PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

500 mil mortos: Bolsonaro mira em bandido; Faria, em jornalistas e artistas

Dilma Rousseff entre Fábio Faria e Robinson Faria. Família precisou do apoio do PT para vencer disputa em 2014 no RN. Hoje, Fábio é bolsonarista radical. Na montagem, Lázaro Barbosa, alvo do comentário do presidente, e o traficante Jorge Luís dos Santos, acusado de responsável pelo roubo de sua moto em 1995. Apareceu enforcado na cadeia - Reprodução; Reprodução; João Cerqueira/JB
Dilma Rousseff entre Fábio Faria e Robinson Faria. Família precisou do apoio do PT para vencer disputa em 2014 no RN. Hoje, Fábio é bolsonarista radical. Na montagem, Lázaro Barbosa, alvo do comentário do presidente, e o traficante Jorge Luís dos Santos, acusado de responsável pelo roubo de sua moto em 1995. Apareceu enforcado na cadeia Imagem: Reprodução; Reprodução; João Cerqueira/JB
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

20/06/2021 08h55

No dia em que o país ultrapassou a marca dos 500 mil mortos — 500.868 neste sábado —, o presidente Jair Bolsonaro preferiu ignorar a tragédia. Houve por bem mandar em vídeo uma mensagem de apoio aos policiais que estão no encalço do criminoso Lázaro Barbosa, em Goiás. Afirmou:

"Aos policiais que estão na captura do marginal Lázaro, que tem levado terror ao entorno de Brasília, nós sabemos que esse bandido tem uma certa prática de andar na mata sem deixar vestígios, mas sabemos também que nossos policiais, além da coragem, são tenazes e não descansarão enquanto não cumprir essa missão".

E acrescentou:
"Tenho certeza que, brevemente, o Lázaro estará, no mínimo, atrás das grades".

Prestem atenção ao "no mínimo". O presidente já está sentindo cheiro de cadáver. Dado o comportamento do assassino, convenham, é grande a chance de ser morto. Já feriu três que tentaram capturá-lo. Lázaro cometeu crimes horripilantes. Tem de ser preso e responder por isso. Mas Bolsonaro não resiste à tentação de, digamos, não fazer prisioneiros. Nunca tivemos um presidente tão fascinado pela morte — a dos outros, bem entendido. Quando deputado, falou sobre as virtudes profiláticas do fuzilamento de pelo menos 30 mil.

No poder, convenham, sua política de Saúde e suas exortações já multiplicaram esse número por 16,666... Sempre o 666!!!

Lázaro é acusado de seis homicídios — dois na Bahia e quatro em Ceilândia. É violento e perigoso. É claro que tem de ser preso e que estamos falando do horror em estado puro quando tomamos conhecimento de detalhes horripilantes de seus atos. Mas que presidente é esse que ignora mais de 500 mil mortos e grava um vídeo para encorajar policiais a prender um bandido, por mais perigoso que seja?

É que esse é seu universo mental. Aquele meio milhão de vítimas de Covid-19 evidencia uma política pública de Saúde desastrada, um governo negacionista, um presidente que vandaliza as regras sanitárias. Teria de ser enfrentada por um estadista. Já o Lázaro encarna a figura do bandido violento, que terá — voltem às suas palavras — um fim também violento. Estamos na esfera do "quem pode mais chora menos", dos santos guerreiros contra os dragões da maldade. É nas soluções sanguinolentas que o discurso de Bolsonaro cresce. Temos o maior orador de cemitérios da história.

O ASSALTO E O ENFORCAMENTO
Não por acaso, aproveitou a tragédia que colheu uma família -- o casal e os dois filhos foram assassinados por Lázaro -- para defender o armamento da população. Na sua fala, se as vítimas estivessem armadas, e nem é certo que não tivessem arma em casa, teriam enfrentado um bandido perigoso. O provável é que, nesse caso, até as que conseguiram escapar também tivessem encontrado a morte.

Se mais de duas centenas de policiais estão sendo desafiados por Lázaro — e ele já feriu três dos que tentaram capturá-lo —; se armamento pesado, helicóptero e até drones foram inúteis até agora, que chance teria quem, não sendo bandido e não tendo destreza com armas, tentasse enfrentá-lo de revólver na mão no caso de um ataque de surpresa?

