Classificados como brancos, albinos podem ficar fora de programas sociais para negros

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

Dos nove albinos da comunidade Filus, em Santana do Mundaú (AL), seis são crianças. Para ir à escola, elas têm até agora como única defesa do sol o boné - a comunidade não tem recursos para bancar o protetor solar.
  • Diego Barros/Divulgação Iteral

    Cleone Severino da Silva, que não é albina, com sua filha Taís, de apenas 5 meses, a mais nova entre os albinos de Filus

  • Diego Barros/Divulgação Iteral

    Duas moradoras da comunidade Filus, da Zona da Mata de Alagoas; à dir., Deusa, 52, a mais velha entre as mulheres albinas



Se sol não falta ao pequeno povoado, sobram queixas sobre a ausência de profissionais da área médica no local. "Para ir até um médico, eles têm de andar mais de 20 km. Não temos histórico de médico nenhum visitando o local nesses últimos anos", diz o médico e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) Jorge Luís Riscado.

Segundo Riscado, um dos problemas sociais causados pelo albinismo é o não-reconhecimento da própria negritude. "Eles se classificam como brancos, embora sejam negros albinos. Quando o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) vai, eles dizem que são brancos."

Isso impede, por exemplo, que eles tenham acesso a programas sociais específicos para comunidades negras ou que participem de vestibular da Ufal no sistema de cotas. "Com esse mapeamento genético, eles terão a prova de que são negros e poderão se afirmar com isso", acredita o médico.

Para sobreviver, os moradores de Filus colhem cana-de-açúcar. Em época de safra, o poder aquisitivo das famílias aumenta. Mas a localidade é carente de água potável e saneamento básico, e a terra oferece pouquíssimas opções de plantio. A principal cultura desenvolvida na região é a banana.

A professora Arísia Barros, coordenadora do Projeto Raízes de África, classifica a comunidade como a "celebração do racismo contemporâneo". Prova disso seriam os albinos sem assistência médica. "Encontramos pessoas que, na ausência de políticas públicas, vivem o horror da herança escravatura."

Segundo ela, a cena encontrada na comunidade é desoladora. "A mesma água que os moradores banham os animais e a mesma água com a qual lavam as roupas é usada para matar a sede. Condições precárias de higiene, sujeitos a epidemias ou à pandemia do descaso institucional", diz.

Apoio
Alagoas possui 23 remanescentes de quilombolas reconhecidas. Além dos problemas encontrados em Filus, o professor explica que outros problemas de ordem genética foram encontrados.

No município de Monteirópolis, na comunidade de Cajá dos Negros, foi diagnosticado um alto índice de remanescentes de escravos com os "pés tortos". Já em Delmiro Gouveia, na comunidade Cruz, há uma prevalência de casos de surdez. Em Jacu e Mocó, em Poço das Trincheiras, existe um grande número de pessoas anãs.

"Temos uma série de questões genéticas e enfermidades encontradas. A Universidade Federal pode contribuir, mas é o poder do Estado que vai desenvolver o tratamento e dar a atenção necessária, já que a faculdade foge desse papel. Temos um alto índice de Aids também e precisamos examinar essas pessoas", explica o médico.

Segundo o Instituto de Terras de Alagoas (Iteral), as comunidades quilombolas têm uma série de benefícios. "Após a obtenção da certidão da Fundação Cultural Palmares como remanescentes de quilombos, a comunidade tem direito a políticas públicas específicas, pois são enquadradas na legislação de proteção aos povos tradicionais, como ocorre com os índios", explica o Iteral, em resposta ao UOL Notícias.

Com a certificação, o Iteral esclarece que "eles adquirem o direito a ter suas terras demarcadas": "Esse trabalho de demarcação do território quilombola compete ao Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)".

Há também vantagem para as escolas que recebem alunos remanescentes de quilombos. "Os quilombolas certificados têm direito, por exemplo, a mais investimento em merenda escolar. Enquanto se paga R$ 0,22 por aluno para a merenda escolar, numa escola para quilombolas esse valor é o dobro por aluno. São R$ 0,44 por aluno para a merenda".

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