isso, o Pantanal arde. E, por isso, um prosélito vulgar e truculento, como Mike Pompeo, usa uma estrutura do Exército brasileiro para fazer campanha eleitoral.

Trata-se de um estágio ímpar da degradação. E do entreguismo.