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Bolsonaro ofendeu famílias das vítimas, diz presidente do DEM, ACM Neto

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

29/03/2020 04h00

O prefeito de Salvador, ACM Neto, é também presidente nacional do DEM. Seu partido é o que mais cedeu ministros para a enxuta equipe de primeiro escalão do governo Bolsonaro.

São do DEM os chefes de algumas das pastas mais importantes do governo: os ministros Luiz Henrique Mandetta (Saúde), Tereza Cristina (Agricultura) e Onyx Lorenzoni (Cidadania e ex-chefe da Casa Civil).

Mas isso não livra Bolsonaro de críticas. Em entrevista ao blog, o prefeito ACM Neto afirma que as declarações do presidente, no pronunciamento de terça-feira (24), foram "ofensivas às famílias que já tiveram vítimas do coronavírus, vítimas fatais".

ACM Neto foi um dos primeiros prefeitos a determinar medidas de distanciamento social devido à pandemia do coronavírus. Ele diz que não atenderá ao pedido do presidente da República para que os gestores estaduais e municipais suspendam as medidas de isolamento.

A entrevista foi concedida por Skype. Nela, o prefeito diz ainda lamentar a política de enfrentamento adotada por Bolsonaro. Segundo ele, o Brasil precisava de "outra coisa, um presidente que unisse o país, que construísse pontes, que fizesse um canal direto de comunicação com governadores e prefeitos".

ACM Neto não poupa nem mesmo o ministro da Economia, Paulo Guedes. Defende uma mudança de rota na política econômica para enfrentar a pandemia. Reclama de que "estados e municípios até agora não tiveram nenhuma ajuda concreta" do governo federal.

"Nós não temos hoje dois caminhos a seguir, só tem um caminho: injetar dinheiro na economia. É dar apoio ao mais pobre, à pessoa para não morrer de fome", proclama.

Mas o dirigente demista não poupa elogios a seu correligionário Luiz Henrique Mandetta. Para ciúme dos demais integrantes do governo, e até do presidente da República, ele afirma que o ministro é, hoje, "a peça mais importante do governo federal".

Eis os principais pontos da entrevista:

Prefeito, como está a situação aí em Salvador?

Até agora, em Salvador, o coronavírus está com um comportamento abaixo da expectativa, apesar de ser um problema sério. Eu diria com quase metade dos casos que se previa que tivéssemos nesse momento, porque tomamos, no momento certo, as medidas de precaução e prevenção. Eu fui um dos primeiros prefeitos do Brasil a anunciar medidas de isolamento social e restrição da mobilidade das pessoas. Eu acho que essas medidas estão dando muito resultado. Aqui em Salvador estão suspensas as aulas em toda a rede pública de ensino, assim como também na rede particular. Suspenso o funcionamento de shoppings e de bares e restaurantes, exceto para entregas a domicílio e venda de quentinhas. As praias foram interditadas no final de semana passada e nós vimos uma cena inusitada em Salvador: a primeira vez que as praias estavam sem qualquer pessoa. Eu tenho falado muito com as pessoas, mostrando que cada um tem que fazer a sua parte. Acho que manter nesse momento a prioridade total na preservação da vida das pessoas é um dever de todos nós, governantes. E eu quero dizer a você que esse nosso foco, aqui na prefeitura, é também uma posição comum do governo do Estado.

O presidente Jair Bolsonaro pediu na terça feira, em pronunciamento de rádio e TV e nas redes sociais, que os governantes de estados e municípios parassem com essas medidas de isolamento social. O senhor vai obedecer?

Com todo o respeito que eu tenho à instituição Presidência da República, e até a boa relação pessoal que sempre mantive com o presidente, nós não vamos aceitar essa sugestão. Eu lamento o pronunciamento que ele fez. Na minha opinião, desde o início desse processo o presidente Jair Bolsonaro vem subestimando a seriedade do coronavírus. No meu caso, por exemplo, eu não tenho nenhum enfrentamento político com ele. Todos sabem que, além de prefeito da cidade de Salvador, sou o presidente nacional do Democratas, o partido que deu todo o suporte para o avanço da agenda de reformas do governo do presidente Jair Bolsonaro. Mas nós não temos como aceitar essa posição do presidente. Eu venho dizendo, desde o princípio, que se todo o nosso esforço tiver como resultado salvar uma vida, já terá valido a pena. Imagine milhares e milhares de vidas. O Brasil pode ver o que está acontecendo em outros países. A gente não pode permitir que aqui se repita o que ocorreu na Itália, por exemplo. Porque a rede pública de saúde do Brasil, mesmo somada à rede privada, não tem capacidade de dar assistência à quantidade de casos que teria sem a prevenção. E aí, eu, como prefeito, vou escolher quem vive e quem morre? Ou vou permitir que os médicos da minha rede hospitalar escolham? Não. Se eu puder preservar as vidas, eu vou até o fim desse processo.

Claro que me preocupo com a atividade econômica. Claro que reconheço que, como consequência dessas medidas de isolamento, há um impacto econômico. É bom dizer: impacto na economia do cidadão e, também, na arrecadação de prefeituras e governos por todo o país. Nesse elo, a ponta mais forte é o governo federal. Nós da Prefeitura não temos como contrair dívidas. Nós não temos como emitir títulos, não temos como mudar a meta de superávit. Então nós temos muito menos capacidade de enfrentar a crise diante da queda de arrecadação -inevitável- que vai acontecer. Agora, neste momento, a solidariedade é fundamental. Acho, inclusive, que as declarações do presidente, de certa forma, são ofensivas às famílias que já tiveram vítimas do coronavírus, vítimas fatais. São ofensivas às pessoas que estão se cuidando, se tratando nesse momento, inclusive muitas delas internadas em leitos de UTIs de todo o país, e a toda a população que está com medo.

