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Crivella em embaixada seria do interesse de Macedo e Bolsonaro, não do país

Edir Macedo "abençoa" Bolsonaro, que, por seu turno, pretende nomear Crivella embaixador do Brasil na África do Sul, o que interessa à Universal, mas não ao Brasil - O Globo
Edir Macedo "abençoa" Bolsonaro, que, por seu turno, pretende nomear Crivella embaixador do Brasil na África do Sul, o que interessa à Universal, mas não ao Brasil Imagem: O Globo
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

08/06/2021 07h56

A esculhambação a que o governo Bolsonaro submete as instituições é inédita. A possível indicação de Marcelo Crivella para embaixador do Brasil na África do Sul atende certamente aos interesses de Jair presidente e aos da Igreja Universal do Reino de Deus. E só. O Brasil não entra na conta.

A Universal não tem apenas uma emissora de televisão e um império econômico. Também é dona de um partido: o Republicanos, a que pertence Crivella, sobrinho de Edir Macedo. O ex-prefeito do Rio elevou a ruindade da gestão da cidade a um patamar inédito. Poderia, sim, em disputas futuras, eleger-se vereador, deputado estadual ou mesmo federal. Sua incompetência à frente da Prefeitura foi tão brutal que suas chances em disputas majoritárias se reduziram a zero.

De toda sorte, isso importa menos. Onde quer que esteja, qualquer que seja o cargo, sempre estará cumprindo uma missão: é um instrumento da Universal e das empresas a ela associadas. Já é um embaixador hoje — no caso, de Macedo.

O comando brasileiro da igreja em Angola foi banido, e os 354 templos que pertencem à denominação passaram para o controle de pastores e bispos angolanos. Os homens de Macedo no país são investigados por evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Os dissidentes, que hoje formam a maioria, afirmam que parte considerável do que a IURD arrecadava no país era desviada para Europa e África do Sul. O montante anual estimado é de US$ 80 milhões — mais ou menos R$ 400 milhões.

O comando da Igreja em Angola se confundia com o da TV Record naquele país — no momento, a emissora está fechada. Os brasileiros são acusados ainda de práticas racistas e de impor a esterilização aos pastores. A IURD admite que estimula o que chama de "planejamento familiar" entre aqueles que integram seus quadros. Já houve acusação idêntica no Brasil.

A Universal diz estar presente em 134 países. Em seu site oficial, são listados 96. Quem comandou a expansão no continente africano foi justamente Crivella, que ficou baseado na África do Sul por pelo menos dez anos.

Viajava a outros países do continente para criar templos — inclusive a Angola. Segundo o site da igreja, são 24 no continente. Além dos dois citados, contam-se Burundi, Cabo Verde, Etiópia, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Reunião (departamento francês), Lesoto, Malawi, Namíbia, Moçambique, Quênia, Ruanda, São Tomé, Serra Leoa, Reino de Essuatíni (antiga Suazilândia), Tanzânia, Togo, Uganda, Zâmbia e Zimbabwe.

Esse império está ameaçado. Há o risco evidente de que a "revolta angolana" se espalhe para outros países, uma vez que a disciplina imposta aos quadros da igreja é a mesma em qualquer canto. Mais: as acusações contra o antigo comando em Angola são graves: lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Segundo as investigações, a arrecadação em moeda local era trocada por dólar no mercado paralelo e enviada para outros países — inclusive o Brasil.

A prática da Universal mundo afora é se tornar amiga dos governos — convenham: no Brasil também, como deve se lembrar o PT antes da crise que resultou no impeachment da presidente Dilma. Evasão de divisas, no entanto, praticada por estrangeiros tende a inflamar as elites locais e as oposições — nos poucos países africanos da lista em que elas podem se manifestar livremente.

A Universal, diga-se, sempre viveu às mil maravilhas com o regime autoritário de José Eduardo dos Santos, que governou Angola entre 1979 e 2017. As coisas se complicaram um tanto a partir da posse de João Lourenço. O atual presidente admite que a corrupção é um dos problemas mais graves do país, e os órgãos de investigação têm agora mais liberdade para atuar.

No ano passado, no discurso de aniversário do MPLA -- único partido com chances de vencer a eleição --, Lourenço admitiu:
"O mérito do MPLA consiste no fato de, enquanto partido governante, ter orientado o Executivo a encetar esta cruzada de luta contra a corrupção, mesmo sabendo do presumível envolvimento de militantes e dirigentes seus nos mais diferentes escalões da hierarquia partidária".

MOBILIZAÇÃO DO GOVERNO
Bolsonaro, acreditem, enviou uma carta a Lourenço intercedendo em favor da Universal, como se os problemas de Edir Macedo fossem também os do Brasil. Que fique claro: um presidente fazer gestões para beneficiar uma empresa brasileira que atue no exterior -- desde que dentro dos limites da ética, com a devida transparência -- é parte do jogo. Os governos de EUA, França e Suécia, por exemplo, fizeram lobby para nos vender seus caças.

Pergunta-se no caso: qual é o ganho efetivo que obtêm os brasileiros quando seu presidente se mobiliza em favor da igreja de Edir Macedo em Angola? A resposta óbvia é esta: nenhum! Se a pressão for bem-sucedida, os únicos a obter benefícios são o próprio Macedo e, claro!, Bolsonaro, que então conta com a simpatia do Republicanos — além, claro!, do olhar embevecido da TV Record.

DE VOLTA A CRIVELLA
A mobilização, no entanto, resultou até agora inútil. E Edir Macedo considera que tem faltado empenho do governo brasileiro na defesa de seu império na África. Então surgiu a solução imaginosa.

Por que não enviar uma cabeça coroada da igreja — sangue do sangue de Macedo — para a África do Sul como embaixador? O país é uma espécie de sede continental da Universal. É a partir dali que se gerenciam as centenas de templos no continente.

Crivella chegaria com as credenciais de chefão da Universal e de embaixador, o que certamente facilitaria o diálogo com o governo de Angola — e com os demais — sem ter de passar pelo Itamaraty e pelos corredores de Brasília. Também se pode acompanhar de perto eventuais instabilidades em outros países. Moçambique está muito longe de Angola na geografia, mas ambos estão unidos pelo idioma. Nesse outro país de língua portuguesa, contam-se mais de 200 templos. A revolta angolana não pode atravessar a fronteira.

Indicar Crivella para a embaixada do Brasil na África do Sul corresponde a usar o Estado brasileiro para atender a demandas privadas. Falta qualificação específica a esse senhor para exercer o cargo — sem contar, não custa lembrar, que é investigado no Brasil.

O ex-prefeito, se indicado, terá de ser sabatinado pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa do Senado. Ainda que venha a ser reprovado nesse colegiado, seu nome tem de ser submetido ao plenário em votação secreta. A aprovação se dá por maioria simples — vale dizer, a maioria dos votos desde que presentes ao menos 41 senadores. A aberração, como se nota, está longe de ser impossível.

A ver. Que eu me lembre, seria o primeiro brasileiro investigado por corrupção em solo nativo a ganhar o estatuto de embaixador.

Quem disse que o governo Bolsonaro não inova?