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Reinaldo Azevedo

Ao fazer de Barroso "o" alvo, o perigoso Bolsonaro prova quão perdido está

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

03/08/2021 18h12

Parece que o golpe que Jair Bolsonaro imagina, o que ele chama de "último aviso", começará por São Paulo, seja lá o que isso signifique. Falando a seus malucos às portas do Palácio da Alvorada, ameaça outra vez:
"Se o ministro [Roberto] Barroso continuar sendo insensível, como parece que está sendo insensível, pelo processo contra mim. Se o povo assim o desejar, porque eu devo lealdade ao povo. Uma concentração na (Avenida) Paulista para darmos o último recado para aqueles que ousam açoitar a democracia."

Será que Bolsonaro tem um plano? Tudo indica que ele aposta na desordem, na bagunça, na balbúrdia. Está se oferecendo para liderar o caos. A exemplo de outros dotados de aparelho mental que opera como o seu, ele não tem exatamente um depois: seu antegozo se realiza imaginando o momento do confronto, a violência sem amanhã. Depois do último recado, vem o quê?

Vejam no que resultou quase 30 anos de tolerância com seu discurso fascistoide de deputadozinho irrelevante, representante de interesses meramente corporativos, enquanto ia cultivando uma família de políticos, formando um patrimônio familiar sólido, já se sabe como, operando como um marginal da política... Quem sabe um dia as circunstâncias fizessem dele o homem errado no lugar errado. E fizeram. Chegou lá. Com todas as licenças, instrumentos e garantias que o sistema que temos garante a um presidente da República.

Temos um modelo que protege de muitas formas o chefe do Executivo, mas os crivos para que um aventureiro seja barrado no caminho ao trono se mostraram incapazes de conter alguém que, durante anos, fez a apologia do crime e da violência, protegido pelo manto da imunidade parlamentar. Na complicação mais séria que teve — tornando-se réu no Supremo numa ação penal por apologia do estupro —, o processo começou a andar a passos de cágado. Se condenado a tempo, não poderia ter se candidatado à Presidência. Ele próprio expressava claramente esse temor. Mas aí uma testemunha não apareceu, começou uma série de adiamentos. E eis o homem. A relatoria do caso no Supremo era de Luiz Fux.

No dia seguinte à abertura de um inquérito no TSE para apurar crimes que estão sendo cometidos em penca contra a eleição, por ele e por outros, e ao envio de uma queixa-crime ao Supremo, Bolsonaro volta ao ataque. A evidência de que seu esquema é apenas a bagunça, sem um amanhã definido, está na sua palavra de ordem da ora: concentra o seu ódio na figura do ministro Luiz Roberto Barroso, presidente do TSE, como se este respondesse sozinho pelo modo como se vai realizar a disputa no ano que vem.

É, em si, a expressão da fantasia de um lunático. Mas também há aí uma dose de cálculo. Fica mais fácil, para mobilizar os seus fanáticos, investir na mentira de que tudo depende da vontade de um homem. Pensem bem: qual é o poder extraordinário de Barroso para impor o voto eletrônico e barrar o voto impresso? Resposta: nenhum! Há uma PEC a respeito. A menos que haja uma grande reviravolta, o que ninguém dá como provável, o texto será rejeitado. É o único caminho possível para instituir o tal do voto impresso, de formato indefinido, ainda que aprovado fosse.

Aí cumpre perguntar: caso isso acontecesse, Bolsonaro se daria por satisfeito? Obviamente não! Outros óbices seriam levantados antes, durante e depois das eleições se os números continuarem a indicar a sua derrota. Sim, meus caros, ele aposta no caos, na anomia e na desordem porque fantasia que poderia liderar esse processo. Se acontecesse, é provável que também fosse vitimado. Quando sobrevêm o aluvião e o desastre, mesmo os que hoje lhe dão suporte entre endinheirados se retiram para o que for mais seguro. E qualquer coisa será sempre mais segura sem Bolsonaro.

Transformar Barroso em alvo fixo e único confere uma identidade à causa; mobiliza os fanáticos; mantém a turma, quase literalmente, na ponta dos cascos, mas também evidencia quão perdido está. Como se pode notar, não governa mais o Brasil. Transformou-se num homem-causa. Sua única ocupação hoje é tentar destruir a legalidade que pauta as eleições para ver se extrai do caos a continuidade do poder, mas aí com poderes especiais e com a legalidade destruída.

O solavanco já chega à economia. O dólar sobe com a instabilidade. Sente-se o cheiro da bagunça no ar. Poderia estar cercado de alguns sensatos a lhe dizer: "Opa, presidente! Por aí, não". Mas ele nunca se esforçou para se aconselhar com pessoas melhores do que ele. Vejam o caso do festejado Paulo Guedes... A sua resposta para o calote que está sendo planejado nos precatórios? "Devo, não nego; pago quando puder". Para isso temos um superministro da economia que se jacta de ser um grande pensador? O poder foi assaltado por uma soma de truculência, incompetência e vulgaridade.

Estamos no começo do 32º mês de mandato. Bastaram dois anos e oito meses de ataques cotidianos à ordem democrática para que uma conquista que completará 33 anos em 2022 — as eleições diretas para a Presidência — pareça ameaçada.

Nesse tempo, os ataques à ordem democrática foram contínuos, cotidianos, sistemáticos. E muita gente se quedou inerme. Lembrem-se de que o inquérito de ofício aberto por Dias Toffoli para apurar ataques orquestrados contra o Supremo é de março de 2019; nem se havia concluído ainda o terceiro mês de mandato. Muitos preferiram atacar o suposto autoritarismo de... Toffoli.

Os fatos falam por si.

Bolsonaro está acuado. Por isso mesmo é perigoso. Não! Ele não vai ser ditador do Brasil. O que não quer dizer que não possa provocar grandes estragos se não for contido.

Alô, deputado Arthur Lira, presidente da Câmara! Que preço paga o estrago que se anuncia, inclusive para a sua carreira política?