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Reinaldo Azevedo

Doria vitorioso, o preconceito morista e o antipetismo antibolsonarista

Na primeira fila, a partir da esquerda, Bruno Araújo, presidente do PSDB; João Doria, que venceu as prérvias, e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que perdeu a disputa interna - Reprodução
Na primeira fila, a partir da esquerda, Bruno Araújo, presidente do PSDB; João Doria, que venceu as prérvias, e Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul, que perdeu a disputa interna Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

29/11/2021 06h53

O morismo é, antes de mais nada, um preconceito. Para chegar ao ponto, começo por João Doria.

O governador de São Paulo venceu as prévias do PSDB e, em princípio, é o nome que o partido deve lançar para disputar a Presidência da República. Não é, como evidencia o noticiário em todo canto, uma vitória sem sequelas. Embora Eduardo Leite estivesse a seu lado, aplaudindo quando Bruno Araújo, presidente da sigla, anunciou o resultado, já se sabe que o governador do Rio Grande do Sul declinou do convite para coordenar a campanha. Não é segredo para ninguém que a seção mineira do partido, liderada pelo deputado Aécio Neves, é uma adversária interna de peso, sem chance de conciliação à vista.

Destaque-se: exceção feita a Lula, do PT, não há pré-candidato nenhum com uma legenda para chamar inteiramente de sua. Vejam o caso de Jair Bolsonaro: vai se filiar só amanhã ao PL. Alguns deputados migrarão para a sigla, outros cairão fora. O presidente vai interferir em alguns palanques regionais, mas já sabe que haverá traições. E assim será com qualquer um que dispute a eleição presidencial. Até Lula pode enfrentar um rebelde ou outro em legendas eventualmente aliadas. Assim, o fato de Doria não contar agora com a unanimidade interna nem chega a ser uma particularidade. A dificuldade inicial é outra.

A EXTREMA DIREITA DO B
Ainda que números de pesquisa não o autorizem -- não ainda ao menos -- e que não se veja nenhuma mobilização formidável, parte considerável do colunismo político resolveu eleger Sergio Moro como "o" nome da chamada "terceira via" no arco ideológico que vai da centro-direita para a direita. Não deixa de ser, destaco, uma impropriedade porque as postulações conhecidas de Moro e o público que ele mobiliza nas redes sociais -- afinal, ele tem vida partidária há menos de 20 dias -- são, de fato, de extrema direita.

E de extrema direita foi a sua atuação como ministro da Justiça. Se a tal "excludente de ilicitude" do seu asqueroso pacote anticrime tivesse sido aprovada, o mais recente massacre no Rio, o do Complexo do Salgueiro, nem investigado seria. Bastaria aos policiais que participaram da chacina a alegação de "escusável medo, surpresa ou violenta emoção". Que importa a crescente montanha de carne preta e morta?

Moro mal consegue esconder o que pensa, note-se. Em seu discurso durante ato de filiação ao Podemos e em artigo posterior, defendeu um tribunal de exceção para punir corruptos, e seu modelo, disse, é a Ucrânia. Ele não é um centrista ou um moderado, mas o "terceiro-viismo" anti-Bolsonaro finge que sim. Tal insistência não decorre na burrice, não!

O cálculo é outro. Aposta-se que ele é capaz de atrair parte considerável dos que votaram em Bolsonaro em 2018. Não por acaso, os mais entusiasmados com seu nome nas redes sociais são os bolsonaristas arrependidos. Vale dizer: o eleitorado que o ex-juiz mobiliza é constituído por uma fatia da extrema direita nativa. O tal colunismo "nem-nem", por sua vez, entende que só Moro tem condições de derrotar Lula. Mais uma vez, em nome do combate ao PT, escolhe a antipolítica. Não aprendeu nada com os desastres em curso do bolsonarismo. Para que fique ainda mais claro: o morismo antibolsonarista desse pedaço do colunismo é um modo de ser do antipetismo.

DE VOLTA A DORIA
"Mas você começou a falar de Doria, Reinaldo, e está escrevendo sobre Moro..."

Pois é. Estou evidenciando aqui o estado das coisas. E assim não se fez neste sábado e neste domingo? O próprio pré-candidato do PSDB, vitorioso nas prévias, viu-se compelido a acenar para Moro, uma vez que este já é tratado, ainda antes do início da corrida e sem nunca ter sido testado nas urnas, como "o favorito a ser o nome da terceira via". Favorito por quê?

As pesquisas, é fato, têm se mostrado adversas para Doria. Mas calma lá! Disputou duas eleições até agora, com 100% de aproveitamento. Ainda que se possa divergir de sua pauta à frente do governo de São Paulo, como é próprio da democracia, é fato que o Estado está entre os mais arrumados do país. E assim é num período de impressionante desarrumação da economia. Ademais, é "o homem da vacina". Sem a sua determinação para produzir a Coronavac no Butantan, enfrentando o obscurantismo e o negacionismo do presidente da República, mal se pode calcular o tamanho do desastre.

"Aonde você quer chegar, Reinaldo?"

Estou tentando entender o que, exatamente, querem esses que advogam uma "terceira via" que não tenha identificação com a esquerda. E, como é sabido, Doria não tem. Noto que estou escrevendo sobre o governador de São Paulo porque ele acaba de vencer as prévias do seu partido. Ciro Gomes, do PDT, também postula um lugar na eleição que se distancia de Lula e mais ainda de Bolsonaro, mas aí com um viés mais à esquerda. Ainda que não se possa vislumbrar, em princípio, que possam estar juntos mais adiante em razão de suas diferenças ideológicas, estamos falando de postulações que não trazem consigo o viés da antipolítica, que é, obviamente, o que confere vulto ao nome de Moro.

Posso até compreender que uma parte considerável do eleitorado acabe refém do discurso salvacionista. Mas me parece supinamente estúpido que pessoas informadas insistam numa resposta que tem produzido sortilégios no Brasil e mundo afora.

Lula, Doria, Ciro e, ora vejam, até Bolsonaro já têm uma obra como governantes e, resta evidente a todos, não pairam acima do bem e do mal. O atual presidente, agora no colo do centrão, não pode mais exercitar o discurso da depredação da política. Até ele conseguiu aprender alguma coisa. Melhor do que a pregação golpista, não é mesmo?

Li atentamente a imprensa profissional neste sábado e domingo. Doria venceu as prévias do PSDB e muito pouco se falou — na verdade, quase nada — de sua trajetória na política e de sua gestão à frente do governo de São Paulo. Deu-se grande destaque ao racha no PSDB e, claro!, ao "Sombra", ao "Salvador", ao "Mago da Terceira Via"... Moro!

É sempre perigoso e ruim quando parcelas consideráveis da população aderem ao discurso da antipolítica. Quando parte do establishment intelectual do país, de que a imprensa faz parte, cai nessa esparrela, bem, aí se pode dizer que há mesmo uma crise de valores.

Prestem atenção ao que escreve e vocaliza o "morocolunismo". Jamais se expõem as qualidades particulares que fariam dele um bom presidente da República. Estaria habilitado para o cargo apenas por ser quem é. Trata-se, rigorosamente, de um preconceito, só que exercitado pelo avesso.

Pode até ser que o ex-juiz se torne, como querem seus militantes na imprensa, "o nome" da terceira via. Tendo, no entanto, a achar que o "preconceito Moro" acaba concorrendo justamente para o contrário: cria dificuldades para que outro valor se alevante. Afinal, sabem como é, qualquer um que dispute com "Ele" a condição de uma alternativa a isso que chamam "polarização" — a expressão é burra — seria apenas um... "político".

E essa gente ainda quer um demiurgo.