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Reinaldo Azevedo

Compra da Covaxin: tem jeito, cheiro e cara de corrupção. Será corrupção?

Gerd Altmann/ Pixabay)
Imagem: Gerd Altmann/ Pixabay)
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/06/2021 07h59

Xiii...

Até havia pouco, a CPI da Covid investigava delírios imateriais, que resultaram, no entanto, em milhares de mortos. Havia a evidência de que negacionistas, ideólogos do fim do mundo e vigaristas morais se juntaram para matar meio milhão de pessoas. Esse ambiente já tétrico começa a ser empestado pela suspeita da corrupção.

Reportagem publicada pelo Estadão traz um dado eloquente. Reproduzo um trecho:
"Documentos do Ministério das Relações Exteriores mostram que o governo comprou a vacina indiana Covaxin por um preço 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela própria fabricante. Telegrama sigiloso da embaixada brasileira em Nova Délhi de agosto do ano passado, ao qual o Estadão teve acesso, informava que o imunizante produzido pela Bharat Biotech tinha o preço estimado em 100 rúpias (US$ 1,34 a dose).
Em dezembro, outro comunicado diplomático dizia que o produto fabricado na Índia "custaria menos do que uma garrafa de água". Em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde pagou US$ 15 por unidade (R$ 80,70, na cotação da época) - a mais cara das seis vacinas compradas até agora."

(...)
Qual é o busílis? O Brasil comprou todas as vacinas diretamente com os laboratórios, sem intermediários. A exceção é a Covaxin, que tem a empresa Precisa como intermediária. Francisco Maximiano, um de seus sócios, teve os sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático quebrados pela CPI. É uma empresa com história: em agosto do ano passado, foi alvo de uma ação do Ministério Público do DF. O órgão acusa a secretaria de Saúde de tê-la beneficiado numa compra fraudulenta de testes rápidos. O favorecimento indevido teria sido de R$ 21 milhões.

Pois é, pois é... Bolsonaro bate no peito para dizer que não há corrupção na sua gestão e acusa governos estaduais de terem desviado recursos que seriam destinados à Saúde. A Precisa é sócia da Global, também investigada pela Justiça Federal do DF por ter recebido R$ 20 milhões por remédios que nunca foram entregues.

As suspeitas vão se amontoando. O contrato para a compra da Covaxin, que nem havia concluído a fase três de testes, foi fechado no dia 25 de fevereiro, antes de selar os acordos com a Pfizer e com a Janssen.

PRESSÕES
Já se sabe que o presidente fez esforços pessoais em favor da compra da vacina indiana e também de insumos para a fabricação no país de hidroxicloroquina.

Reportagem da Folha informa:
"Integrantes da cúpula da CPI da Covid pretendem convocar o tenente-coronel Alex Lial Marinho, apontado em um depoimento como um dos autores de pressão sobre um servidor do Ministério da Saúde para agilizar a liberação da Covaxin durante a gestão do ex-ministro Eduardo Pazuello (Saúde). Também já foi apresentado requerimento para a quebra de sigilo fiscal, bancário, telefônico e telemático do militar, homem de confiança de Pazuello e do ex-secretário-executivo da pasta Élcio Franco.

Reportagem da Folha revelou o teor do depoimento que um funcionário da pasta prestou ao Ministério Público Federal em que relata uma pressão atípica para a liberação da importação da Covaxin, vacina desenvolvida pela indiana Bharat Biotech e representada no Brasil pela Precisa Medicamentos. A oitiva foi enviada à CPI da Covid junto com o inquérito de qual faz parte. Na avaliação de senadores, o depoimento representa o indício mais robusto de que o governo pode ter atuado em favor de uma empresa, no caso, a Precisa. Na noite de sexta-feira (18), a reportagem questionou o centro de comunicação social do Exército sobre a citação ao tenente-coronel Marinho, mas não houve resposta.

O contrato para a compra da Covaxin foi celebrado entre o Ministério da Saúde e a Precisa no fim de fevereiro, ao custo de R$ 1,6 bilhão. Estão previstas 20 milhões de doses e, segundo as cláusulas do documento, os lotes já deveriam ter sido entregues ao Brasil."

"Essa é a terceira fase da CPI, investigar o acumpliciamento existente entre agentes privados e agentes públicos para a aquisição de vacinas e para beneficiar empresas produtoras de hidroxicloroquina.Já constatamos muita coisa: que houve omissão para imunizar os brasileiros, que houve deliberadamente a estruturação de um gabinete paralelo negacionista, só não sabíamos é que tinha corrupção na história. Agora estamos descobrindo que também houve isso", afirmou à Folha o vice-presidente da comissão, Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

PREÇO INTERNACIONAL
Vamos ver. A Covaxin está sendo aplicada em outros países -- e, por óbvio, também na Índia. Em abril, tomar uma vacina num hospital privado da Índia, que aplicava a Covaxin ou o AstraZeneca, custava 250 rupias indianas -- mais ou menos R$ 20.

O Brasil comprou 20 milhões de doses a US$ 15 — R$ 80,70 quando se fechou o acordo.

Se aconteceu o que parece ao menos ter acontecido, estamos realmente no território do inimaginável:
- sabota-se uma vacina, a Coronavac, desenvolvida com um parceiro brasileiro;
- ignoram-se as ofertas da Pfizer, quando o país poderia ter sido uma das vitrines do imunizante;
- acelera-se a compra bilionária de um imunizante que é, digamos, polêmico, empregando como intermediária -- sem qualquer processo de seleção -- uma empresa investigada no Distrito Federal, que tem como sócia outra empresa, também investigada.

É nesse país de patriotas que temos quase 503 mil mortos, abrindo a contagem para os 600 mil.