Danificada, estação de tratamento da zona leste despeja milhões de litros de esgoto no rio Tietê

Fabiana Uchinaka

Do UOL Notícias, em São Paulo

Mais de 800 litros de esgoto por segundo não estão sendo tratados de forma adequada na Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) de São Miguel Paulista desde 8 de dezembro, quando uma forte chuva atingiu a cidade de São Paulo e deixou o extremo da zona leste completamente alagado.

A estação de tratamento está danificada. Isso significa que milhões de litros de água suja estão voltando para o rio Tietê ou estão parados nos canos de esgoto das casas dos bairros afetados, transbordando.

A estação, que também ficou debaixo de água e entrou em pane, é responsável pelo saneamento básico de bairros como Jardim Pantanal, Chácara Três Meninas, Vila das Flores, Jardim São Martinho, Vila Aimoré, Vila Itaim e Jardim Romano, onde as ruas foram tomadas por lodo e esgoto.

  • Rogério Cassimiro/UOL

    O lodo está represado desde o dia 9 no jardim do conjunto habitacional da rua Capachos

A unidade tem capacidade para tratar 1.500 litros por segundo, mas no momento está às moscas. Enquanto o problema não é resolvido, o Jardim Pantanal e o Jardim Romano entram no oitavo dia de ruas completamente cobertas por uma mistura de esgoto, lama e água, que forma um líquido preto e mal cheiroso.

Mecânicos da Sabesp, que trabalham no local, disseram à reportagem na tarde desta quarta-feira (16) que a estação está totalmente parada há nove dias. A informação foi primeiramente negada pela administração da estação, mas depois que outros funcionários disseram que uma das bombas do local foi ligada 30 minutos antes da inspeção, feita por jornalistas, deputados estaduais e moradores dos bairros da região, veio uma explicação.

Segundo o engenheiro Leonardo Cittadella, gerente do Departamento de Tratamento de Esgotos do Sistema Integrado Metropolitano, da Sabesp, houve uma série de problemas nas bombas da ETE de São Miguel Paulista e por isso parte da água não pode ser sugada e bombeada para os tanques de tratamento.

  • Rogério Cassimiro/UOL

    Leonardo Cittadella (capacete amarelo), responsável pelo tratamento de esgoto, explica a deputados estaduais e moradores da região o problema na estação de São Miguel Paulista

Dois interceptores são responsáveis por levar o esgoto dos bairros da zona leste para a unidade. Um deles, que deveria levar 450 litros por segundo, deixou de funcionar na terça-feira. E as bombas dentro da estação, que deveriam encaminhar todo esse volume para os tanques de tratamento, também pifaram.

O outro interceptor, que transmite 350 litros por segundo e não depende de bombas, está funcionando e sugando o esgoto para a estação, mas a água passa apenas pelo tratamento primário, que retira só 30% dos resíduos antes de devolvê-la ao rio.

O grande problema está no tratamento secundário, que não está sendo aplicado em nenhum dos casos. Os microorganismos aeróbicos que consomem os poluentes e filtram a água morreram com a paralisação da usina e precisam ser repostos. Com isso, todo o esgoto dali está sendo devolvido ao rio sem estar 100% tratado.

Os moradores da região estão indignados com a demora na resolução do problema e com o plano de remoção, que deve começar nesta quinta-feira. "Sai esgoto pelo ralo, não tem como limpar", reclamou Maria Conceição Silva, que mora na rua Capachos, a mais alagada do Jardim Romano. "Tem muita gente ficando doente, pegando leptospirose", contou.

"Não quero falar com você, quero é que resolvam esse problema da água pra gente viver em paz", gritou outro morador, revoltado e visivelmente emocionado.

A coordenadora do Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal Maria Zélia Souza Andrade disse que há muitas pessoas infectadas e machucadas no bairro. "Elas não recebem atendimento, são maltratadas, não tem médico nas Amas [Assistências Médicas Ambulatoriais]. Nos olham com nojo. O que vai acontecer? Essa gente vai morrer", afirmou.

Os deputados estaduais Adriano Diogo (PT) e Raul Marcelo (PSOL), que acompanharam a inspeção, junto com Simão Pedro (PT), pretendem denunciar o caso aos Ministérios Públicos Estadual e Federal, junto com o caso da abertura das comportas na barragem da Penha. (Leia aqui)

"Vimos a falta de planejamento da Sabesp. Essa estação custou R$ 1 bilhão e foi feita em uma área de alagamentos. Ela também vai ser removida?", disse Raul Marcelo. "Vamos convocar a secretária estadual de Saneamento, Dilma Pena, para ir à Assembleia Legislativa prestar esclarecimentos sobre essa situação".

"Ninguém está colhendo amostras da água, ninguém está pondo cloro nessa água, não há orientação para leptospirose, não existe um estado de atenção máxima", completou Adriano Diogo.

Cittadella disse que as bombas foram consertadas nesta quarta-feira, no momento da inspeção, e que o tratamento deve voltar ao normal. No entanto, o tratamento biológico ainda demora mais 15 dias para ser restabelecido.

Veja onde fica a região alagada

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