PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Carta de pesos-pesados mira o governo e desmoraliza pregação de Bolsonaro

Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, dois dos signatários de uma contundente carta à nação. Governo já ultrapassou o limite mesmo da irresponsabilidade - Germano Lüders/EXAME.com/
Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles, dois dos signatários de uma contundente carta à nação. Governo já ultrapassou o limite mesmo da irresponsabilidade Imagem: Germano Lüders/EXAME.com/
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

21/03/2021 21h00

O texto que vem sendo chamado de "carta de banqueiros e economistas" — para facilitar um título nos veículos de comunicação — é, na verdade, uma "Carta dos Sensatos", que, ora vejam!, se ancora na ciência e nos fatos. Ocorre de ser assinada por pesos-pesados da economia nacional, como, entre outros, Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles (co-presidentes do conselho de administração do Itaú Unibanco), José Olympio Pereira (presidente do Credit Suisse), Solange Srour (economista-chefe do Credit Suisse) e Octavio de Barros (antigo economista-chefe do Bradesco).

Também se contam entre os signatários ex-presidente do Banco Central — como Armínio Fraga, Affonso Celso Pastore, Gustavo Loyola e Ilan Goldfajn — e ex-ministros da Fazenda, como Pedro Malan, Marcílio Marques Moreira e Ruben Ricupero. Note-se: em tempos normais, um mar de divergência separaria muitos deles. Nestes dias, estão pedindo o reconhecimento, na área do combate à pandemia, de que a Terra é mesmo redonda...

IRRESPONSABILIDADE
O documento é longo, sim. Recomendo vivamente que seja lido. O texto aponta, sem subterfúgio, o tratamento irresponsável do governo federal no enfrentamento da pandemia. Lê-se lá:
"Esta recessão, assim como suas consequências sociais nefastas, foi causada pela pandemia e não será superada enquanto a pandemia não for controlada por uma atuação competente do governo federal. Este subutiliza ou utiliza mal os recursos de que dispõe, inclusive por ignorar ou negligenciar a evidência científica no desenho das ações para lidar com a pandemia".

O presidente Jair Bolsonaro engrola negacionismo e mistificações para a sua plateia de fanáticos, mas, obviamente, não engana mais tomadores de decisão, que se veem tragados por um aluvião de incompetência e de irresponsabilidade. O manifesto aponta o desastroso comportamento do governo federal no caso das vacinas:
"A falta de vacinas é o principal gargalo. Impressiona a negligência com as aquisições, dado que, desde o início da pandemia, foram desembolsados R$ 528,3 bilhões em medidas de combate à pandemia, incluindo os custos adicionais de saúde e gastos para mitigação da deteriorada situação econômica."

DESASTRE ECONÔMICO
Pessoas acostumadas a lidar com números objetivos e severos sobre o desempenho econômico -- ou podem provocar danos nas companhias em que atuam -- reconhecem os efeitos desastrosos da pandemia e desmoralizam a tese de Bolsonaro, que tenta opor medidas preventivas e de redução de danos ao funcionamento da economia. Diz o documento:
"A redução do nível da atividade nos custou uma perda de arrecadação tributária apenas no âmbito federal de 6,9%, aproximadamente R$ 58 bilhões, e o atraso na vacinação irá custar em termos de produto ou renda não gerada nada menos do que estimados R$ 131,4 bilhões em 2021, supondo uma recuperação retardatária em 2 trimestres."

Quem se acerca com seriedade do problema não precisa dourar a pílula. Evidencia-se no texto que a realidade é ainda mais grave do que se pode perceber numa primeira mirada:
"A situação econômica e social é desoladora. O PIB encolheu 4,1% em 2020 e provavelmente observaremos uma contração no nível de atividade no primeiro trimestre deste ano. A taxa de desemprego, por volta de 14%, é a mais elevada da série histórica, e subestima o aumento do desemprego, pois a pandemia fez com que muitos trabalhadores deixassem de procurar emprego, levando a uma queda da força de trabalho entre fevereiro e dezembro de 5,5 milhões de pessoas."

A TESE FURADA DE BOLSONARO
Será que pessoas que estão à frente de grandes bancos e de empresas de porte têm algum interesse em negar a natureza da crise ou em insistir numa perspectiva que a extrema-direita bolsonariana insiste em chamar de "ideológica"? A resposta é óbvia. E o diagnóstico que se apresenta no documento é aquele consagrado mundo afora pela ciência econômica e pela epidemiologia: a recuperação da economia depende do controle da doença. Por essa razão, dizem os autores do documento:
"A controvérsia em torno dos impactos econômicos do distanciamento social reflete o falso dilema entre salvar vidas e garantir o sustento da população vulnerável. Na realidade, dados preliminares de óbitos e desempenho econômico sugerem que os países com pior desempenho econômico tiveram mais óbitos de Covid-19. A experiência mostrou que mesmo países que optaram inicialmente por evitar o lockdown terminaram por adotá-lo, em formas variadas, diante do agravamento da pandemia -é o caso do Reino Unido, por exemplo. Estudos mostraram que diante da aceleração de novos casos, a população responde ficando mais avessa ao risco sanitário, aumentando o isolamento voluntário e levando à queda no consumo das famílias mesmo antes ou sem que medidas restritivas formais sejam adotadas. A recuperação econômica, por sua vez, é lenta e depende da retomada de confiança e maior previsibilidade da situação de saúde no país".

