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Reinaldo Azevedo

Absurdo de Trump: vitória anunciada no berro e a América pequena outra vez

Reprodução/BandNews
Imagem: Reprodução/BandNews

Colunista do UOL

04/11/2020 07h07

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A avalanche azul não aconteceu, conforme previam, atenção!, todas as pesquisas. Podia haver variação entre elas nesta ou naquela unidades da federação, mas pouca. Caso não haja uma virada nos Estados ainda dados como indefinidos e se confirme a vitória de quem está na frente, Donald Trump se reelege presidente dos EUA.

Joe Biden não conseguiu vencer na Flórida, como apontavam os levantamentos. E la se foram 29 votos preciosos para Trump. O Texas até chegou a animar, mas este era mesmo improvável que migrasse para os democratas. Com 74% dos votos apurados enquanto escrevo, a Pensilvânia tem tudo para ser uma surpresa amarga para Joe Biden: o presidente lidera por 55,7% a 43%. Vale 20 eleitores no Colégio. No Wisconsin, que tem 10 votos, a diferença é bem mais apertada: 50,9% a 47,3% para os republicanos.

Trump também está na frente em Michigan, que tem 16 eleitores: 52,3% a 46%. Nesses estados, ainda falta contar muitos votos que vieram pelo Correio. No caso da Pensilvânia, a contabilidade pode se estender até sexta-feira. Com 95%, a Carolina do Norte parece fava contada para Trump: 48,7% a 50,1%. A situação da Geórgia é um pouco menos confortável, mas tende para o vermelho: com 92% de apuração e 16 votos no colégio, o atual presidente lidera por 50,5% a 48,3%.

Biden tem uma situação mais confortável no Arizona, o que não deixa de ser inesperado: 51,8% a 46,8%. O Estado tem 11 votos. Foram apurados até agora 82% do total. O democrata lidera em Nevada com 50,2% a 47,9%, com 79% da apuração. Dali saem apenas 6 delegados.

Se tudo isso se confirmar, os democratas podem dar adeus à Presidência: Biden atingirá apenas 244 votos. E os Estados Unidos e o mundo conhecerão um Trump talvez ainda mais, como posso dizer?, genuíno. O que virá?

Só Deus sabe a julgar pelo seu comportamento ainda antes do encerramento da eleição. Sua turma havia vazado para a imprensa que ele poderia anunciar a vitória antes da confirmação matemática. No começo da noite de ontem, negou de viva voz que fosse fazê-lo. E se desmentiu em seguida.

Na madrugada desta quarta, discursando dentro da Casa Branca, ele se declarou o vencedor. Reitero: é o que vai acontecer se quem está agora na frente confirmar a vitória nos Estados ainda indefinidos. Mas ainda é impossível dizer que está com o trono assegurado.

E daí? Ele é Donald Trump. Institucionalidade, decoro, democracia, respeito às regras do jogo? Bem, isso não é com ele.

"Eles [os democratas] sabiam que não poderiam vencer e disseram 'Vamos à Suprema Corte'". Referindo-se aos votos pelo correio, disparou: "Isso é uma enorme fraude. É uma vergonha para o nosso país. Francamente, nós ganhamos esta eleição."

Aquele que acabara de acusar os adversário de judicializar a disputa ameaçou:
"Nós vamos à Suprema Corte, queremos que todos os votos parem, não queremos que os votos sejam encontrados até as quatro da manhã. É um momento triste".

Bem, coloque-se triste nisso. Não se tem memória de um presidente que se declarasse vencedor à revelia do resultado, ainda que, neste momento, sua vitória seja mais provável do que a de Biden.

O QUE VEM POR AÍ
O que vem por aí é incerto, e o que há de certo não é bom. Os Estados Unidos formalizaram nesta quarta, em meio às eleições, a sua saída do Clube de Paris, o acordo que reúne a maior parte das nações do planeta para mitigar as mudanças climáticas.

O democrata Biden já havia afirmado que, sob um eventual governo seu, o país continuaria alinhado com o Acordo de Paris. Um mínimo de decoro — de novo essa palavrinha —, e o presidente aguardaria o resultado das urnas.

Enquanto escrevo, Biden tem 67.035.009 — ou 49.8% do total. Trump conta com 65.248.948 votos (48.5%). A diferença entre ambos não será muito grande. E se repete a possibilidade de o vitorioso nos votos não chegar à cadeira presidencial, embora seja menos provável desta feita.

De qualquer modo, o país segue dividido como raramente se viu. E precisaria de um líder que tivesse capacidade e disposição para uni-lo. Bem, este homem não é Trump. Não respeita as regras do jogo nem durante o processo eleitoral.

Os adversários dos EUA que querem uma América fraca certamente comemoram.