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Reinaldo Azevedo

Por que fazer uma devassa na Prevent Senior é uma exigência da democracia

Pedro Benedito Batista Júnior, diretor da Prevent Senior: fala mansa não esconde agressões a fundamentos da democracia - Pedro França/Agência Senado
Pedro Benedito Batista Júnior, diretor da Prevent Senior: fala mansa não esconde agressões a fundamentos da democracia Imagem: Pedro França/Agência Senado
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/09/2021 17h33

Não deixa de ser impressionante o depoimento do médico Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent Senior. Não sei qual é exatamente a natureza do seu contrato trabalhista com a empresa. Espero que seja muito bem remunerado. Merece ser bem aquinhoado até pelo, como posso dizer, "desassombro"... Diz coisas muito graves com suavidade. É uma modo de tentar ganhar a audiência e intimidar o inquiridor.

O caso da Prevent Senior remete a uma questão urgente do nosso tempo — e, na verdade, das sociedades democráticas. Há garantias das quais a democracia não pode abrir mão, sob pena de o Estado ir se assenhoreando da vida dos indivíduos. Ora, violadas essas garantias, as pessoas ficam expostas à sanha de grupos que se organizam para impor as suas vontades.

Há um livro de que as esquerdas nunca gostaram muito — na verdade, não gostam nada: "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos", de Karl Popper, editada em dois volumes. Uma das questões importantes tratada ali é o "paradoxo da tolerância", sobre o qual vocês podem se informar com mais detalhes em vários textos que circulam nas redes, alguns muito bons.

A pergunta-síntese é esta: a democracia pode ser tão tolerante a ponto de condescender com práticas que a solapem? A minha resposta está dada há muitos anos. E, claramente, é "não". A democracia não é o regime em que tudo pode. Assim é na tirania. Para o tirano e seus amigos. Volto à Prevent Senior.

Assumidamente, esse plano de saúde, por intermédio da sua rede de hospitais, a Sancta Maggiore, adotou o "kit preventivo" de combate à Covid-19, que todas as pesquisas responsáveis do mundo — sem exceção — provam ser ineficaz. Não perca o fio, leitor.

O uso do kit tornou-se uma política pública no país. Chegou a ser oficialmente adotado pelo Ministério da Saúde. Até o Exército brasileiro se meteu com a produção de hidroxicloroquina. O kit transformou-se em peça do proselitismo político do presidente Jair Bolsonaro, que teve o despropósito de levar à questão a seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU deste ano. As articulações entre essa vigarice oficial e o grupo Prevent Senior saltam aos olhos.

Ora, é claro que a relação de privacidade entre médico e paciente jamais pode ser rompida. Trata-se de um direito individual. Imaginem quanto poderia custar a venda de um dado sigiloso da saúde de um político ou de um empresário poderosos. Mas agora vamos retomar o conceito do uso das garantias democráticas contra a própria democracia.

Se essa relação de privacidade é usada para justificar o cometimento de um crime contra a saúde pública, então a questão individual terá de se subordinar necessariamente ao interesse coletivo. E esse também é um dos pressupostos da democracia.

A MORTE EM SEGREDO
Leiam a impressionante reportagem "A morte em segredo", de Ana Clara Costa, na revista Piauí. Ela teve acesso ao prontuário de internação e tratamento dispensando ao médico pediatra Anthony Wong, entusiasta e propagandista do tal kit e membro do que ficou conhecido como "gabinete paralelo" da saúde.

No dia 17 de novembro, Wong foi internado no hospital Sancta Maggiore do Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, com Covid-19. No dia 15 de janeiro de 2021, a família anunciou a sua morte.

