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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tiranolira Rex no Fundomundistão, Sachsida sem-noção e Leviatã dos idiotas

Mary Altaffer/AP Photo/picture alliance
Imagem: Mary Altaffer/AP Photo/picture alliance
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/06/2022 06h22

O governo e seus esbirros desatinaram de vez. Só não sei se trato Arthur Lira como o governante e Bolsonaro como a escora ou o contrário. É muito impressionante o que está em curso. Deve ser divulgada amanhã uma nova pesquisa Datafolha, com dados colhidos nesta quarta e na própria quinta. Se houver algum refresco para o presidente candidato — pequeno que seja —, a histeria vai continuar porque se vai atribuir a eventual melhora a seu esforço de demonização da Petrobras. Se tudo estiver tão grave como há um mês, a histeria também vai continuar porque, a exemplo de um médico que já errou o diagnóstico — e, portanto, a droga indicada —, eles vão dobrar a dose da sandice para ver se conseguem se livrar do que os atormenta. E não vão.

Há irresponsabilidades com efeitos deletérios no curto, no médio e no longo prazos. E assim é porque o governo decidiu ter ideias para baixar o preço dos combustíveis a seis meses da eleição — e, de modo mais histérico, a pouco mais de três. Antes, o desaparecido Paulo Guedes se limitava a recitar seus mantras de liberalismo retrô. Até que a água da derrota bateu no traseiro. E se tem o mais escancarado vale-tudo.

Nesta terça, o governo decidiu que vai pagar um auxílio-caminhoneiro de R$ 400 e tornar mensal o vale-gás, que hoje é bimestral. A proposta será embutida à PEC que prevê restituição integral aos Estados que zerarem ICMS de diesel e gás, cujo teto passou a ser de 17%. Prevê-se em R$ 6 bilhões o aumento do desembolso federal, que já estava estimado em R$ 29,6 bilhões. Atenção: esses R$ 35,6 bilhões não serão considerados no cálculo do teto de gastos. Não é patético que ainda falem nesse assunto? Aí o PT diz que não pretende manter o teto, e certo "mercadismo" canalha faz bico... Fiquem, então, com o não teto de Bolsonaro, além do resto.

Isso tudo, claro!, vale até o fim deste ano. Bolsonaro avança no butim para tentar ganhar a eleição. Se acontecer, pode dar uma banana depois para o distinto público. Se perder, seu sucessor que se vire. Acrescente-se que o governo federal já abriu mão de R$ 16,8 bilhões ao zerar PIS e Cofins de gasolina e etanol. Também até o fim do ano...

Ninguém por ali se ocupa nem mesmo de disfarçar: é mesmo assalto ao cofre sem máscara.

O INCRÍVEL SACHSIDA
Nesta terça, Adolfo Sachsida, ministro das Minas e Energia, participou de audiência pública promovida por quatro comissões da Câmara. Falou sobre assuntos de sua pasta, incluindo a privatização da Eletrobras -- Guedes já anunciou que a grana arrecadada pelo governo federal vai virar fumaça de escapamento -- e foi questionado, por óbvio, sobre o preço dos combustíveis.

Prestem atenção! Falava em nome de um governo que defenestrou o terceiro presidente da Petrobras e que comete a sandice de promover uma CPI contra a empresa com a intenção de investigar, na ameaça de Arthur Lira, até os parentes dos diretores, bem... esse homem anunciou aos senhores deputados que nada há a fazer para baixar o preço dos combustíveis, que isso é mesmo decisão da empresa etc. e tal.

O que Sachsida tem a oferecer? Isto:
"Eu respeito o presidente José Mauro [Coelho], ex-presidente da Petrobras. Todo respeito a ele, ao CA [Conselho Administrativo], seus diretores. Mas, tão logo eu assumi como ministro, eu achei por bem promover uma troca na empresa porque acredito que é o momento de aumentar a competição. Não há como ajudar o consumidor brasileiro com a estrutura atual."

O javanês que ele fala trata de que assunto? Só pode estar se referindo à pretensão de privatizar a Petrobras, que foi, se bem se lembram, o que ele pomposamente chamou de seu "primeiro ato", ainda no dia da nomeação. Como é que uma eventual futura privatização poderia interferir nos preços dos combustíveis, que é a urgência da hora? De resto, o que José Mauro Coelho tinha com isso?

Mais: fica parecendo que existe alguma lei que impõe à Petrobras a tal paridade de preços com o mercado internacional. Isso é mentira. Não há lei nenhuma. Trata-se de uma decisão da direção da empresa, em cujo comando o governo tem a maioria. Se decidisse não acompanhar, isso teria um custo? Sim.

