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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O tríplex, que era da OAS, foi pretexto escancarado para pegar um "ícone"

Deltan DAllagnol e o PowerPoint vergonhoso, que nada tinha a ver com a denúncia que ele apresentou. Temos de nos perguntar como isso foi possível - Reprodução
Deltan DAllagnol e o PowerPoint vergonhoso, que nada tinha a ver com a denúncia que ele apresentou. Temos de nos perguntar como isso foi possível Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

09/03/2021 04h49

Reportagem do site The Intercept Brasil, publicada no dia 9 de junho de 2019, evidenciou com fartura de dados que o tal tríplex de Guarujá era só um pretexto para condenar Lula. Servia para conferir verossimilhança a uma denúncia que, também ela, era frágil. E ora, vejam, os próprios procuradores sabiam disso.

Reproduzo trecho da reportagem:
"Faltavam apenas quatro dias para que a denúncia que levaria o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à prisão fosse apresentada, mas o coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba tinha dúvidas sobre a solidez da história que contaria ao juiz Sergio Moro. A apreensão de Deltan Dallagnol, que, junto com outros 13 procuradores, revirava a vida do ex-presidente havia quase um ano, não se devia a uma questão banal. Ele estava inseguro justamente sobre o ponto central da acusação que seria assinada por ele e seus colegas: que Lula havia recebido de presente um apartamento triplex na praia do Guarujá após favorecer a empreiteira OAS em contratos com a Petrobras."

Vale a pena ler, ou reler a íntegra. Até para vocês constatarem como a força-tarefa fez uso livre de uma reportagem do Globo para tentar atribuir o imóvel ao ex-presidente — o que se constatou, depois, ser mentira, uma vez que este sempre esteve listado entre os bens da OAS.

Mas isso é o de menos agora. Volto a outro trecho da reportagem do Intercept. Dallagnol anuncia que vai protagonizar o espetáculo grotesco do PowerPoint quatro dias antes de apresentar a denúncia. Mais um trecho da reportagem do Intercept, que reproduz mensagens suas no grupo "Incendiários ROJ", do Telegram (conforme está escrito lá):
"Vcs não têm mais a mesma preocupação que tinham quanto ao imóvel, certo? Pergunto pq estou achando top e não estou com aquela preocupação. Acho que o slide do apto tem que ser didático tb. Imagino o mesmo do lula, balões ao redor do balão central, ou seja, evidências ao redor da hipótese de que ele era o dono".

Não. Lula não era o dono.

O ESPETÁCULO VIL
Dallagnol sabia da fragilidade da denúncia. Segue mais um trecho da reportagem:

Na véspera da denúncia, Dallagnol voltou ao celular e comentou mais uma vez sobre a peça de acusação, analisando a qualidade das provas que eles tinham em mãos. "A opinião pública é decisiva e é um caso construído com prova indireta e palavra de colaboradores contra um ícone que passou incolume pelo mensalão", ele teclou no grupo Filhos do Januário 1.

No dia seguinte, quarta-feira, 14, a Lava Jato mostraria sua primeira denúncia contra Lula, numa entrevista coletiva em uma sala de reuniões de um hotel de luxo em Curitiba. O triplex - segundo a Lava Jato, reformado pela OAS e doado ao político como propina em contratos da empreiteira com a Petrobras - era a peça central da denúncia por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Dallagnol voltaria ao assunto numa conversa privada com o então juiz Sergio Moro, em 16 de setembro, dois dias após a denúncia. O procurador estava sendo duramente criticado por parte da opinião pública, que alegava fragilidade na denúncia. Tinha virado, também, alvo de chacotas e memes pelo PowerPoint que apresentou na entrevista coletiva.

O coordenador da Lava Jato escreveu a Moro: "A denúncia é baseada em muita prova indireta de autoria, mas não caberia dizer isso na denúncia e na comunicação evitamos esse ponto." Depois, entrou em detalhes técnicos: "Não foi compreendido que a longa exposição sobre o comando do esquema era necessária para imputar a corrupção para o ex-presidente. Muita gente não compreendeu porque colocamos ele como líder para imperar 3,7MM de lavagem, quando não foi por isso, e sim para inputar 87MM de corrupção."

Em privado, Dallagnol confirmava a Moro que a expressão usada para se referir a Lula durante a apresentação à imprensa ("líder máximo" do esquema de corrupção) era uma forma de vincular ao político os R$ 87 milhões pagos em propina pela OAS em contratos para obras em duas refinarias da Petrobras - uma acusação sem provas, ele mesmo admitiu, mas que era essencial para que o caso pudesse ser julgado por Moro em Curitiba.

Entenderam o ponto?

O que se tinha era um alvo político. E, como Dallagnol deixa claro na conversa com seus pares, a opinião pública era "decisiva" em um caso construído com o que ele chamou "provas indiretas" — quer dizer, no contexto, falta de provas, como vamos rever — e com "a palavra de colaboradores".

Mais: ele chama Lula de "um ícone". Logo, ele tinha de protagonizar um espetáculo que colaborasse para abalá-lo. Então fez o PowerPoint, que nada tinha a ver com a denúncia.

Sem pertencer ao ex-presidente, o apartamento era um mero pretexto de um caso do qual Sergio Moro nem mesmo deveria ser o juiz.

Ainda voltarei à questão das provas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL