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Reinaldo Azevedo

Datafolha: Bolsonaro derreteu. Ainda sem o "nem-nem". E "Lula Frente Ampla"

Reprodução/Folha-Datafolha
Imagem: Reprodução/Folha-Datafolha
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

13/05/2021 07h13

O governo Jair Bolsonaro viveu nesta quarta-feira o seu dia de cão. Refiro-me ao filme — em que tudo dá errado —, não aos pets. O depoimento de Fábio Wajngarten foi desastroso para Jair Bolsonaro por uma razão simples: é difícil defender o indefensável. Mas isso é para outro texto. Quando tudo já parecia estar danado, veio à luz à pesquisa Datafolha. Se a eleição fosse hoje, Lula, do PT, bateria o atual mandatário por 55% a 32% no segundo turno. Convenham: nem o petista mais otimista contava com essa dianteira. No primeiro turno, o ex-presidente marca 41% das intenções de voto, contra 23% desse a que os seguidores chamam "Mito". A margem de erro é dois pontos para mais ou para menos.

A única boa notícia para Bolsonaro — e, no caso, também para os demais postulantes — é que falta quase um ano e meio para a disputa. É claro que as coisas podem mudar. Mas tudo indica que é crescente o número de pessoas que começam a ligar o atual presidente à sua obra. O desempenho de Bolsonaro no primeiro turno é modestíssimo para quem mantém uma azeitada máquina de propaganda e militância virtuais, voltada para a glorificação do líder e para a desqualificação de qualquer pessoa, do mundo político ou não, que seja marcada como inimiga.

O TERCEIRO ELEMENTO
Até agora, não há sinais de um terceiro elemento óbvio. Os outros nomes apontados como possíveis candidatos aparecem muito atrás: Sergio Moro (sem partido), com 7%; Ciro Gomes (PDT), com 6%; Luciano Huck (sem partido), com 4%; João Doria (PSDB), com 3%; Luiz Henrique Mandetta (DEM), com 2%, e João Amoedo (Novo), com 2%. Nessa configuração, brancos e nulos somariam 9%, e só 3% disseram não saber -- índices que, se confirmados, seriam bastante baixos.

Sim, a eleição está distante, mas, tudo indica, haver nesse grupo mais de um candidato marcaria um compromisso antecipado com a derrota. Gostaria de ver numa próxima pesquisa do Datafolha — e de outros institutos que tenham credibilidade — simulações que testassem cada um desses nomes como a alternativa da tal terceira via: afinal, não sabemos se seus respectivos eleitores fariam um trânsito interno ou migrariam para os polos. Uma curiosidade: sem Ciro, seus 6% poderiam escolher um outro desse elenco ou migrariam para Lula? Os 7% mais conservadores que abrigam os eleitores de Doria, Mandetta e Amoedo poderiam escolher Ciro ou prefeririam Bolsonaro, dando um voto antipetista? E sem Moro? Bem, acho que os órfãos da Lava Jato abraçam a extrema direita sem piscar. Mas é um chute. Gostaria de ver isso em números.

DETERIORAÇÃO
Os índices de Bolsonaro, nessa pesquisa, apontam uma óbvia e importante deterioração. E dá até para especular que se abre a possibilidade para a terceira via. Poder-se-ia sonhar, nessa hipótese, com um segundo turno sem Bolsonaro. Como sou mais realista do que otimista, posso até torcer por isso, mas não é fácil.

Falemos antes da deterioração. Dizem que o governo é ruim ou péssimo 45% dos entrevistados, recorde numérico: um ponto a mais do que em março, quando chegou a 44%, igualando a marca de junho do ano passado, no pico da primeira onda da pandemia. Apenas 24% consideram a gestão ótima ou boa. Para se ter uma ideia, em dezembro, eram 37%. Em relação ao mês passado, houve uma queda de seis pontos. Afirmam que não votariam no presidente de jeito nenhum nada menos de 54% dos entrevistados.

Convenham: é lícito especular que Bolsonaro pode nem estar no segundo turno em 2022. Mas cumpre, então, não perder a realidade de vista. Ainda que aos trancos e barrancos e depois de tanto sofrimento, é de se supor que todos os que puderem receber a vacina estarão vacinados até a eleição. Mas qual será o comportamento da doença? Será preciso uma dose de reforço caso estejam certos os que preveem que o coronavírus veio para ficar e que serão necessárias imunizações periódicas?

A economia estará em crescimento — já está crescendo. Mas ninguém sabe estimar hoje quanto tempo vai demorar para que um alento chegue aos pobres. Observem: a primeira leva de auxílio emergencial teve um impacto significativo na popularidade do presidente. Em dezembro do ano passado, o índice de ótimo e bom estava no topo, igualando-se a agosto: 37%. A rejeição chegou ao nível mais baixo: 32%. Foi o seu melhor momento,

A volta, agora, do auxílio — depois da desastrada e desastrosa suspensão —, mas em valor e alcance muito abaixo do que se pagou no ano passado, certamente contribuiu para o aumento da rejeição entre os mais pobres. E serão apenas quatro parcelas. Mantido o teto de gastos, no entanto, Bolsonaro terá, em tese, uma folga orçamentária no ano que vem em razão da elevação da inflação neste ano. Vai fazer com ela o quê? Tenha o nome que for, sem a transferência direta de renda para os mais pobres, será difícil conquistar alguns pontos nesse eleitorado. Permanece de pé a ideia de ampliar o Bolsa Família e elevar o valor do benefício.

Se o presidente estiver vivendo o seu pior momento, não será fácil para os candidatos de perfil conservador tomar-lhe votos. Ciro resolveu bater de frente com o PT, ainda que com um discurso mais à esquerda do que os outros pré-candidatos. Até agora, as pesquisas não indicam que esteja sendo bem-sucedido.

O desempenho eleitoral daqueles que postulam hoje a vaga "nem-nem", convenham, é muito modesto. Somados, empatam tecnicamente com Bolsonaro: 24% a 23%.

A LINGUAGEM DA POLARIZAÇÃO
Era conversa mole aquela história de que Bolsonaro estaria torcendo, lá atrás, por um enfrentamento com Lula -- o que Sergio Moro impediu que acontecesse em 2018, indo servir, depois, de forma desavergonhada, ao vencedor, de olho na própria candidatura.

Mantida a polarização e considerados os primeiros passos, parece que já dá para afirmar que Lula busca expandir seus domínios para o centro e, se preciso, para a direita democrática. Se aquele grupo de candidatos pretende encarnar o "nem-nem", o petista se apresenta como a alternativa a Bolsonaro para todos os que... não querem Bolsonaro. Sem preconceitos. Aqueles mais à esquerda talvez se zanguem agora, mas antevejo um candidato que não terá receio nenhum de falar em uma espécie de frente ampla.

Bolsonaro, por enquanto, fala à sua grei. Terraplanismo, golpismo e cloroquina. Mantém um público fiel. É preciso ver se consegue, assim, vencer uma eleição. Em 2022, não será possível reeditar a suposta luta do Bem contra o Mal. Até porque esse tal "Bem" terá mais de 500 mil cadáveres nas costas.

"Ah, mas será fácil demonizar o PT; é tudo o que ele quer".

Será mesmo?

Dentre os 55% de eleitores que hoje votariam em Lula, haverá um só a ignorar que ele passou 580 dias na cadeia? Quem será escalado para a guerra? Deltan Dallagnol? Sergio Moro? A propósito: numa simulação de segundo turno com o ex-juiz, o petista ficaria com 53% dos votos contra 33%.

É claro que Moro não tem uma votação compatível com a sua obra.

Deveria ser muito menos.