Homossexuais relatam agressões e preconceitos e dizem: "não esqueceremos"

Amanda Perobelli

Colaboração para o UOL, em São Paulo

  • Amanda Perobelli/UOL

    Manifestantes participam de ato '49 de Orlando, não esqueceremos!' no vão livre do Masp, na avenida Paulista

    Manifestantes participam de ato '49 de Orlando, não esqueceremos!' no vão livre do Masp, na avenida Paulista

Na noite do último sábado (12), Omar Mateen entrou na boate Pulse, em Orlando, e, armado com uma pistola semiautomática e um rifle de assalto, matou 49 pessoas, feriu pelo menos 53 e foi baleado e morto depois que 11 policiais entraram no local. As investigações apontam que o ataque foi motivado por homofobia. O massacre é o maior atentado com armas já realizado nos Estados Unidos e chocou o mundo.

Na quarta-feira (15), a comunidade LGBT de São Paulo ocupou o Vão Livre do Masp (Museu de Arte de São Paulo) para protestar contra o massacre e também contra as violências diárias sofridas por homossexuais. Em 2015, a cada sete dias, a Polícia Civil registrou ao menos uma ocorrência de violência física ou verbal contra homossexuais na capital paulista, segundo dados da Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância.

A reportagem do UOL esteve no protesto e conversou com os manifestantes, que relataram episódios pessoais de discriminação e violência. O garçom Kleber Marques, por exemplo, contou sobre a vez em que foi agredido física e verbalmente por um vizinho de república: "Em uma manhã, um homem que morava em outro quarto sozinho começou uma discussão com a gente por motivo banal e xingou a gente de várias coisas, como "bichinha". Foi pra cima do Pedro, meu namorado, e agrediu ele com socos", lembrou.

Muitas vezes os ataques homofóbicos ocorrem inclusive dentro de casa, por familiares, como contou Fiamma Bezerra sobre uma discussão que teve com o padrasto. "Ele me xingou e disse que eu não podia dar palpite porque eu não era uma pessoa certa só pelo fato de ser lésbica."

Veja abaixo esses e outros relatos:

Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Fabiana Borges, 39, servidora pública

"Eu trabalhava na central de um banco, e eu tenho filho. No Dia das Mães saiu no jornal do lugar onde eu trabalhava que todas as mães tinham sido homenageadas e presenteadas pelo banco. Eu fui perguntar para o gerente porque eu, que sou mãe, não tinha sido. Ele disse que eu não tinha cara, nem perfil e nem nada de mãe. E eles sabiam que eu tinha filho. Ouvi muito xingamento também. Tiveram várias outras situações. Uma vez eu estava com uma menina também lésbica em uma festa, e dois caras empurraram nós para dentro do banheiro e um deles abriu a calça. Foi uma situação de ameaça de estupro que a gente felizmente conseguiu se desvencilhar. Os homens tratam a gente como fetiche."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Everton Santana, 27, designer gráfico

"Na época que eu me assumi, eu tinha uma melhor amiga. Era a pessoa que eu mais valorizava depois da minha família. Quando eu contei para ela, ela achou incrível e disse que sempre quis ter um amigo gay. Foi aquela coisa de tratar o amigo gay como um pet, um animal de estimação. Na primeira vez que a gente se viu depois de me assumir, eu contei que tinha ficado com um menino e que tinha sido legal. Ela disse pra mim: "eu acho muito legal você ser gay, mas não faz nada na minha frente porque eu vou ter nojo de ver dois homens se beijarem". Acho que até hoje, mesmo depois de tanto tempo, ainda foi o que mais me marcou porque era uma pessoa que eu tinha muito carinho, ela era super esclarecida e a gente estava junto sempre."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Fiamma Bezerra, 23, autônoma

"Eu já sofri e ainda sofro homofobia entre meus familiares. Uma vez eu tive que me meter em uma briga da minha mãe com meu padrasto. Ele me xingou e disse que eu não podia dar palpite porque eu não 'era uma pessoa certa' só pelo fato de ser lésbica. Isso marcou bastante a minha vida."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Mariana Vayanos, 19, agente de atendimento

"Eu estava em um parque de diversões e estava ficando com a minha namorada. Uma senhora gritou com a gente. Falou que éramos uma vergonha para nossos pais, que isso não era de Deus, que não íamos para o céu e que iríamos para o inferno. Foi muito desconfortável, as pessoas viam e não faziam nada. Isso aconteceu várias vezes, a gente andando juntas e as pessoas olharem, fazerem comentários. Antes disso, às vezes quando a gente dava um 'selinho' juntava um grupo de meninos em volta, sempre olhando, gente querendo tirar foto."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Ingrid Marchiori, 22, publicitária

"Uma vez, eu sofri preconceito em um bar. Eu estava sentada à mesa e cumprimentei a menina com quem eu estava saindo com um 'selinho', um beijo simples. Isso foi difícil para as pessoas ao redor, nos repreenderam, o garçom inclusive. A gente não sabia o que dizer e achamos melhor nos retirar. Nesse momento em que vivemos repressão mundial, onde muitas pessoas não entendem porque estamos aqui hoje, eu gostaria de convidar os pais dos homossexuais para lutarem junto. Porque parece que essa luta é só nossa, mas na verdade é de todo mundo que nos ama. Seria muito importante para mim que a minha mãe estivesse aqui hoje, meu pai também. Eu ainda não conquistei isso mas espero que um dia eu consiga."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Luiz Tombini, 21, estudante

"Um pouco antes de eu sair do 3º ano do ensino médio, quando eu tinha 17 anos mais ou menos, eu tinha uns trejeitos que já demonstravam que eu era gay e também estava no momento de me assumir abertamente. Antes disso eu já sofria bastante, mas depois que eu me assumi eu comecei a sofrer muito mais com a homofobia. Um dia, eu vi dentro da escola meu nome completo pichado na porta do banheiro com palavrões como "viadinho" e ameaças de morte, essas coisas que LGBT sofrem todos os dias. É constante, eu sofro várias ameaças."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Alan Antunes, 26, psicólogo

"Acho que os casos de homofobia mais emblemáticos são os que acontecem durante a infância, porque a gente leva pra vida toda. Quando eu era criança, durante uma discussão dos meus pais eu tentei apartar e meu pai disse pra mim que preferia ter um filho ladrão, um filho morto, do que um filho 'viado'. Eu ainda não tinha ideia que era gay, mas eu ouvia comentários dos familiares dizendo que eu era esquisito e que tinha algo errado comigo."
Amanda Perobelli/Colaboração para o UOL
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Kleber Marques, 21, garçom

"Eu e meu namorado morávamos em uma república no centro. Em uma manhã, um homem que morava em outro quarto sozinho começou uma discussão com a gente por motivo banal e xingou a gente de várias coisas, como "bichinha". Foi pra cima do Pedro, meu namorado, e agrediu ele com socos. Quando eu tentei tirar ele de cima do Pedro, também fui agredido. A polícia veio. Mesmo com nós dois sangrando, disseram que não podiam fazer nada, para resolvermos com a responsável pelo prédio. Depois disso, ele ainda nos ameaçava todos os dias."

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