Reinaldo Azevedo

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Opinião

'Mileinarismo' se esfarela. A carta a Lula. Ir ou não? Por ora, digo 'não!'

Bastou uma semana para uma das mais barulhentas bravatas de Javier Milei, presidente eleito da Argentina, marcar um encontro com a realidade. Neste domingo, a economista Diana Mondino, indicada por ele para o Ministério das Relações Exteriores, desembarcou em Brasília. Encontrou-se com Mauro Vieira, chanceler brasileiro, e trouxe um convite, assinado pelo dito "libertário", para que Lula compareça à posse. De todo modo, para quem dizia não querer papo com um "comunista", o descabelado tirou rapidinho o nariz de palhaço da extrema-direita. A seita "mileinarista", se me permitem o trocadilho, vai se desmoralizando com incrível rapidez.

Mondino — um pouco de memória — é aquela senhora que, dizendo-se liberal, afirmou não se importar com o casamento gay porque, comparou ela, as pessoas são livres para escolher ter piolhos — só não podem reclamar, emendou, se sofrerem rejeição social por isso. Em "Anjos Tronchos", Caetano Veloso notou que a era das redes sociais fez brotar esses seres macabros "no império e nos seus vastos quintais".

Reaça, sim, burra nem tanto. Não sei se o eleito chegará a governar um dia. Espero que não aconteça. Quem toma as decisões na composição da futura gestão é o ex-presidente Mauricio Macri, que, a seu tempo, teve um desempenho desastroso. É ele a voz das elites. Parte considerável dessa turma não queria nem Sergio Massa nem o destrambelhado. A preferida do conservadorismo que não ronca e fuça era Patrícia Bullrich, que também será ministra.

Romper com o Brasil ou com a China seria, obviamente, uma sandice. Pequim, diga-se, parabenizou o vitorioso, mas se expressou com clareza: inexistem as relações comerciais sem as diplomáticas. O fanfarrão conseguiu convencer milhões de que seu país é um avião indo para a pista de decolagem, só à espera de que parceiros incômodos saiam da frente.

DEPRESSINHA
As conversas entre Mondino e a nossa diplomacia antecediam a eleição. No dia seguinte ao resultado, começaram os preparativos para a viagem de agora, articulada pelos respectivos embaixadores, que também participaram do encontro deste domingo. Nesta segunda, ocorre em Brasília um fórum empresarial que juntará a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a União Industrial Argentina (UIA). É uma parceria que tem sido virtuosa para os dois lados.

Se vocês acessarem esta página do "Portal da Indústria", encontrarão a notícia, de 23 de janeiro deste ano, de uma declaração conjunta das duas entidades. O texto lista as prioridades:
1. Estabelecer uma estratégia comum para impulsionar o investimento produtivo com base em um crescimento econômico estável;
2. promover investimentos para estimular o fornecimento de energia, infraestrutura e conectividade entre os dois países e na região;
3. eliminar barreiras comerciais e avançar na implementação de iniciativas de convergência e cooperação regulatória;
4. aprofundamento dos compromissos de facilitação do comércio e desburocratização;
5. acelerar o processo de negociações externas, em bloco, com mercados estratégicos à indústria;
6. promover a cooperação em direção a uma economia de baixo carbono, incluindo temas como transição energética, mercado do carbono, economia circular e conservação florestal;
7. promover programas conjuntos de digitalização e Indústria 4.0.

A pauta, é desnecessário destacar, só pode avançar no ambiente do Mercosul, com o qual o milongueiro ameaçou romper. No ano passado, este país exportou para o vizinho US$ 15,3 bilhões e importou US$ 13,1 bilhões, com um saldo positivo de US$ 2,2 bilhões. A indústria automotiva é o principal item dessa relação. E atenção! Nesse particular, a, por assim dizer, desvantagem é nossa: vendemos o correspondente a US$ 1,63 bilhão e compramos US$ 2,5 bilhões — e isso quer dizer empregos industriais para eles.

A DIREITA DELES E A NOSSA
Mondino não está aqui por nossos belos olhos. Passada a eleição, cumpre, agora, tentar evitar que seja o desgovernado a governar. Embora eu não pense que ele é um Bolsonaro argentino", exceto pelo discurso antissistema, é evidente que a direita tradicional deles faz o que fez a nossa -- parcialmente malsucedida, convém notar. Explico.

O "capitão" foi visto como a única saída para vencer o petismo, ainda que dissesse asneiras em penca, certo?, assim como tresloucado, mesmo com suas sandices, se tornou o instrumento para derrotar Massa, o peronismo e o kirchnerismo. Havia por aqui a expectativa de que Paulo Guedes, o preferido do mercado financeiro e do empresariado, se encarregaria de evitar o caos na área econômica; na seara propriamente administrativa, apostou-se na, vá lá..., suposta eficiência da "tecnocracia militar".

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Bem, Guedes foi quase inteiramente servil às expectativas "duzmercáduz". Boa parte dos brasileiros pagou o pato, mas a coisa não foi para o vinagre. Macri escolheu Luis Caputo, seu homem de confiança, para tocar a economia. Dolarização? Não se fala mais nisso.

A gestão militar-tecnocrática mostrou-se um desastre para os brasucas. O "Imorrível" terceirizou parte da governança para o Centrão, e passou seus dias pregando golpe de Estado. O resto é sabido. Vamos ver o que fará o outro lá. Gente como ele surge e prospera numa sociedade em permanente estado de inflamação — lembrem-se de como se deu sua campanha. No Brasil, à diferença do que esperavam as elites moderadas, o "Imbrochável" nunca desceu do palanque. Qual será o "script" do animador de redes sociais da Casa Rosada? Há uma vantagem do outro lado da fronteira que conta a favor da prudência, mesmo com a eleição de um doidivanas: inexiste o fator militar, que teve peso importante no ataque às instituições por aqui.

BANCO CENTRAL
Dadas todas as promessas absurdas de Milei, permanece de pé apenas a mais exótica: o fim do Banco Central. Como isso é impossível, ainda que a política monetária viesse a ser gerida por um órgão chamado, sei lá, "Bife de Chorizo", é pouco provável que venha a ser motivo de embates. Para realizar seu intento, a medida tem de ser aprovada pelo Congresso. Seu partido, "A Liberdade Avança", tem apenas 7 dos 72 senadores e 37 dos 257 deputados. Sem os conservadores de Macri e um pedaço dos peronistas, não conseguirá aprovar nada.

Por ora, vai se desenhando no poder um fantoche de Macri, que é uma fina flor das "castas". E que se note: por lá, inexistem emendas de relator, emendas de bancada, emendas individuais... Também não há "Centrão". Se o sujeito for desobediente, leva um pé no traseiro. A ideia de parte considerável dos donos do poder era apear Massa e os peronistas, não entregar o poder a um celerado.

FINALMENTE, LULA
Lula foi formalmente convidado para a posse. A carta trazida por Mondino está assinada por Milei.

Ir ou não ir? Em seu lugar, minha resposta seria "não". Dado o conjunto da obra, "la invitación" virou uma cama de gato, armadilha. A campanha de Milei mentiu — com a ajuda de setores reacionários da imprensa verde-amarela — e acusou Brasília de tentar interferir no processo eleitoral. Não! Lula não "liberou" para Massa dinheiro nenhum do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF). Dos 21 votos possíveis da instituição, houve 19 em favor do empréstimo de US$ 1 bilhão à Argentina. O do Brasil foi apenas um deles. O resto é mentira sórdida. Plantada aqui e depois transportada para lá. Ademais, era grana para minorar as dificuldades daquele país junto a organismos multilaterais. Não se estava injetando um centavo na campanha. Os argentinos nem teriam sabido do ocorrido não fosse a mentira miserável divulgada por aqui.

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O desbocado atacou ainda os publicitários brasileiros que trabalharam na campanha do seu adversário. E há as inconveniências em curso com os Bolsonaros. Numa cerimônia sob os auspícios do "mileinarismo", não há como Lula não ser hostilizado. Por que se submeteria a isso? Acho, isto sim, que deveria fazer um convite para que o esquisitão visitasse a maior economia do Mercosul. Desde, é claro!, que tenha modos, comportando-se como um adulto.

ENCERRO
Mauro Vieira, o prudente chanceler do Brasil, afirmou sobre o convite:
"O que foi dito durante a campanha é uma coisa e o o que acontece durante o governo é outra. O que existe entre Brasil e Argentina é uma relação muito importante em várias áreas, como energia nuclear, ciência e tecnologia, trocas universitárias, comércio, indústria e investimentos".

É o que deve falar a diplomacia. A decisão política cabe ao presidente da República. Entendo que Milei teria de se desculpar pelas ofensas proferidas e de desconvidar Bolsonaro. Uma alternativa seria Lula, em nome da reciprocidade, marcar um encontro com a futura oposição da Argentina. Não ficaria bem, não é mesmo?

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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