O ministro também não explicou por que esse governo ficou mais de três anos sem uma política para diesel e gás, que poderia ter sido criada ainda que a Petrobras mantivesse a tal paridade. Ela poderia ser, aliás, a fonte de recursos: só neste ano, o governo recebeu mais de R$ 32 bilhões em dividendos na condição de acionista majoritário.

Sachsida protagonizou um outro momento notável. Falando a deputados furiosos com o preço estratosférico dos combustíveis, ainda mais os governistas (não por amor ao povo, mas por medo das urnas), declarou em tom, digamos, de exaltação:
"Eu gostaria de compartilhar aqui um ranking de companhias petrolíferas pelo mundo. Nós podemos verificar que a Petrobras foi a terceira que teve o maior lucro líquido, mesmo sendo a sexta em produção, a sexta em empregados, a sétima em patrimônio líquido; ela foi a terceira em lucro e a segunda que mais distribuiu dividendos".

Os parlamentares ficaram perplexos.

Bolsonaro quer porque quer uma CPI para apontar bodes expiatórios durante a campanha eleitoral porque inconformado com o preço dos combustíveis, mas seu ministro das Minas e Energia diz aos deputados que o governo nada pode fazer, que a decisão é da empresa e que a saída é a privatização. E ainda exalta o notável desempenho da petroleira, tornada a Geni do bolsonarismo. Certamente tentava evidenciar por que é um bom ativo a ser privatizado. Vale o clichê: se trancar a portão, vira hospício; se meter uma lona, vira circo. Ninguém tem a mais remota noção do que faz ali.

A LEI DAS ESTATAIS
Quando Bolsonaro e Lira fecharam o acordo para lotear o Brasil, houve até alguns otimistas, nos bastidores, que disseram algo assim: "Olhe, é o Centrão, você sabe... Essa gente é voraz. Mas o governo é tão ruim, tão incompetente, tão destrambelhado que se pode ter até alguma funcionalidade. Essa gente gosta de poder, não de aventura".

Lira sequestrou o Orçamento, manteve unida a base governista, protegendo o presidente do impeachment, e reagiu algumas vezes, com reprimendas, ao golpismo escancarado de Bolsonaro. Nota à margem: observem que ele tem silenciado ultimamente sobre os arreganhos do golpista explícito. É preciso ver se não leva a sério ou se pretende ser sócio da aventura.

O presidente da Câmara, em companhia de Ciro Nogueira, chefe da Casa Civil, responde por boa parte do governo hoje. Bolsonaro cuida da bufonaria ideológica. O desastre da governança que temos está mesmo sob a responsabilidade de Lira. É claro que ele está insatisfeito e apreensivo.

Sua reação ao mais recente reajuste de preços da Petrobras foi tão ou mais desatinada do que a de Bolsonaro. O artigo na Folha em que anuncia a pretensão de punir até os parentes de diretores da Petrobras é obra de quem perdeu o juízo. Ficou até parecendo que o golpe já tinha sido desfechado e que era ele o executor das medidas de exceção. Aliás, deputado, se vier a quartelada, cuidado com a cabeça!

Pois bem... Lira não se ofereceu apenas para comandar a desordem fiscal na boca da urna. Além de flertar com a CPI, quer agora destruir a Lei 13.303, conhecida como Lei de Responsabilidade das Estatais, aprovada em 2016, ainda na interinidade de Michel Temer. Ela cria entraves para a partidarização das empresas públicas ou de economia mista

A exemplo de Bolsonaro, também o deputado está em pânico. A reeleição do presidente é uma precondição para que ele continue a ser o Tiranolira Rex do desgoverno. O que lhe garante poder e saliência é justamente um presidente fraco que, — prestem atenção!, se reeleito, será mais fraco ainda porque inexiste resposta minimamente articulada para o caos em curso. E isso, do seu estrito ponto de vista, pode ser ainda mais vantajoso. Se, hoje, já se coloca como o condestável da República, imaginem num eventual segundo mandato. Assim, nessa perspectiva, se o Brasil se dana, Lira se dá bem. Se Lira se dana, o Brasil se dá bem.

Já imaginaram se o homem consegue mudar a lei e se sobrevém a catástrofe da reeleição? O Centrão recoloniza as estatais e terá início o reinado de Tiranolira Rex I, o monarca absolutista do Fundomundistão.

Nessas horas, como não lembrar daquelas tolices que se diziam até outro dia? "Ah, Bolsonaro é destrambelhado, mas Guedes garantirá ao menos a racionalidade na área econômica... Pois é.

Pergunto: "Uzmercáduz", o Leviatã dos idiotas, ainda põe preço do "Risco Lula?"