O relato de Ana Clara, com base no prontuário de mais de 2.000 páginas, é aterrador. Faz lembrar uma casa de horrores. Reproduzo alguns trechos:
- no dia da internação, consta, ele autorizou o uso do kit Covid, de que ele mesmo era propagandista;
- "Recebeu heparina inalatória, cujo efeito em infecções virais é desconhecido, e metotrexato venoso, tradicionalmente prescrito no tratamento de doenças autoimunes e inflamatórias crônicas";
- "juntamente com essa leva de tratamentos experimentais, Wong recebeu mais de vinte sessões de ozonioterapia retal, tratamento que até mesmo o Ministério da Saúde no governo Bolsonaro desaconselha.";
- foi intubado quando dias depois, no dia 21. A médica responsável era Nise Yamaguchi;
- "No nono dia de tratamento, Wong desenvolveu uma hemorragia digestiva que, segundo o prontuário, foi revertida em menos de 24 horas, depois de ele ter recebido transfusões de sangue. Durante o restante do período de intubação, ele deixou de ser medicado com o kit Covid -- ficou apenas com a ozonioterapia e o metotrexato venoso"...

É parte do calvário. Leiam a reportagem. Foi retirado da intubação e submetido a traqueostomia. Uma pneumonia bacteriana resultou numa septicemia.

Atenção! O atestado de óbito não cita a Covid-19 nem como causa básica nem como causa secundária de sua morte.

E agora volto a Pedro Benedito Batista Júnior. Indagado sobre o caso Wong, o doutor alegou a obrigação do sigilo, que seria exigência da família, embora o prontuário tenha vindo a público e se saiba a que extremos de sofrimento foi submetido o pediatra.

Certo! Pode-se dizer que, em certa medida, Wong foi vítima de sua própria concepção de mundo, não é mesmo? Sua família, guardiã de sua memória, tem direito de tentar manter o sigilo sobre os desatinos. Mas essa decisão, dado o contexto, não pode mais ser sua.

A QUESTÃO PÚBLICA
Quantas pessoas doutor Wong influenciou com sua militância ativa? O tratamento a que foi submetido, reitere-se, tornou-se uma óbvia parceria entre o grupo Prevent Senior e o governo federal. O mesmo se diga sobre Regina Hang, cujo filho, o empresário Luciano Hang, usa a morte da mãe como uma espécie de plataforma política.

A CPI diz ter a informação de que ela foi medicada no Sancta Maggiore com o kit Covid. O empresário gravou um vídeo em que nega o uso, sugerindo que a mãe poderia ter sido salva se tivesse sido empregado. Sendo assim, pode-se estar, mais uma vez, diante de uma fraude que tem dimensão pública. Não se trata de questões individuais.

A rede de hospitais Sancta Maggiore usou o kit Covid contra tudo o que dispõem as pesquisas científicas de ponta. O presidente Jair Bolsonaro escorou-se no grupo para fazer propaganda do tratamento ineficaz. O sigilo bancário, fiscal e telefônico são garantias fundamentais, inscritos no Artigo 5º da Constituição, que é cláusula pétrea. Mas podem ser quebrados em caso de ameaça à ordem pública ou à ordem econômica.

DEVASSA SIM!
O prontuário do Dr. Wong, que veio a público -- e isso não tem retorno -- e a óbvia adoção do kit Covid pelo Sancta Maggiore impõem uma devassa técnica no plano de Saúde e na rede de hospitais. Devassa mesmo! Nos três sentidos registrados pelo dicionário Houaiss:
1 - apuração minuciosa de ato criminoso mediante pesquisa e inquirição de testemunhas;
2 - processo que registra as provas desse ato;
3 - conjunto de atos e cuidados realizados para apurar alguma coisa; sindicância, inquérito

Ademais, os eventuais segredos na relação médico-paciente não conferem a ninguém a licença para usar e abusar de feitiçarias sem nenhuma comprovação científica. Precisamos, aliás, na imprensa, tomar mais cuidado com a linguagem e parar com essa conversa de "não existe comprovação da eficácia do kit..." Existe, sim! COMPROVADAMENTE, NÃO FUNCIONA. No tratamento precoce contra Covid-19, o tal kit é tão eficaz como dar três pulinhos todos os dias.

É hora de chamar crime de crime.

Pedro Benedito Batista Júnior resolveu falar manso para ver se transforma em aceitável o inaceitável.

Não cola.