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Reinaldo Azevedo

Na Folha: Carta de Bolsonaro é recuo tático; afinal, a cadeia o contempla

Então... Vocês estão em busca de um ogro bonzinho, com temperamento de príncipe? Só resta Shrek - Reprodução
Então... Vocês estão em busca de um ogro bonzinho, com temperamento de príncipe? Só resta Shrek Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

10/09/2021 04h06

Leiam trechos da minha coluna na Folha:

Contive uma furtiva lágrima ao ler a carta de Jair Bolsonaro, o golpista subitamente convertido à democracia. Quer negociar com o STF o calote nos precatórios? Está com medo do impeachment? Dado o contexto, parece certo que busca também se livrar da cadeia. Quanto tempo demora para que o príncipe volte à condição de ogro? A verdade é que o governo, que nunca existiu, acabou. O que deu errado? Valeria uma enciclopédia. Mas aqui se tem espaço pouco maior do que o de uma fábula. Então vamos a ela, com direito à moral da história.

Quando Bolsonaro ofereceu ao mercado de ideias os seus 28 anos de Câmara, trazendo na bagagem a defesa de torturadores, a apologia de fuzilamentos, o elogio às milícias, a recomendação para que o pai espancasse o filho "gayzinho" e o conceito de que, na raiz do estupro, está o merecimento --uma distinção cabível só às belas--, os reacionários e iliberais das elites se encantaram. Na metafísica, estavam juntos. Mas restavam temores. "Ele está certo, mas pode assustar!" A maioria é notavelmente autoritária e iletrada, mas não gosta de jogar dinheiro fora, muito especialmente porque o Estado é grande e poderoso o bastante para prejudicar os negócios no caso de uma aposta errada.
(...)
Agora vem a cartinha do aluno aprendiz das instituições, ainda que o redator seja ignorante em gramática e meta vírgula entre o sujeito e o seu verbo. O impeachment passou a ameaçá-lo. Ele precisa do calote nos precatórios para bombar o Bolsa Família e a reeleição passou a ser a única chance de não terminar no xilindró. Além de "prisão, morte ou vitória", também havia o recuo --o tático ao menos. Em Platão, o príncipe se revela um ogro. No "Shrek", o ogro se revela um príncipe. Na vida real, as coisas são diferentes. A moral da fábula vem agora: os meios qualificam o fim. Isso explica por que deu errado. E não há carta que possa mudar o feito.

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