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Governo Bolsonaro é o mais corrupto da nossa história, com ou sem pastores

Bolsonaro em companhia dos pastores Gilmar Santos (à esq.) e Arilton Moura, à direita na foto; entre eles, o general Luiz Eduardo Ramos, secretário-geral da Presidência - Carolina Antunes/PR
Bolsonaro em companhia dos pastores Gilmar Santos (à esq.) e Arilton Moura, à direita na foto; entre eles, o general Luiz Eduardo Ramos, secretário-geral da Presidência Imagem: Carolina Antunes/PR
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

23/06/2022 06h25

Não deixa de ser impressionante que se diga que o caso dos pastores abala um dos principais pilares do discurso bolsonarista: o combate à corrupção. Em 2018, vá lá, essa "narrativa" — recorrendo à palavra que a extrema-direita espancou até esvaziá-la — poderia fazer algum sentido. Não tendo nada a oferecer e sem programa que não fosse "desconstruir" o suposto comunismo que tomaria conta do país, Jair Bolsonaro prometeu o reino dos homens virtuosos, contra a corrupção, em parceria com a famigerada e degenerada Lava Jato. E, no entanto, temos o governo mais corrupto da história, embora isso possa não ser óbvio. Chegarei lá.

Empreguei acima a palavra "narrativa" e lembrei que a dita-cuja passou a integrar o vocabulário dos reacionários delirantes. Eles lhe emprestam um sentido muito particular: "mentira contada pelo inimigo". Sempre que confrontados com uma verdade que afronta o seu discurso e seus delírios, gritam a plenos pulmões, contra os fatos: "Isso é só uma narrativa". Como vivem numa realidade paralela, num Brasil paralelo, num universo paralelo, tomam as evidências incômodas, que desconstroem as suas fantasias e delírios, como conspiração.

Como esquecer? Esse governo ganhou o selo da corrupção antes de começar. O caso da rachadinha no gabinete de Flávio Bolsonaro, o então deputado estadual que se elegera senador, estourou no fim de 2018, antes ainda da posse de seu pai. Não se revelava ali um deslize, mas um jeito de entender o uso do dinheiro público. Com o poder que tinha até então — dois deputados federais, um deputado estadual e um vereador —, o clã fazia o que estava a seu alcance no manejo, digamos, criativo do dinheiro público. Até agora, Flávio — aquele que empregava mãe e mulher de miliciano — conseguiu se safar.

É verdade: a corrupção que se praticou no Ministério da Educação, com verbas do FNDE, é daquele tipo particularmente incômodo para os corruptos porque compreensível para as massas. Sem dúvida, são ocorrências graves. Convenham: qualquer roubalheira é repugnante, mas a que envolve dinheiro de Saúde e Educação é especialmente asquerosa. Em casos assim, faz-se uma transfusão direta de recursos da veia dos que já têm pouco para a dos pançudos.

Bolsonaro tentou, nesta quarta, jogar o ex-ministro Milton Ribeiro às cobras, fingindo não ter nada com isso. Era aquele por quem disse que poria "a cara no fogo". Não se conhece, enquanto escrevo, a fundamentação da prisão preventiva. Se não estiver dada a contemporaneidade delituosa e se não se constar que Ribeiro tentou interferir na instrução criminal ou deixar o país, é provável que lhe seja concedido um habeas corpus, com eventual imposição de medidas cautelares distintas da prisão. Mas, insisto, isso depende das razões que levaram a PF a pedir a preventiva e o juiz a concedê-la.

Cabe aqui uma consideração sobre o inferno que colheu Bolsonaro: esteja o ex-ministro preso ou solto, com medidas cautelares ou não, é claro que se trata de mais um tormento para presidente, que está colhendo, o clichê é inescapável, aquilo que plantou. Isso é verdade, note-se, até para a tragédia que atingiu Bruno Araújo Pereira e Dom Philipps. Poderiam ter sido mortos durante a gestão de um governo empenhado em proteger o meio ambiente e as terras indígenas. Ocorre que esta faz precisamente o contrário. Mesmo depois de confirmadas as mortes, com os requintes conhecidos de brutalidade, vozes oficiais tentaram culpar as vítimas. Também a crise dos combustíveis é desdobramento de escolhas feitas pela dupla Bolsonaro-Guedes. E a forma como o governo tenta equacioná-la ameaça até a governança dos Estados.

É fato: a despeito da barbárie em curso em todas as áreas, Bolsonaro tentaria — e tentará — se agarrar à fantasia de um governo sem corrupção. O caso dos pastores fanfarrões torna o discurso, falso em si, ainda menos verossímil. Mas quero voltar lá ao primeiro parágrafo.

A MAIOR DE TODAS
Ainda que fosse verdade tudo o que os adversários e inimigos dizem contra as gestões petistas; mesmo que fosse pior, corrupção como a que está em curso jamais se viu. Eu me refiro aos acordos que Bolsonaro teve de fazer para não cair, entregando ao Centrão, sem resistência -- a não ser de mentirinha --, a chave do cofre por intermédio do "Orçamento Secreto". Essa, sim, é a maior corrupção da nossa história porque, com ela, se compra a opinião de quase metade do Parlamento e se pervertem as instituições.

Mais: formada a maioria no Congresso do modo como se sabe, esta garante outras iniquidades, como o estupefaciente pacote de combustíveis, que arma uma bomba fiscal. O resultado é o cruzamento malsucedido da vaca com o jumento: o híbrido nem dá leite nem puxa carroça.

O Datafolha divulga nesta quinta sua mais recente pesquisa, com dados colhidos ontem e hoje. Terá o caso dos pastores impactados os eleitores? Acho que ainda não dá para saber. Mas parece certo que o governo poderá avaliar se a tática de demonizar a Petrobras rendeu algum dividendo eleitoral. Até agora, a maioria não se mostra disposta a dar uma segunda chance ao governo mais corrupto da nossa história.