PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Livro-fraude de Moro 2 - Ex-juiz puxa o saco de lobby de armas e militares

Reprodução
Imagem: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

30/11/2021 07h06

Sinto, assim, a tal vergonha alheia quando vejo setores da imprensa e do colunismo empenhados no que já virou uma espécie de cruzada. Apontei ontem aqui: não se consegue noticiar a vitória partidária de um candidato a candidato da tal "terceira via", a exemplo do que viu com João Doria, sem que pareça que se está tentando usurpar um lugar que já seria de Sérgio Moro. Há gente especializada em noticiar a sua agenda... Nunca vi nada parecido. Ou melhor: já vi. Na candidatura Collor.

Se Jair Bolsonaro, por justas razões, contava com a repulsa de boa parte das pessoas que aceitam o pacto civilizatório, com Moro é diferente. Defende coisas do arco da velha — como excludente de ilicitude —, mas continua a ser tratado como um homem de luzes.

MILITARES
No dia 19 de abril de 2020, Bolsonaro fez um discurso abertamente golpista em frente ao QG do Exército em Brasília. Seus fanáticos pediam, então, a intervenção militar e o fechamento do Congresso e do Supremo.

A um grupo de celerados, o presidente disse o seguinte:
"Eu estou aqui porque acredito em vocês. Você estão aqui porque acreditam no Brasil. Nós não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente. Todos, sem exceção, no Brasil, têm que ser patriotas, acreditar e fazer a sua parte para que nós possamos colocar o Brasil no lugar de destaque que ele merece. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder. Nós, por direito, vocês têm obrigação de lutar pelo país de vocês. Contem com o seu presidente para fazer tudo aquilo que for necessário para que nós possamos manter a nossa democracia e garantir aquilo que há de mais sagrado para nós, que é nossa liberdade. Todo político no Brasil tem que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro. Tenho certeza: todos nós juramos um dia dar a vida pela Pátria e vamos fazer o que for possível para mudar o destino do Brasil. Chega da velha política. Agora é Brasil acima de tudo e Deus acima de todos."

No livro "Contra o Sistema de Corrupção". Moro afirma ter achado impróprio que Bolsonaro tenha ido à manifestação, mas, creiam, diz não ver nada de errado no discurso. É que este patriota se ocupa em puxar o saco dos militares, de quem pretende ser o preferido da hora. Escreve: "Não deve ser ignorado ou depreciado o papel dos militares na consolidação da independência e da unidade do Brasil". Defende ainda o "reconhecimento dos méritos militares". Que homem destemido!

LOBBY DAS ARMAS
O ex-juiz, que condescendeu com sucessivos decretos de Jair Bolsonaro que contribuem para o bangue-bangue nosso de cada dia, dá piscadelas para o lobby das armas. Empresta ênfase àquele que permitiu a proprietários rurais andar armadas em suas terras. Está longe de ser o mais polêmico. Até porque a pistolagem no campo dispensa as armas regulares. O ponto não é esse.

Diz que se opôs às decisões do presidente que facilitaram o armamento generalizado. É? Nunca se ouviu de sua boca nem mesmo um muxoxo de protesto.

Na reunião de 22 de abril de 2020, cujo conteúdo acabou vindo a público, Bolsonaro afirmou:
"O que esses filha de uma égua quer, ô (Abraham) Weintraub, é a nossa liberdade. Olha, eu tô, como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil. O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoj e que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não dá pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais".

Com seis meses de governo, o presidente já havia editado sete decretos facilitando posse e porte de armas. O primeiro é de 15 de janeiro. E o que dizia seu ministro da Justiça? Nada!

Moro pediu demissão dois dias depois do vomitório que se lê acima. A saída nada teve a ver com as aberrações ditas por seu chefe. Se este não tivesse mexido em seu feudo, teria continuado no governo por mais tempo.

É bem provável que, a esta altura, já tivesse caído fora. Para se candidatar.