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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaros não têm por que comemorar a reportagem da Veja sobre Alcolumbre

Os senadores Davi Alcolumbre e Flávio Bolsonaro. Convenham: o "capitão" e seus filhos não sentem nenhum conforto quando e fala em rachadinha... - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil; Adriano Machado/Reuters
Os senadores Davi Alcolumbre e Flávio Bolsonaro. Convenham: o "capitão" e seus filhos não sentem nenhum conforto quando e fala em rachadinha... Imagem: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil; Adriano Machado/Reuters
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

29/10/2021 22h30

Sempre se pode perguntar a quem interessa a reportagem da revista "Veja" que evidencia que pessoas contratadas pelo gabinete do senador Davi Alcolumbre (DEM-AP) devolviam grande parte do salário que recebiam. Sim, estamos falando da tal "rachadinha", um nome simpático que se inventou para a prática de peculato. O senador diz ser o maior interessado no esclarecimento dos fatos e aponta uma armação. Vamos ver.

Toda reportagem, mesmo quando impecável, atendo-se apenas aos fatos, interessa a alguém. Se Fulano não gosta, é bem provável que Sicrano, seu adversário, se divirta com o que vem à luz e possa até obter algum benefício. Não estou propondo que se investigue a reportagem, mas é bem provável que o primeiro a "cantar a bola" sobre o que parece ser uma prática irregular tivesse interesse em prejudicar Alcolumbre.

E, não vamos ser inocentes, aliados de Jair Bolsonaro — em particular os defensores da assunção de André Mendonça ao STF — não teriam por que reclamar da eventual desmoralização do presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), que não tem facilitado as coisas para o candidato do presidente ao Supremo.

Assim, vejam vocês, não seria eu a descartar o fato de que, na origem, pode haver uma "armação". Mas, em sentido estrito, qual é a reportagem de natureza investigativa que não conta, em algum momento, com ex-aliados que se tornam desafetos e se viram contra antigos parceiros? Ou com o a diligência de inimigos políticos, que mobilizam recursos para pôr em dificuldades seus adversários, antes de a questão chegar à imprensa? Convenham: bem poucas! Faço aqui uma ressalva importante: quando se monta em um órgão público um "bunker" de vazamento para interferir na política, como aconteceu durante a Lava Jato, aí, entendo, já se joga um jogo sem regras.

Digo isso para destacar que, até agora, a resposta de Alcolumbre é fraca. Que haja muitos com interesse de prejudicá-lo..., bem, eu diria que se pode afirmar tal coisa por definição. Ainda que fosse o mais lhano e desinteressado dos homens, isso é uma constante na política.

Noto que a reportagem não apela a nenhuma prática ilegal na origem — como eram os vazamentos da Lava Jato (sempre destacando que a imprensa não é guardiã de sigilos) —; conversa com as pessoas que seriam apenas fantasmas de gabinete destinadas a receber os recursos e exibe seus nomes, o que facilita a investigação. O senador precisará mais do que dizer que há uma conspiração.

ATUAÇÃO ELOGIÁVEL
E não é sem um certo lamento que escrevo tudo isso. Antes mesmo que Alcolumbre resistisse à detestável indicação de Mendonça ao STF, elogiei o seu desempenho político no comando da Presidência do Senado e da CCJ. Aqui e ali, tive, sim, divergências. Fui, por exemplo, um duro crítico da interferência do Planalto na sua eleição para a Presidência da Casa. Mas, nas questões substantivas, embora aliado do governo, nunca o vi rebaixar a independência do Senado e do Congresso ou subordiná-la a interesses menores da Presidência da República.

Não por acaso, ele não estava entre os "Dez Mais" do Bolsonarismo. Ao contrário: o primeiro alto golpista de rua promovido pelos bolsonaristas, em 26 de maio de 2019, já o tinha como um dos alvos. De resto, insisto: acho que ele faz muito bem em resistir à indicação de Mendonça. Tenha havido rachadinha ou não no seu gabinete, isso não torna o ex-ministro da Justiça mais apto ao cargo nem muda a sua reprovável passagem pela AGU.

Noto, no entanto, ao mesmo tempo, que o senador tem de explicar o que se deu ou de desmontar as acusações. Ou aquilo aconteceu ou não aconteceu. Não existe uma instância intermediária. Com ou sem armação na origem, trata-se de algo muito grave. Se verdade, não anula a atuação virtuosa que apontei aqui. Mas esta também não justificaria o malfeito.

AJUDA BOLSONARO?
Voltemos agora à questão que lanço logo de cara: a "rachadinha" eventualmente havida no gabinete de Alcolumbre colabora mesmo com os interesses de Bolsonaro?

Tendo tido acesso às evidências de rachadinha, a "Veja" cumpre a sua obrigação e publica a reportagem. Desde logo, uma questão se impõe à Procuradoria Geral da República — mais uma. Mas fico cá me perguntando: os bolsonaristas têm mesmo o que comemorar nas redes — "mais um inimigo abatido!" — sem que volte à memória do país a rachadinha havida no gabinete de Flávio, com confissão de Fabrício Queiroz? Este alega, claro!, que o chefe não sabia de nada e que ele próprio comandava a sem-vergonhice por motivos nobres.

Mas calma lá que a suspeita também se estende aos gabinetes do então deputado federal Jair Bolsonaro e do ainda vereador Carlos Bolsonaro. Voltemos ao ponto: uma reportagem que traz uma denúncia sempre beneficia alguém à medida que prejudica uns tantos alvos. Costumam ser litigantes em disputas políticas.

Que a reportagem seja ruim para Alcolumbre, convenham, ninguém há de negar. Que seja positiva para os Bolsonaros... Bem, há que se dizer: que se investiguem a fundo todas as rachadinhas! Para valer!!! E isso tem de incluir os respectivos gabinetes do então deputado Jair Bolsonaro e do vereador Carlos. Nota à margem: não se pode oferecer denúncia contra presidente por crime ocorrido antes do exercício do mandato. Mas a jurisprudência do Supremo é clara: INVESTIGAR PODE!

Investigue-se tudo.