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Rubens Valente

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro confere suas chances de arruinar a democracia

Faixas estendidas por bolsonaristas na frente do Congresso pedem dissolução de instituições - Rubens Valente / UOL
Faixas estendidas por bolsonaristas na frente do Congresso pedem dissolução de instituições Imagem: Rubens Valente / UOL
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

10/09/2021 04h00

Eram muitos - parei de contar e fotografar quando cheguei ao vigésimo - os cartazes e as faixas espalhados na Esplanada dos Ministérios neste Sete de Setembro para pedir que o presidente Jair Bolsonaro desse um golpe militar, que os bolsonaristas chamam falsamente de "intervenção", ou fechasse instituições como o STF (Supremo Tribunal Federal).

Um grupo de bolsonaristas queria chegar ao prédio do STF. A coragem, porém, acabou no primeiro bloqueio sério feito pela Polícia Militar na principal via de acesso ao tribunal. Os manifestantes recuaram ao primeiro spray de pimenta e o prédio envidraçado no canto direito da Praça dos Três Poderes pôde dormir em paz, pelo menos por enquanto. Depois tentaram outras vezes, com menos intensidade, todas sem sucesso.

O script de Bolsonaro - que ele prontamente nega, agora inclusive em nota redigida em conjunto com o ex-presidente Michel Temer - já é bastante evidente: ele insufla seus seguidores para que promovam um ataque direto às instituições, em especial o STF, o que lhe daria uma desculpa para colocar na rua as Forças Armadas, sob a falsa alegação de garantir a lei e a ordem. É o que ele chama de "cumprir a Constituição", ou seja, colocar em prática a interpretação errada e facciosa do artigo 142 da Carta.

Se tivesse condições políticas, Bolsonaro rumaria para isso. Nesse sentido, seu plano naufragou neste Sete de Setembro. Os manifestantes não atacaram fisicamente nenhum prédio e nenhuma autoridade em Brasília - pelo menos até à noite desta quinta-feira (9), após três dias de ocupação irregular bolsonarista da Esplanada.

Não quer dizer que Bolsonaro não consiga atingir o seu objetivo até as eleições do ano que vem, mas o seu último movimento em Brasília foi uma derrota. Sem caos nas ruas, sem argumento para chamar os militares. Ele é impedido, nos seus delírios, pela força da realidade.

Um segundo campo de atrito permanece em dúvida, os bloqueios realizados por caminhoneiros em alguns pontos de rodovias no país. Se esse movimento crescer, é claro que Bolsonaro embarcará na onda, embora negue em público qualquer apoio. Porém, tudo indicava até a noite desta quinta-feira que a radicalização dos caminhoneiros e empresas do agronegócio enfrenta dificuldades de adesão. Um dos motivos é a pauta absolutamente estranha aos caminhoneiros brasileiros, a afronta ao STF.

Na terça-feira (7), em Brasília, a absoluta maioria dos bolsonaristas não quis entrar para valer em uma aventura cujo resultado ninguém é capaz de prever. Pelo jeito não estavam dispostos a ser processados e quem sabe presos, para não dizer coisa pior, em nome do seu "mito". Processos judiciais podem levar ao bloqueio de bens e dinheiro, muito dinheiro (gente do agronegócio apareceu em peso em Brasília, e de dinheiro o agronegócio entende). A reticência dessa massa enfraquece o discurso inflamatório do seu líder.

O problema é que, por outro lado, Bolsonaro novamente ganhou. Ganhou porque mobilizou e sugou energias e preocupações de milhões de brasileiros democratas, porque deu mais um passo na escalada autoritária, porque demonstrou mais uma vez que é capaz de afrontar as instituições e as leis à luz do dia, sem qualquer vergonha - disse que não cumprirá mais ordens de um ministro do STF. É tudo cansativo, estressante e grave, ainda mais no meio do luto nacional de mais de 585 mil mortos pela pandemia.

Bolsonarista estacionou camionete no gramado em frente ao Congresso Nacional durante protesto no Sete de Setembro - Rubens Valente / UOL - Rubens Valente / UOL
Bolsonarista estacionou camionete no gramado em frente ao Congresso Nacional com pedido de golpe militar durante protesto no Sete de Setembro
Imagem: Rubens Valente / UOL

Bolsonaro conseguiu impor à sociedade brasileira o desgaste de mais um teste para a sua democracia. Bolsonaro coage, constrange e provoca, a fim de cansar o oponente.

Uma derrocada do regime democrático ajudaria Bolsonaro de diferentes maneiras. Primeiro, tiraria do foco ou mesmo paralisaria as investigações judiciais e policiais contra seus filhos e contra ele próprio pelo seu papel no alastramento da pandemia, hoje amplamente documentado pela CPI da Covid, no Senado. De quebra, deveria "melar" as eleições de 2022, providência para ele importante, já que suas chances estão minguando.

O Sete de Setembro não foi o dia dos sonhos de Bolsonaro, mas também não foi o fim. Nesse ritmo de perde e ganha, ele vai corroendo a institucionalidade.

Muitas pessoas de boa-fé dizem que Bolsonaro não tem motivos para dar o golpe porque já está no poder. Porém, dizem outras, o golpe seria exatamente para não sair do poder. Ele e os militares que o apoiam, alguns ganhando salários muitíssimo altos. Se a eleição for perdida em 2022, todas essas pessoas têm data para esvaziar suas gavetas e reduzir seus contracheques.

Manifestantes bolsonaristas estendem faixa na Esplanada para pedir "intervenção federal"  - Rubens Valente / UOL - Rubens Valente / UOL
Manifestantes bolsonaristas estendem faixa na Esplanada para pedir "intervenção federal", eufemismo para golpe militar
Imagem: Rubens Valente / UOL

Às pessoas que acreditam que a cartinha de Bolsonaro-Temer divulgada ontem fez de fato algum estrago nas hostes bolsonaristas, recomenda-se uma segunda olhada. A marca desse grupo político é o apoio muitas vezes completamente cego ao seu líder. Na noite de ontem (9), por exemplo, encontrei na frente do Congresso um bolsonarista que disse ser agricultor em Mato Grosso. Estava desde o dia 6 hospedado num hotel para participar do protesto em Brasília. Duas horas depois da divulgação, ele ainda não sabia da nota de Bolsonaro. Eu a abri no telefone e li. Deu-se o diálogo:

-O que o sr. achou, ele recuou, não?

-O Bolsonaro é muito inteligente. Ele fez isso aí para tapear esse pessoal, é só para dizer que está tudo bem. Não tem nada [na nota]. Na hora certa ele vai agir.

-E quando seria?

-Quando os caminhoneiros pararem esse país. Eles vão parar tudo.

-Mas quando isso vai acontecer?

-Agora, agora, eles vão parar tudo.

-O que vocês querem com esse protesto?

-Trocar todo o Congresso Nacional, todo mundo embora, limpar.

-Todo mundo, os 500 deputados? Mas nesse caso iria embora também o pessoal que apoia o Bolsonaro?

-O Congresso, não [se corrige]. O tribunal! Os onze, os dez do tribunal. Todo mundo embora.

Bolsonaro sabe que a sua base eleitoral raciocina por caminhos que desafiam a lógica e o bom senso. A poucos metros da minha conversa com o agricultor, três senhoras com camisetas amarelas rezavam o Pai Nosso segurando terços e uma imagem de Nossa Senhora. Elas disseram que estavam rezando "para salvar o Brasil".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL