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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que a adesão aos protestos não traduzirá tamanho da repulsa a Bolsonaro

A ilustração, por óbvio, é uma metáfora. O iceberg comporta o que se vê e o que não se vê. Nas ruas, neste sábado, conheceremos a face visível da realidade. Pior para Bolsonaro - Ilustração: Goodmorning3am/Shutterstock.com
A ilustração, por óbvio, é uma metáfora. O iceberg comporta o que se vê e o que não se vê. Nas ruas, neste sábado, conheceremos a face visível da realidade. Pior para Bolsonaro Imagem: Ilustração: Goodmorning3am/Shutterstock.com
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

01/10/2021 17h41

Tenta-se para este sábado uma manifestação contra os descalabros de Jair Bolsonaro tão ampla quanto possível. Leio no UOL:
"O ato contra Jair Bolsonaro (sem partido) marcado para este sábado (2) reunirá lideranças de 21 partidos em São Paulo. A expectativa dos organizadores é de que representantes de todas as correntes políticas subam ao palanque na avenida Paulista. Os organizadores da Campanha Nacional Fora Bolsonaro dizem acreditar que será a maior manifestação contra o presidente neste ano. O protesto de caráter nacional está confirmado em 251 cidades brasileiras e em 16 países, segundo informaram fontes ligadas à organização do evento."

Que seja gigantesco. Que seja eloquente. Que seja a voz da razão — com as suas múltiplas faces — contra as insanidades a que estamos submetidos. Mas que saibamos todos, também, ler o que está em curso. E os sinais, se considerarmos que o objetivo é superar essa era trevosa, são positivos. E não se expressam apenas pela adesão a movimentos de rua.

Reitere-se: tanto melhor se a repulsa que o governo hoje desperta em amplíssimas camadas da população ganhar a sua tradução em protesto ativo. Ajuda a formar a consciência de indecisos; chama a atenção daqueles que podem estar ainda um tanto dispersos ou distraídos; envia um sinal mais claro a agentes econômicos que hesitam em fazer a coisa certa.

Destaco, no entanto, o que é um fato, não uma mera ilação. Por mais amplo que seja o ato no quesito ideológico, com a atração de forças do centro e até da direita, as pesquisas — as sérias — traduzem com mais precisão o repúdio ao atual estado de coisas.

Leiam estes dados, que extraio do relatório do Datafolha, sobre a avaliação que fazem os brasileiros do governo Bolsonaro:
"A reprovação ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) oscilou de 51% em julho para 53% em setembro, em movimento dentro da margem de erro que estabelece novo recorde na taxa de avaliação negativa do presidente. A aprovação à gestão Bolsonaro, que havia ficado estável entre maio e julho, em 24%, agora recuou para 22% (...). Essa distância entre os índices de aprovação e reprovação do governo Bolsonaro, que é de 31 pontos negativos na medida da população, vai a 40 pontos entre as mulheres (18% a 48%), a 37 pontos na fatia dos menos escolarizados (18% a 55%), a 38 pontos entre os mais escolarizados (22% a 61%), a 39 pontos na parcela dos mais pobres (17% a 56%), a 43 pontos entre assalariados sem registro (17% a 60%), a 43 pontos no segmento de desempregados (13% a 56%), a 48 pontos entre moradores do Nordeste (15% a 63%), a 42 pontos entre a população de cor preta (17% a 59%) e a 63 pontos na parcela de homossexuais e bissexuais (10% a 73%).

OS QUE NÃO VÃO A PROTESTOS
Obviamente, não estou criando uma espécie de oposição entre o movimento das ruas e a verdade da opinião pública. Estou apenas relevando que as pesquisas, as que se prezam, trazem as devidas ponderações e retratam, pois, com mais fidelidade o que realmente vai pelo país. Insista-se: a presença massiva nos protestos e a plasticidade que carregam são importantes elementos de convencimento. Mas não expressam a realidade dos fatos. Ou o Sete de Setembro estaria a nos dizer que o bolsonarismo é maior do que é.

Não tenho os dados, e seria interessante fazer um levantamento rigoroso a respeito: suponho que os mais pobres, os assalariados sem registro e os desempregados — estratos numerosos e nos quais a reprovação ao governo é gigantesca — não estarão proporcionalmente representados nos atos deste sábado.

Que se tenha claro: qualquer que seja o tamanho da manifestação, a repulsa ao bolsonarismo é muito maior. Acreditem: os que entram em caminhão de ossos à cata de alguma proteína, os 19 milhões de esfomeados e boa parte dos que recolhem gravetos para cozinhar não participam de protestos. E, felizmente, votam.

Ainda que Bolsonaro consiga dar o calote nos precatórios, minorando um tantinho a situação de quem vive na extrema pobreza, não parece que seu governo tenha resposta a dar a esses e a outros que, depois de descobrir a carne de vaca, tiveram de voltar ao pé de frango, que teve aumento de 100% em 12 meses.

Não custa lembrar, não é? Bolsonaro teve de enfiar o rabo entre as pernas depois de conseguir fazer os maiores atos de sua escalada golpista. Se as manifestações deste sábado forem gigantescas, excelente! Que se aproximem o máximo possível do fiel retrato da opinião pública, que as pesquisas sérias, como é o caso do Datafolha, revelam.

Se não acontecer o que esperam os mais otimistas, não terá grande importância: parte considerável dos que execram o governo Bolsonaro não têm hoje nem condições de comparecer a um ato de protesto.