"Lamento que o presidente parta para o enfrentamento"


O senhor esperava essa atitude dele? Esperava que o governo dele fosse assim, um governo de enfrentamento?

A gente sabe qual é o estilo do presidente Bolsonaro. Ele se elegeu com esse estilo e levou a esse estilo para a Presidência da República. Não é exatamente o meu, mas cada um tem que respeitar o direito do outro de ter a sua própria condução política. No entanto, num momento como esse não é hora de fazer política. Veja o meu exemplo aqui. Eu sou um prefeito do Democratas. O meu adversário político na Bahia é o PT. O governador do estado da Bahia é do PT. Nessa crise, nós estamos trabalhando juntos. Desde o primeiro dia temos: Secretaria Municipal de Saúde com a Secretaria Estadual de Saúde; prefeito conversando com o governador. Eu tenho inaugurado obras ao lado do governador na área de saúde, para o enfrentamento do coronavírus. Então, o momento agora não é de fazer política. Eu lamento que o presidente parta para o enfrentamento, porque agora a gente precisava de outra coisa, um presidente que unisse o país que construísse pontes que fizesse um canal direto de comunicação com governadores e prefeitos. É claro que governadores e prefeitos também não podem querer tirar proveito político desse momento.

Então eu acho que ainda há espaço para o presidente fazer uma reflexão sobre os erros que cometeu até aqui e ver que existem pessoas, como é o meu caso, que querem ajudar o governo federal a enfrentar e superar a crise. O ministro Mandetta até então vem tendo uma postura exemplar, que merece o aplauso e o apoio de todos nós. De certa forma, o governo federal se faz presente pela atuação do ministro Mandetta. E o que eu espero do presidente é que, nesse momento, ele possa diminuir o tom do enfrentamento, entender que existem vidas em jogo e que não é hora de fazer política,

"Hoje a peça mais importante do governo federal é o ministro Mandetta."


Com todo o respeito que eu tenho pelos demais ministros, mas hoje a peça mais importante do governo federal é o ministro Mandetta. Ele conseguiu construir uma ponte de diálogo direta com o cidadão. Ele é quem chega na casa das pessoas todos os dias, com ponderações equilibradas, com mensagens acauteladas, mostrando o tamanho do problema que nós estamos vivendo. Nós não temos nenhum reparo a fazer à posição do ministro. Pelo contrário, temos é que respaldá-lo nas suas decisões e torcer para que ele continue firme, conduzindo esse processo, que não é fácil, com serenidade. E quem ouve o ministro Mandeta sabe que ele agiu com muita serenidade, tomando as decisões certas na hora certa.

"Estados e municípios até agora não tiveram nenhuma ajuda concreta"

Diante da crise, algumas medidas foram anunciadas, mas ainda não foram implementadas. E as pessoas que precisam de ajuda não podem esperar. O foco tem que ser com a pessoa que está passando fome na rua, o vendedor de picolé, o feirante, essa pessoa que vai deixar de ter qualquer renda. O governo federal já tinha que ter feito o dinheiro chegar no bolso dessas pessoas. Eu, por exemplo, vou anunciar amanhã [entrevista ocorreu na quinta-feira, 26] em Salvador, um programa de R$ 100 milhões de apoio nesses próximos três meses. A essas pessoas que não têm nenhum tipo de renda, que não têm onde cair morto, eu acho que o governo federal está demorando. E os estados e municípios até agora não tiveram nenhuma ajuda concreta.

Então, nesse caso, eu penso que a política econômica que vinha sendo implementada e com a qual eu tinha absoluta concordância - política do equilíbrio fiscal, do ajuste das contas públicas, que eu fiz em Salvador e não abri mão - agora não tem jeito... Nós não temos hoje dois caminhos a seguir, só tem um caminho: injetar dinheiro na economia. É dar apoio ao mais pobre, à pessoa para não morrer de fome e, do outro lado, analisar cada medida nos principais setores produtivos afetados pelo coronavírus. E ver de que forma eles vão poder ser impulsionados. E eu repito: a ponta mais forte de todo esse elo é a União, não os estados e municípios. Principalmente os municípios, somos a ponta mais fraca e o governo precisa dar respostas mais rápidas. Precisa que faça com que o dinheiro chegue na ponta o quanto antes.

"Sou contra o adiamento das eleições"

O senhor é a favor do adiamento das eleições de outubro?


Eu sou contra. Acho que o momento não é também para esse tipo de decisão. Não há por que a gente alimentar o debate agora. Eu estou fazendo a minha parte como prefeito, cuidando de Salvador nessa crise, para que a gente possa chegar no momento que o calendário eleitoral tiver que ser executado. O primeiro passo são as convenções partidárias, que só acontecerão no final de julho, vão até o início de agosto. Depois, a campanha vai até o final de setembro, para que no dia quatro de outubro nós tenhamos a eleição no país. Eu espero que ela possa acontecer. Que ela seja mantida, que não tenha que se alterar esse calendário. A alteração só se justificaria se nós chegássemos no período das convenções, portanto a partir do dia vinte de julho, sem condições de fazer política no país. Aí, caso isso aconteça, paciência. Porque se a gente não tiver vencido o coronavírus até lá, o eleitor, o cidadão não vai aceitar que se faça eleição. Mas, agora, eu acho que a gente tem que somar forças para vencer o coronavírus e não tem que alterar o calendário eleitoral.