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Rubens Valente

Isolado surge em aldeia e fere uma indígena a flechada, relatam zorós em MT

Indígena Zoró, em Mato Grosso, mostra flecha lançada por índio isolado na aldeia do Caneco, na Terra Indígena Zoró, em MT - Waratan Zoró
Indígena Zoró, em Mato Grosso, mostra flecha lançada por índio isolado na aldeia do Caneco, na Terra Indígena Zoró, em MT Imagem: Waratan Zoró
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

05/11/2020 15h01

Lideranças zorós da terra indígena homônima em Rondolândia (MT) relataram que uma indígena ficou ferida com uma flechada lançada por um índio que vive em isolamento voluntário e apareceu na aldeia do Caneco, na Amazônia de Mato Grosso, na noite da última segunda-feira (2). A indígena foi ferida na barriga e não corre risco de morte.

Detalhe de flecha lançada por indígena isolado na aldeia do Caneco, na Terra Indígena Zoró, município de Rondolândia (MT) - Waratan Zoró - Waratan Zoró
Detalhe de flecha lançada por indígena isolado na aldeia do Caneco, na Terra Indígena Zoró, município de Rondolândia (MT)
Imagem: Waratan Zoró

Temendo um novo conflito, as quatro famílias zorós temporariamente deixaram a aldeia. O cacique Waratan Zoró, que mora em outra aldeia na Terra Indígena Zoró, afirmou que os isolados vêm sendo pressionados por invasões e derrubadas de árvores e estão com fome. "É muito fazendeiro [invasor] lá na área deles e por isso que estão 'corridos'. Eles andam onde tem mato. Os fazendeiros tocam eles, eles correm e ficam doidos. Eles estão cercados pelos fazendeiros, não podem passar mais. É muito mato derrubado. Ele está isolado", disse Waratan.

O território é alvo de invasores que promovem queimadas, caçadas ilegais e extração de madeira.

A indigenista Neidinha Suruí, da Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé, em Rondônia, disse que "o Poder Público precisa fortalecer as frentes de proteção dos índios isolados, fazer o levantamento das áreas de ocupação desses indígenas, interditar essas áreas e fortalecer as equipes com pessoal experiente para fazer a proteção desses indígenas". "Porque, do contrário, o que a gente vai ver muito brevemente vai ser um genocídio", disse Neidinha.

Dias atrás, afirmou Waratan, sumiram bananas na roça na aldeia. Na mata perto da aldeia, os zorós encontraram sinais de que os isolados estão comendo castanha e mel. A liderança zoró acredita, pelos sinais das pegadas, que sejam pelo menos dois indígenas isolados.

"Temos medo que eles acabem tudo. Nós não sabemos falar com eles. Não sabemos dizer 'amizade', 'amigo'. A nossa língua é mondé [do tronco macro-tupi]. A língua deles é guarani. São pequenos, a pisada é pequena, de criança", disse Waratan. Para a liderança zoró, esses isolados seriam da etnia piripkura. Há dois indígenas dessa etnia conhecidos vivendo em isolamento voluntário, mas em outra terra, com restrição de uso, a cerca de 100 km em linha reta ao norte da aldeia do Caneco.

Há cerca dez anos os indígenas zorós haviam relatado à Funai (Fundação Nacional do Índio) pistas sobre a presença de isolados na região, principalmente a partir de rastros e barulhos na mata, mas não houve uma confirmação oficial sobre a existência do grupo. Waratan disse que, ao longo dos anos, outras flechas foram encontradas nas imediações da aldeia. Agora foi a primeira vez de um contato tão próximo e o primeiro relato sobre um ataque.

Segundo Waratan, a indígena ferida, da etnia gavião casada com um zoró, foi atendida por enfermeiros da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) e não corre risco de morte. A flecha teria entrado cerca de um centímetro na barriga, perto do rim esquerdo. De acordo com Waratan, o índio lançou a flecha com a mão, não tinha um arco. A flecha é feita de taquara. Para dar estabilidade à flecha, os índios usaram penas de rabo de mutum, uma ave da região. Segundo Waratan, não é uma flecha feita por zorós.

Indígenas na aldeia do Caneco, na Terra Indígena Zoró, MT, reencenam em vídeo como teria sido o ataque de um índio isolado na segunda-feira, 02.11.2020 - Waratan Zoró - Waratan Zoró
Indígenas na aldeia do Caneco, na Terra Indígena Zoró, MT, reencenam em vídeo como teria sido o ataque de um índio isolado na segunda-feira, 02.11.2020
Imagem: Waratan Zoró

Os zorós disseram não ter entendido o motivo da agressão. A mulher gavião tinha acabado de sair de sua casa para pegar algo no quintal quando foi atingida. Não chegou a ver o índio, que em seguida correu para mata. "Ela perdeu muito sangue, desmaiou, caiu no chão. Agora já está bem", disse Waratan.

O líder zoró disse que os indígenas da aldeia do Caneco informaram que há meses já haviam notado a presença de isolados nas redondezas porque eles jogaram pedras nas casas da aldeia. Também fizeram barulhos e chegaram a pegar bananas e outros produtos que os zorós cultivam na aldeia.

Waratan disse que os zorós temem pelo destino dos isolados e acham que eles podem ser atacados "ou morrer de fome".

Em 9 de setembro, um dos principais indigenistas em atividade no país, com cerca de 30 anos de experiência na Funai (Fundação Nacional do Índio), Rieli Franciscato, de 56 anos, foi morto com uma flechada no peito ao se aproximar de um grupo de indígenas isolados no município de Seringueiras (RO). Ele tentava evitar um atrito entre os isolados e a população não indígena que presenciou o aparecimento repentino dos indígenas em um sítio na zona rural do município.

Procurada pela coluna no começo da tarde desta quinta-feira (5), a Funai (Fundação Nacional do Índio) não havia se manifestado até o fechamento deste texto.