Bolsonaro, diga-se, é a maior prova de que sua tese está errada. Em 1995, dois assaltantes levaram a sua moto e a sua arma. O secretário de Segurança do Rio, então, o coronel Nilton Cerqueira (que transitou nos porões da repressão), era seu amigão. Moto e arma foram logo recuperadas. No programa Roda Viva, durante a campanha de 2018, foi instado a falar a respeito. Bolsonaro Afirmou:
"Eu fui assaltado, sim. Eu estava em uma motocicleta, fui rendido, dois caras. Um desceu e me pegou por trás, o outro pela frente. Dois dias depois, juntamente com o 9º Batalhão da Polícia Militar, nós recuperamos a arma e a motocicleta. E, por coincidência -- não é? --, o dono da favela lá de Acari, onde foi pega? Foi pego lá. Ela estava lá. Ele apareceu morto, um tempo depois, rápido. Não matei ninguém, não fui atrás de ninguém, mas aconteceu".

A morte sempre presente.

Ah, sim: ele se referia ao traficante Jorge Luís dos Santos. Foi preso em Salvador oito meses depois do roubo. Transferido para o Rio, apareceu morto na cela logo depois. A versão oficial é que ele se enforcou fazendo um nó de marinheiro com a própria camisa...

SERÁ QUE ESSE PESADELO PASSA?
Será que esse pesadelo logo passa? As ruas parecem dizer que sim. Mas elas são apenas um sinal. Ninguém parta do princípio de que a batalha é fácil. Faltam a Bolsonaro, de resto, conselheiros que lhe deem um pouco de juízo. Até aqueles que são chamados ao governo para atuar como bombeiros logo passam a falar uma linguagem incendiária, reacionária, atrasada, que investe no conflito.

Vejam o caso de Fábio Faria, ministro das Comunicações, que faz a interface do presidente com o empresariado. Alimentou-se, durante um tempo, a fantasia de que era um moderado. No dia em que todas as pessoas decentes, independentemente de ideologia, lamentaram as mortes, ele escreveu o seguinte no Twitter:
"Em breve vocês verão políticos, artistas e jornalistas 'lamentando' o número de 500 mil mortos. Nunca os verão comemorar os 86 milhões de doses aplicadas ou os 18 milhões de curados, porque o tom é sempre o do 'quanto pior, melhor'. Infelizmente, eles torcem pelo vírus."

Não pensar o que ele pensa é torcer pelo vírus. Observem que ele próprio não faz lamento nenhum. Estamos com apenas 12% de imunizados, rumo à liderança no ranking de mortos. Mas ele quer comemorar os curados. Casado com uma herdeira do SBT, que emprega artistas e jornalistas, não gosta de artistas e jornalistas. Nem de políticos. Suponho que as exceções sejam seu chefe de agora, seu pai, ele próprio e aliados de ocasião.

Em 2014, seu pai, Robinson, comia poeira na disputa pelo governo do Rio Grande do Norte. Pai e filho se colaram a Lula e a Dilma. Viraram o jogo. Pouco mais de um ano depois, Fábio já era defensor do impeachment. O beijo é a véspera do escarro. Se Lula vencer, ele se junta ou vai ser um dos líderes da extrema direita?

Tenha a decência de ao menos lamentar os mortos, ministro!

Quanto a comemorar os curados, dizer o quê? Já fiz esta conta no Twitter: na Segunda Guerra e conflitos associados, morreram entre 55 milhões e 85 milhões, a depender do critério. A verdade deve andar pelo meio. Pelo DataFaria, a gente poderia dizer: "Que bobagem! Pouca gente! Afinal, salvaram-se entre 96,6% e 97,8% da população mundial à época (estimados 2,5 bilhões)".

Entendeu, Faria, ou quer que desenhe?

Ah, é claro que entendeu. O seu mal não é a burrice. É a esperteza.

Bolsonaro ignora os mais de 500 mil mortos exaltando os policiais que estão na captura de um bandido. Se duvidar, está tentado a aparecer para posar ao lado do corpo...

Um de seus principais ministros prefere tratar como bandidos jornalistas, artistas e os políticos que não pensam como ele.

Cuidado, Bolsonaro! Se a coisa vira... Pergunte para a Dilma.