Esse parágrafo resume e desmonta a tese de Bolsonaro sobre a crise. Falam pessoas, reitero, que conhecem a fundo o funcionamento da economia no Brasil e no mundo, o que não é o caso do presidente da República, que tem pouco domínio desse assunto — ou de outro qualquer.

Realista, o documento chama a atenção do país para o fato de que os dias que seguem serão ainda mais difíceis. Logo, as medidas prudenciais na área sanitária se impõem, lembrando: a resposta efetiva é a vacinação. Numa censura explícita às crendices e feitiçarias de Bolsonaro, destaca-se que as evidências científicas devem pautar as ações do Estado brasileiro:
"Estamos no limiar de uma fase explosiva da pandemia e é fundamental que a partir de agora as políticas públicas sejam alicerçadas em dados, informações confiáveis e evidência científica. Não há mais tempo para perder em debates estéreis e notícias falsas. Precisamos nos guiar pelas experiências bem-sucedidas, por ações de baixo custo e alto impacto, por iniciativas que possam reverter de fato a situação sem precedentes que o país vive"

A carta aberta cobra do governo federal quatro medidas efetivas:
1 - acelerar o ritmo de vacinação;
2 - incentivar o uso de máscaras, com distribuição gratuita das mesmas, com uma campanha nacional em favor do seu uso. Nota: Bolsonaro voltou a dizer na live de quinta passada que máscaras são inúteis em transportes coletivos lotados, o que é mentira;
3 - implementar medidas de distanciamento social, com coordenação local. Nota: Bolsonaro foi ao Supremo para tentar impedir ações de restrição de circulação implementadas por governadores e prefeitos;
4 - que haja uma efetiva coordenação nacional de combate à pandemia; não havendo, que os outros entes se esforcem para ações conjuntas.

ATUAÇÃO DO LÍDER
A chamada "carta de banqueiros e economistas" faz uma censura explícita ao comportamento de Bolsonaro na crise e aponta, na prática, que ele é hoje voz isolada no mundo. Note-se que a primeira frase do documento informa a particularíssima e trágica posição do nosso país: "O Brasil é hoje o epicentro mundial da Covid-19, com a maior média móvel de novos casos". Está escrito na carta:
"O papel de liderança: Apesar do negacionismo de alguns poucos, praticamente todos os líderes da comunidade internacional tomaram a frente no combate ao Covid-19 desde março de 2020, quando a OMS declarou o caráter pandêmico da crise sanitária. Informando, notando a gravidade de uma crise sem precedentes em 100 anos, guiando a ação dos indivíduos e influenciado o comportamento social.

Líderes políticos, com acesso à mídia e às redes, recursos de Estado, e comandando atenção, fazem a diferença: para o bem e para o mal. O desdenho à ciência, o apelo a tratamentos sem evidência de eficácia, o estímulo à aglomeração, e o flerte com o movimento antivacina caracterizaram a liderança política maior no país. Essa postura reforça normas antissociais, dificulta a adesão da população a comportamentos responsáveis, amplia o número de infectados e de óbitos, aumenta custos em que o país incorre."

A CONCLUSÃO: PAÍS EXIGE RESPEITO
O documento é impecável. Havendo um defeito, está apenas na demora. Há muito tempo já se podia concluir que o presidente não mudaria nem de opinião nem de rota, conduzindo o país ao desastre sanitário, social, econômico e moral.

Cumpre notar, e ainda voltarei ao assunto: no dia em que vem a público esse documento, Bolsonaro falou a seus seguidores em frente ao Palácio da Alvorada e voltou a ameaçar o país com um golpe, falando, uma vez mais, como se as Forças Armadas pudessem embarcar em sua aventura.

A exemplo de todo golpista, aqui e mundo afora, ameaçou com o uso da força bruta em nome da liberdade. Ou vocês já viram algum golpista dizer algo como: "Quero mesmo é ditadura para eliminar meus inimigos"?

Que esses líderes, em seus respectivos, setores saibam mobilizar outras vozes da sociedade civil, da ciência e da política em defesa da vida, da ciência e da democracia.